sexta-feira, 1 de maio de 2015
Beatriz
Beatriz só sabe dizer
pai
mãe
pão
não
e tim
em vez de sim
e em vez de dizer
Beatriz
diz apenas
tiz
(só não acerta
a última sílaba
por um triz)
ainda só anda pelos monossílabos
não diz copo
nem faca
nem boca
nem olhos
e pra dizer nariz
fica-se pelo niz
os dissílabos só se forem partidos
aos bocados
e os polissílabos ainda vêm longe
de tão complicados
o pai
a mãe
o tio
impacientam-se
eles queriam que ela
que ainda não sabe dizer
desobediente
nem adolescente
nem afluente
nem presente
nem dente
nem pente
nem gente
aparecesse ali a dizer de repente
anticonstitucionalissimamente
Anthero Monteiro
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Poesia infantil
terça-feira, 28 de abril de 2015
Fidelidade
A peça terminava com um beijo apaixonado
do protagonista e da amante.
Mas como o ator descobriu
a verdadeira mulher entre a assistência
acabou por dar um beijo
na boca de cena.
do protagonista e da amante.
Mas como o ator descobriu
a verdadeira mulher entre a assistência
acabou por dar um beijo
na boca de cena.
Anthero Monteiro
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Pulga na orelha
ora uma pulga expedita
irrequieta e irritante
que saltita que saltita
e que se põe num instante
no lugar mais eminente
um dia deu-lhe na telha
sem convite e sem pergunta
de saltar mesmo prá orelha
do presidente da junta…
sim senhor, do presidente!
foi aí que o secretário
que estava a fazer a ata
viu o salto extraordinário
daquela pulga acrobata
mas tão desavergonhada
e pra livrar o colega
do inseto e afugentá-lo
no cachaço lhe pespega
um tremendíssimo estalo…
sim senhor, mas que estalada!
estatelou-se redondo
o presidente no chão
e ao ouvir aquele estrondo
a pulga decide então
pular pró outro parceiro
estava a contar a maquia
que por acaso era escassa
somava e subtraía
ele era o dono da massa…
sim senhor, o tesoureiro!
o secretário espiara
com os olhos o trajeto
do salto da pulga ignara
desse infamíssimo inseto
tão malquisto e ordinário
e zás acerta na nuca
do homem do capital
que até lhe arranca a peruca
e quebra em três um cristal…
sim senhor, lá num armário!
secretário e presidente
presidente e tesoureiro
envolvem-se de repente
com violento berreiro
num terrível pugilato
depois pararam os três
e como belos rapazes
lá decidiram de vez
fazerem ali as pazes…
sim senhor, é mais sensato!
sentaram-se os três à mesa
merendaram conversaram
riram daquela proeza
e finalmente tomaram
junto duma escrivaninha
uma grande decisão
que era a única acertada
pediram a demissão
também não se perdeu nada…
não senhor, nada nadinha!
perder é como quem diz
não é bem como se julga
perdeu a vila de Avis
o rastro daquela pulga.
se ela não estiver defunta
decerto que a esta hora
fugida àquela razia
foi há muito lá pra fora
morder noutra freguesia
sim senhor, ou noutra junta!
Anthero Monteiro
(inédito)
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Poesia Juvenil
João dos Biscoitos
Fui à lata dos biscoitos
tirei um
p’ra não ficar em jejum
não, tirei dois
pra comer outro depois
ou seja, tirei três
dois pra mim, um para a Inês
quer dizer, tirei foi quatro
mais um pra calar o gato
ou melhor, tirei os cinco
a pensar no ornitorrinco
perdão, tirei foi seis
mais um pró dono dos carrocéis
não, ao todo tirei sete
mais um para a Bernardete
desculpem lá, tirei oito
é mais biscoito menos biscoito
tirei um
p’ra não ficar em jejum
não, tirei dois
pra comer outro depois
ou seja, tirei três
dois pra mim, um para a Inês
quer dizer, tirei foi quatro
mais um pra calar o gato
ou melhor, tirei os cinco
a pensar no ornitorrinco
perdão, tirei foi seis
mais um pró dono dos carrocéis
não, ao todo tirei sete
mais um para a Bernardete
desculpem lá, tirei oito
é mais biscoito menos biscoito
Por isso tirei o nono
às escondidas do dono
que é o senhor meu pai
que esconde a lata
sempre que sai
às escondidas do dono
que é o senhor meu pai
que esconde a lata
sempre que sai
E prà conta ficar certa
tirei o número dez
pra dar de oferta
ao meu amigo Moisés
tirei o número dez
pra dar de oferta
ao meu amigo Moisés
E não tirei mais nenhum
como queria
porque a lata
ficou vazia.
como queria
porque a lata
ficou vazia.
Anthero Monteiro
(inédito)
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Poesia infantil
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Glicínia
Foto in
http://plantasdecasa.blogspot.pt/
é um rosto fechado a tua casa
nem os lábios da porta se entreabrem
nem sorriem seus olhos hialinos
por mais que eu use o pó do teu caminho
por mais que eu aprofunde essa vereda
e dela faça o álveo desta mágoa
a tua casa é concha de refúgio
calcificou o caracol da espera
mal deflagrou o pólen nos espaços
emaranhou-se ao muro uma glicínia
marinhou pelo mês de março fora
e em minha vez foi ver-te na janela
na tua vez floriu em mil sorrisos
e sempre que aí passo lá me acena
a desdobrar-se em ânsias de infinito
línguas de fogo a rescender a azul
queria eternizar a primavera
e ser a tua rua para sempre
Anthero Monteiro,
Canto de Encantos e Desencantos
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Lost paradise
Miguel Ângelo,
"A expulsão do Paraíso"
(Capela Sistina)
o paraíso era o paraíso
mas para isso não era lá necessária
nenhuma serpente
não por ser serpente mas por ser a insídia
a aleivosia a emboscada a artimanha
a polícia
e quando se quer um paraíso
dispensa-se bem qualquer proibição
nem sequer um letreiro a interditar
que se calque a relva se trepe a uma árvore
ou se colha uma flor
ou um fruto
dispensa-se bem qualquer proibição
nem sequer um letreiro a interditar
que se calque a relva se trepe a uma árvore
ou se colha uma flor
ou um fruto
e sobretudo
sobretudo no paraíso
era bem escusado haver um ditador
munido de ardil
de polícia de normas invioláveis
e de um tremendo castigo inapelável:
a negação do próprio paraíso
sobretudo no paraíso
era bem escusado haver um ditador
munido de ardil
de polícia de normas invioláveis
e de um tremendo castigo inapelável:
a negação do próprio paraíso
ANTHERO MONTEIRO, inédito
terça-feira, 6 de maio de 2014
Testemunho – Contributo para a apresentação da obra “Sulcos da Memória e do Esquecimento”, de Anthero Monteiro
JOÃO AREZES
por
Amílcar Mendes
Deslinda-se desde logo na obra de Anthero Monteiro um caudal
de escrita poética de cariz misto, em termos de conteúdo temático, algo entre o
ficcionado e o real autobiográfico. O autor parece querer, por um lado devorar
a memória de algumas cicatrizes que emergem, pretende de algum modo
exorcizá-las e pôr em evidência aquilo que está bem tracejado na mente,
enquanto coisa positiva.
O regresso à infância está bem patente, sobretudo nas
primeiras páginas. Há como que um cordão umbilical do pensamento a convocar o
autor até à mais tenra idade, disso faz prova o poema “os primeiros passos”, um
quadro de visão imagética que questiona, sem deixar de o aceitar, um certo
misticismo e é até possível vislumbrar um namoro ao conceito de Alegoria da
Caverna, o mistério da vida possibilita estas divagações. Um poema de todo em
todo fotográfico, num certo preto e branco que sorri.
Em “104 palmatoadas” há toda uma descrição de ambiência
escolar punitiva para com os alunos, paradigma e apanágio do Antigo Regime. O
autor, face a uma notável vocação para as lides das letras, superiorizava-se
aos demais colegas nos ditados e é, consequentemente e a contragosto, investido
da condição de carrasco no castigo aos que mais erros davam. Em vez de um
machado, ao algoz era fornecida uma régua, instrumento com o qual se mediam os
erros ortográficos dos outros, numa estatística de contabilidade dolorosa.
Escusado será dizer com o que contava o autor no exterior do estabelecimento de
ensino.
A esta jornada vivencial convertida em obra poética soma-se a
chegada do seu primeiro grande amor. A primeira dona do “ás de copas” do autor
foi “benilde”. (…) Conheceu-a na festa de
agosto, passeou com ela de mãos dadas, o olhar obcecado pela luz que irradiava
aquele rosto mais grácil e doce do que o da santa do andor.
Os amores precoces são voláteis na duração, mas perduram na
memória para todo-o-sempre. Aos 9 anos de idade a desilusão tem mais ênfase que
a consciência. O resultado de um amor não correspondido degenera num pedido
para ir estudar para padre.
E a exorcização do mal passa das reguadas com que brindava os
outros na sala de aula para o chicote com que era tatuado maternalmente quando
se portava mal, falamos de “diavolo in corpo”.
“a besta” é um exercício de quem não perdoa e não esquece um
período negro no seminário. Reporta-se à figura de um diretor cuja fotografia
neuronal tirada pelo autor, é verdadeiramente e na essência um momento Kodak:
para mais tarde recordar.
Quem há de esquecer se
a recordação se sobrepõe ao ódio e é um ferrete indelével na pele do escravo.
Basta lembrar um claustro, a capela ou a sala do capítulo daquela casa para
logo perceber como ela ficou para sempre assombrada pela figura voluminosa do
diretor.
“o meu ribeirinho” é uma recordação lamentada e
simultaneamente conformada, preenchida de um valor telúrico de outros tempos
vividos e da clivagem que se opera face às mudanças entretanto ocorridas. Há uma
boa dose de nostalgia e aqui se releva o papel recorrente da memória, porque só
ela consegue dar vida às coisas que já desapareceram.
No caso de “um domingo e muitos mais” trata-se de um poema
seminal da obra, pleno de candura, a evocar o romance que o une à sua
companheira de há meio século. Por conseguinte, as páginas 36 e 37 são um
sublinhado estético do quanto uma história de amor se renova numa declaração
contínua a esse mesmo sentimento e acabam por tornar o poema num imperativo de
leitura.
“a confissão” é um relato de quem inocentemente espera uma
redenção suave e sofre uma sentença inesperadamente castigadora. De algum modo,
o autor tributa-a como inversamente pedagógica para o penitente: E foi remédio sacrossanto, emendei-me para
sempre, nunca mais disse a verdade.
Logo a seguir surge o episódio poético que dá pelo nome de “páscoa”,
moldado em lembranças, deambula entre o religioso temático e o paganismo de
situação. Irónico, mas nostálgico, pois enquanto criança não se questiona a
validade das asserções: Como era bom
acreditar sem nada questionar. Os olhos outra vez surpresos por tudo se repetir
cada ano (…).
“questão de espaço” remete para o ateísmo do autor, segundo
ele “Deus tem, reconheço, uma enorme vantagem, existe em toda a parte mas não
ocupa espaço nenhum”.
“fatal esquecimento”, “luto” e “alzheimer” e “cadeira de rodas”
que enquadram a doença e a morte e dissertam sobre a perda dos nossos entes
queridos. São uma espécie de pontos de paragem, sendo também pontos de passagem
existencial dos outros que marcam as nossas vidas.
Por outro lado, “o promontório” é o país das glórias passadas
a fazer uma análise introspetiva, a conjugar-se no pretérito, mas também no
presente do indicativo. A antítese entre a História grande da nação versus a
memória curta dos que a habitam.
“obrigado sou feliz” é outro dos poemas essenciais da obra, impregnado
de ironia ácida, faz-se compreender pela razão inversa entre a palavra e o
propósito. Uma espécie de drama cómico situacional, essa relação de
tragicomédia em que todos estão dispostos a ajudar e a fazer com que sejamos
felizes…deixando-nos nas cordas! Dir-se-ia que é um poema de final infeliz, mas
com humor conclusivo bem recortado.
“olvido” estabelece o contraponto entre a memória e o
esquecimento. Na incidência de conteúdo prevalece o esquecimento, mas o que é o
esquecimento senão a ausência de memória? Este esquecimento que reside no poema
é personificado por Olívio que assume a alcunha de Olvido.
“um poeta amnésico” poderia denominar-se por “poema do medo
de perder a memória” e “poema do homem sentado” bem poderia ser uma peça de
Beckett ao jeito de “À Espera de Godot”. “notas para um epitáfio” e “últimas palavras”
são uma antevisão parodiada da morte.
Como rodapé deve dizer-se que “Sulcos da Memória e do
Esquecimento” tem um desenho poético-literário bem alicerçado, rico em
sugestões metafóricas que auxiliam à assimilação da obra. Embarcamos num navio
da memória, que tenta sulcar as ondas de esquecimento: a saudade, a tristeza,
as injustiças e uma certa impotência em lutar contra Kronos, o eterno vencedor.
Conquanto que as boas recordações de infância, adolescência e idade adulta
sejam enfatizadas com sábias doses de ironia e sátira, há também alegria e
humor. Mas sobretudo subsiste um virtuosismo de escrita que conferem à obra o
elã de criar o apetite para a fruição de uma boa dose de nutrição poética.
João Fernando Arezes (jornalista)
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