sexta-feira, 24 de abril de 2015

João dos Biscoitos













Fui à lata dos biscoitos
tirei um
p’ra não ficar em jejum
não, tirei dois
pra comer outro depois
ou seja, tirei três
dois pra mim, um para a Inês
quer dizer, tirei foi quatro
mais um pra calar o gato
ou melhor, tirei os cinco
a pensar no ornitorrinco
perdão, tirei foi seis
mais um pró dono dos carrocéis
não, ao todo tirei sete
mais um para a Bernardete
desculpem lá, tirei oito
é mais biscoito menos biscoito
Por isso tirei o nono
às escondidas do dono
que é o senhor meu pai
que esconde a lata
sempre que sai
E prà conta ficar certa
tirei o número dez
pra dar de oferta
ao meu amigo Moisés
E não tirei mais nenhum
como queria
porque a lata
ficou vazia.
Anthero Monteiro
(inédito)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Glicínia
















Foto in
http://plantasdecasa.blogspot.pt/


é um rosto fechado a tua casa
nem os lábios da porta se entreabrem
nem sorriem seus olhos hialinos
por mais que eu use o pó do teu caminho

por mais que eu aprofunde essa vereda

e dela faça o álveo desta mágoa
a tua casa é concha de refúgio
calcificou o caracol da espera

mal deflagrou o pólen nos espaços

emaranhou-se ao muro  uma glicínia
marinhou pelo mês de março fora
e em minha vez foi ver-te na janela

na tua vez floriu em mil sorrisos

e sempre que aí passo lá me acena
a desdobrar-se em ânsias de infinito
línguas de fogo a rescender a azul

queria eternizar a primavera

e ser a tua rua para sempre

Anthero Monteiro

Canto de Encantos e Desencantos


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Lost paradise






Miguel Ângelo,
"A expulsão do Paraíso"
(Capela Sistina)



o paraíso era o paraíso
mas para isso não era lá necessária
nenhuma serpente
não por ser serpente mas por ser a insídia
a aleivosia a emboscada a artimanha
a polícia
e quando se quer um paraíso
dispensa-se bem qualquer proibição
nem sequer um letreiro a interditar
que se calque a relva se trepe a uma árvore
ou se colha uma flor
ou um fruto
e sobretudo
sobretudo no paraíso
era bem escusado haver um ditador
munido de ardil
de polícia de normas invioláveis
e de um tremendo castigo inapelável:
a negação do próprio paraíso

ANTHERO MONTEIRO, inédito

terça-feira, 6 de maio de 2014

Testemunho – Contributo para a apresentação da obra “Sulcos da Memória e do Esquecimento”, de Anthero Monteiro







JOÃO AREZES 
por
Amílcar Mendes





Deslinda-se desde logo na obra de Anthero Monteiro um caudal de escrita poética de cariz misto, em termos de conteúdo temático, algo entre o ficcionado e o real autobiográfico. O autor parece querer, por um lado devorar a memória de algumas cicatrizes que emergem, pretende de algum modo exorcizá-las e pôr em evidência aquilo que está bem tracejado na mente, enquanto coisa positiva. 

O regresso à infância está bem patente, sobretudo nas primeiras páginas. Há como que um cordão umbilical do pensamento a convocar o autor até à mais tenra idade, disso faz prova o poema “os primeiros passos”, um quadro de visão imagética que questiona, sem deixar de o aceitar, um certo misticismo e é até possível vislumbrar um namoro ao conceito de Alegoria da Caverna, o mistério da vida possibilita estas divagações. Um poema de todo em todo fotográfico, num certo preto e branco que sorri.

Em “104 palmatoadas” há toda uma descrição de ambiência escolar punitiva para com os alunos, paradigma e apanágio do Antigo Regime. O autor, face a uma notável vocação para as lides das letras, superiorizava-se aos demais colegas nos ditados e é, consequentemente e a contragosto, investido da condição de carrasco no castigo aos que mais erros davam. Em vez de um machado, ao algoz era fornecida uma régua, instrumento com o qual se mediam os erros ortográficos dos outros, numa estatística de contabilidade dolorosa. Escusado será dizer com o que contava o autor no exterior do estabelecimento de ensino.

A esta jornada vivencial convertida em obra poética soma-se a chegada do seu primeiro grande amor. A primeira dona do “ás de copas” do autor foi “benilde”. (…) Conheceu-a na festa de agosto, passeou com ela de mãos dadas, o olhar obcecado pela luz que irradiava aquele rosto mais grácil e doce do que o da santa do andor.

Os amores precoces são voláteis na duração, mas perduram na memória para todo-o-sempre. Aos 9 anos de idade a desilusão tem mais ênfase que a consciência. O resultado de um amor não correspondido degenera num pedido para ir estudar para padre.

E a exorcização do mal passa das reguadas com que brindava os outros na sala de aula para o chicote com que era tatuado maternalmente quando se portava mal, falamos de “diavolo in corpo”.

“a besta” é um exercício de quem não perdoa e não esquece um período negro no seminário. Reporta-se à figura de um diretor cuja fotografia neuronal tirada pelo autor, é verdadeiramente e na essência um momento Kodak: para mais tarde recordar.

Quem há de esquecer se a recordação se sobrepõe ao ódio e é um ferrete indelével na pele do escravo. Basta lembrar um claustro, a capela ou a sala do capítulo daquela casa para logo perceber como ela ficou para sempre assombrada pela figura voluminosa do diretor.
“o meu ribeirinho” é uma recordação lamentada e simultaneamente conformada, preenchida de um valor telúrico de outros tempos vividos e da clivagem que se opera face às mudanças entretanto ocorridas. Há uma boa dose de nostalgia e aqui se releva o papel recorrente da memória, porque só ela consegue dar vida às coisas que já desapareceram.

No caso de “um domingo e muitos mais” trata-se de um poema seminal da obra, pleno de candura, a evocar o romance que o une à sua companheira de há meio século. Por conseguinte, as páginas 36 e 37 são um sublinhado estético do quanto uma história de amor se renova numa declaração contínua a esse mesmo sentimento e acabam por tornar o poema num imperativo de leitura.

“a confissão” é um relato de quem inocentemente espera uma redenção suave e sofre uma sentença inesperadamente castigadora. De algum modo, o autor tributa-a como inversamente pedagógica para o penitente: E foi remédio sacrossanto, emendei-me para sempre, nunca mais disse a verdade.
Logo a seguir surge o episódio poético que dá pelo nome de “páscoa”, moldado em lembranças, deambula entre o religioso temático e o paganismo de situação. Irónico, mas nostálgico, pois enquanto criança não se questiona a validade das asserções: Como era bom acreditar sem nada questionar. Os olhos outra vez surpresos por tudo se repetir cada ano (…).

“questão de espaço” remete para o ateísmo do autor, segundo ele “Deus tem, reconheço, uma enorme vantagem, existe em toda a parte mas não ocupa espaço nenhum”.

“fatal esquecimento”, “luto” e “alzheimer” e “cadeira de rodas” que enquadram a doença e a morte e dissertam sobre a perda dos nossos entes queridos. São uma espécie de pontos de paragem, sendo também pontos de passagem existencial dos outros que marcam as nossas vidas.

Por outro lado, “o promontório” é o país das glórias passadas a fazer uma análise introspetiva, a conjugar-se no pretérito, mas também no presente do indicativo. A antítese entre a História grande da nação versus a memória curta dos que a habitam.
“obrigado sou feliz” é outro dos poemas essenciais da obra, impregnado de ironia ácida, faz-se compreender pela razão inversa entre a palavra e o propósito. Uma espécie de drama cómico situacional, essa relação de tragicomédia em que todos estão dispostos a ajudar e a fazer com que sejamos felizes…deixando-nos nas cordas! Dir-se-ia que é um poema de final infeliz, mas com humor conclusivo bem recortado.

“olvido” estabelece o contraponto entre a memória e o esquecimento. Na incidência de conteúdo prevalece o esquecimento, mas o que é o esquecimento senão a ausência de memória? Este esquecimento que reside no poema é personificado por Olívio que assume a alcunha de Olvido.

“um poeta amnésico” poderia denominar-se por “poema do medo de perder a memória” e “poema do homem sentado” bem poderia ser uma peça de Beckett ao jeito de “À Espera de Godot”. “notas para um epitáfio” e “últimas palavras” são uma antevisão parodiada da morte.

Como rodapé deve dizer-se que “Sulcos da Memória e do Esquecimento” tem um desenho poético-literário bem alicerçado, rico em sugestões metafóricas que auxiliam à assimilação da obra. Embarcamos num navio da memória, que tenta sulcar as ondas de esquecimento: a saudade, a tristeza, as injustiças e uma certa impotência em lutar contra Kronos, o eterno vencedor. Conquanto que as boas recordações de infância, adolescência e idade adulta sejam enfatizadas com sábias doses de ironia e sátira, há também alegria e humor. Mas sobretudo subsiste um virtuosismo de escrita que conferem à obra o elã de criar o apetite para a fruição de uma boa dose de nutrição poética.


João Fernando Arezes (jornalista)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Um domingo e muitos mais




















será exíguo o fio da minha vida
mas foi urdido com algumas eternidades
foram eternidades os minutos da minha espera
debaixo das palmeiras do adro
naquela tarde de domingo
lembras-te certamente: dois enormes exemplares
emolduravam a igreja da nossa terra
nos primeiros anos da década de sessenta

dali via-se ao longe o oceano e contemplando-o
ensaiava a intimidade com o absoluto
mal chegaste começou a vida do mortal
que assiste à vertigem das horas no relógio da torre
afoguei os meus olhos no mar que trazias nos teus
e deixei-me submergir nos sobressaltos da surpresa
partimos pelas ruas atónitas da aldeia
com as palmeiras a flabelar adeuses
e os pássaros nas tílias interpretando vivaldi

foi o nosso primeiro passeio lado a lado
duas brevíssimas horas daquela semana diferente
porque passou finalmente a haver domingo
enfim reparaste que eu sobraçava um livro
(se me conhecesses bem saberias que o livro era inevitável)
e pudeste ler-lhe o sugestivo título:
davam grandes passeios aos domingos

hoje régio há-de interrogar o seu deus e o seu diabo
para entender como afinal o nosso passeio ainda dura
já lá vão mais de quarenta anos pelas caminhos 
da nossa aldeia com horizontes líquidos ao fundo
arrancaram as palmeiras arrancaram as tílias
mas ninguém conseguiu arrancar o meu olhar do teu

prefiro continuar a ver o atlântico nos teus olhos

Anthero Monteiro,

Sulcos da Memória e do Esquecimento
Porto, Corpos Editora, 2013

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O riso de Felismundo













Quero rir-me mas em vão
que vida assim não dá riso
pois já lá diz o rifão
que quem se ri sem razão
é porque tem pouco siso.
Assim meu riso é só um:

ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum

Meio doido da cabeça
não me responsabilizo
se me sair este riso
que talvez choro pareça
e não tem jeito nenhum:

ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum

Ser feliz eu bem queria
e ainda que tenha fome
sou-o ao menos de nome
e finjo a enorme alegria
dos foguetes pum pum pum:

ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum

Mas é com grande alvoroço
que rio mais do que um momo.
Até parece que como
riso ao jantar e ao almoço
e assim não fico em jejum:

ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum

Rir assim até me custa.
Pareço dono do mundo
mas sei bem que lá no fundo
pra muitos a vida é injusta.
Rir assim não é comum:

ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum

Mas não quero entristecer
tudo quanto me rodeia.
Por isso tenho esta ideia
de rir sem me apetecer
e sem ter motivo algum:

ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum
ferrum fum fum

Anthero Monteiro (inédito)


domingo, 2 de fevereiro de 2014

A Lia que lia lia




Capa do livro 
em que se insere 
o poema seguinte 
que lhe serviu 
de título




Minha boa amiga Lia
muito lia  muito lia
Lia de noite e de dia
lia lia lia lia

Lia tudo o que queria
Zoologia Geologia
lia até Psicologia
livros de Filosofia
mapas de Geografia
temas de Pedagogia
problemas de Economia
tratados de Biologia
volumes de Biografia
coisas da Tecnologia
e tanta bibliografia
que já ninguém avalia
quantas páginas a Lia
tinha lido ao fim do dia

Minha boa amiga Lia
muito lia muito lia
lia de noite e de dia
lia lia lia lia

De manhãzinha ela lia
só parava ao meio-dia
sopa de letras comia
mas quase nem engolia

À tarde nem se mexia
lia tudo o que podia
lia tudo por mania
tudo o que na estante havia
na biblioteca existia
ou então na livraria

À noite pouco dormia
lia à luz da almotolia
e sempre que adormecia
sonhava que lia lia
lia relia treslia
sempre sem uma arrelia
sempre a sorrir de alegria
sem sentir monotonia
ou sofrer de miopia
ou de qualquer alergia

Minha boa amiga Lia
muito lia muito lia
lia de noite e de dia
lia lia lia lia

A mãe lavava e cosia
espanejava e varria
e ela lia lia lia

O pai gastava a maquia
ia ao casino e perdia
e ela lia lia lia

A irmã pouco fazia
pois tinha paralisia
e ela lia lia lia

O irmão era só folia
só folguedo e romaria
e ela lia lia lia

A avó coitada dormia
esperando a morte fria
e ela lia lia lia

O avô que quase não via
em vão chamava pla Lia
e ela lia lia lia

O primo só televia
todos os canais que havia
e ela lia lia lia

E enquanto a prima Maria
ia prà Cova da Iria
ela lia lia lia

O tio era uma apatia
era uma vida vazia
e ela lia lia lia

 Melhor do que ele era a tia
mas morreu com anemia
e ela lia lia lia

E enquanto eu escrevia
esta longa poesia
a Lia toda crescia
em grande sabedoria
porque lia lia lia
lia lia lia lia

Ler como ela ninguém lia
ler como ela só a Lia

Anthero Monteiro
“A Lia Que Lia Lia”, 2.ª edição, Corpos Editora, Porto, 2010