segunda-feira, 22 de junho de 2015

Eleutério













Anthero Monteiro
by Luís Abrunhosa







ninguém acredita mas ele continua
a sustentar aquela vaga lembrança
de ter ouvido junto da pia iniciática
entre os sustos da água e do sal
do primeiro sacramento
a música da palavra eleutério
era um nome esdrúxulo mas bem promissor

infelizmente todos lhe chamam
desde sempre e apenas silva

Anthero Monteiro

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Beatriz












Beatriz só sabe dizer
pai
mãe
pão
não
e tim
em vez de sim

e em vez de dizer
Beatriz
diz apenas
tiz
(só não acerta
a última sílaba
por um triz)

ainda só anda pelos monossílabos
não diz copo
nem faca
nem boca
nem olhos
e pra dizer nariz
fica-se pelo niz

os dissílabos só se forem partidos
aos bocados
e os polissílabos ainda vêm longe
de tão complicados

o pai
a mãe
o tio
impacientam-se
eles queriam que ela
que ainda não sabe dizer
desobediente
nem adolescente
nem afluente
nem presente
nem dente
nem pente
nem gente
aparecesse ali a dizer de repente
anticonstitucionalissimamente


Anthero Monteiro

terça-feira, 28 de abril de 2015

Fidelidade













A peça terminava com um beijo apaixonado
do protagonista e da amante.
Mas como o ator descobriu
a verdadeira mulher entre a assistência
acabou por dar um beijo
na boca de cena.
Anthero Monteiro

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Pulga na orelha















ora uma pulga expedita 
irrequieta e irritante
que saltita que saltita
e que se põe num instante
no lugar mais eminente
um dia deu-lhe na telha
sem convite e sem pergunta
de saltar mesmo prá orelha
do presidente da junta…
sim senhor, do presidente!

foi aí que o secretário
que estava a fazer a ata
viu o salto extraordinário
daquela pulga acrobata
mas tão desavergonhada
e pra livrar o colega
do inseto e afugentá-lo
no cachaço lhe pespega
um tremendíssimo estalo…
sim senhor, mas que estalada!

estatelou-se redondo
o presidente no chão
e ao ouvir aquele estrondo
a pulga decide então
pular pró outro parceiro
estava a contar a maquia
que por acaso era escassa
somava e subtraía
ele era o dono da massa…
sim senhor, o tesoureiro!

o secretário espiara
com os olhos o trajeto
do salto da pulga ignara
desse infamíssimo inseto
tão malquisto e ordinário
e zás acerta na nuca
do homem do capital
que até lhe arranca a peruca
e quebra em três um cristal…
sim senhor, lá num armário!

secretário e presidente
presidente e tesoureiro
envolvem-se de repente
com violento berreiro
num terrível pugilato
depois pararam os três
e como belos rapazes
lá decidiram de vez
fazerem ali as pazes…
sim senhor, é mais sensato!

sentaram-se os três à mesa
merendaram conversaram
riram daquela proeza
e finalmente tomaram
junto duma escrivaninha
uma grande decisão
que era a única acertada
pediram a demissão
também não se perdeu nada…
não senhor, nada nadinha!

perder é como quem diz
não é bem como se julga
perdeu a vila de Avis
o rastro daquela pulga.
se ela não estiver defunta
decerto que a esta hora
fugida àquela razia
foi há muito lá pra fora
morder noutra freguesia
sim senhor, ou noutra junta!


Anthero Monteiro
(inédito)

João dos Biscoitos













Fui à lata dos biscoitos
tirei um
p’ra não ficar em jejum
não, tirei dois
pra comer outro depois
ou seja, tirei três
dois pra mim, um para a Inês
quer dizer, tirei foi quatro
mais um pra calar o gato
ou melhor, tirei os cinco
a pensar no ornitorrinco
perdão, tirei foi seis
mais um pró dono dos carrocéis
não, ao todo tirei sete
mais um para a Bernardete
desculpem lá, tirei oito
é mais biscoito menos biscoito
Por isso tirei o nono
às escondidas do dono
que é o senhor meu pai
que esconde a lata
sempre que sai
E prà conta ficar certa
tirei o número dez
pra dar de oferta
ao meu amigo Moisés
E não tirei mais nenhum
como queria
porque a lata
ficou vazia.
Anthero Monteiro
(inédito)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Glicínia
















Foto in
http://plantasdecasa.blogspot.pt/


é um rosto fechado a tua casa
nem os lábios da porta se entreabrem
nem sorriem seus olhos hialinos
por mais que eu use o pó do teu caminho

por mais que eu aprofunde essa vereda

e dela faça o álveo desta mágoa
a tua casa é concha de refúgio
calcificou o caracol da espera

mal deflagrou o pólen nos espaços

emaranhou-se ao muro  uma glicínia
marinhou pelo mês de março fora
e em minha vez foi ver-te na janela

na tua vez floriu em mil sorrisos

e sempre que aí passo lá me acena
a desdobrar-se em ânsias de infinito
línguas de fogo a rescender a azul

queria eternizar a primavera

e ser a tua rua para sempre

Anthero Monteiro

Canto de Encantos e Desencantos


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Lost paradise






Miguel Ângelo,
"A expulsão do Paraíso"
(Capela Sistina)



o paraíso era o paraíso
mas para isso não era lá necessária
nenhuma serpente
não por ser serpente mas por ser a insídia
a aleivosia a emboscada a artimanha
a polícia
e quando se quer um paraíso
dispensa-se bem qualquer proibição
nem sequer um letreiro a interditar
que se calque a relva se trepe a uma árvore
ou se colha uma flor
ou um fruto
e sobretudo
sobretudo no paraíso
era bem escusado haver um ditador
munido de ardil
de polícia de normas invioláveis
e de um tremendo castigo inapelável:
a negação do próprio paraíso

ANTHERO MONTEIRO, inédito