sábado, 19 de março de 2016

Madrigal














(Foto ANAAS)





que tirassem a luz da flor da terra
que arrancassem aos céus o Sol e a Lua
que aplanassem a curva a cada serra
os vales fossem coisa morta e nua


que secassem as águas cristalinas
dos mansos rios e dos meigos lagos
que morressem miosótis e boninas
murchassem as carícias e os afagos

que a natureza fosse deusa enferma
mortos os entes pelo globo além
e que a vida ficasse triste e erma
sem oásis sem nada sem ninguém

contanto que ficasse o teu sorriso
inda havia na terra o paraíso

ANTHERO MONTEIRO, Canto de Encantos e Desencantos,
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2005

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

o senhor z












Anthero Monteiro
numa sessão de poesia




ao fim de um longo dia de trabalho
um zero-à-esquerda sempre zangado
sempre ziguezagueando sempre zangarilhando
na ingrata e persistente luta para subir na vida
o senhor z sentia-se exausto

sentou-se no sofá ligou a tv
e logo retomou o comando
a pensar em mudar para um canal
mais interessante um combate de boxe
seria uma hipótese de aprender a lutar
por um lugar mais condigno

ia premir o botão
mas deixou-se vencer pelo sono
quando horas depois acordou
viu-se derrotado também pela resignação

não seria assim que alguma vez 
conseguiria subir
na ordem alfabética


Anthero Monteiro (inédito)

domingo, 25 de outubro de 2015

Contragravidade














quando subia a imensa escadaria
desequilibrou-se
e foi estatelar-se lá em cima

pelo menos garantiram-me
que agora está no céu

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Contrastes




















todo este céu que alguns momentos dura
esta infinita eternidade exígua
este sabor que perpassou na língua
o pressentir que todo o mal tem cura

este sorrir que me visita os lábios
que anda comigo à hora imprevisível
porque os meus olhos viram o invisível
e passei a saber mais do que os sábios

e por coisas banais muito pequenas
sinto-me grande às vezes e possante
só por aquele afortunado instante
em que mesmo de longe tu me acenas

não me acena o futuro não sorri
e se sorrio é só porque sou doido
é um infinito inferno este céu todo
e tudo isso vem de ti de ti

vivo assim dentro desta colisão
de forças de gigantes tão adversos
onde morrem e nascem universos
onde é ínfimo e é enorme o coração

Anthero Monteiro

16/06/2010

sábado, 22 de agosto de 2015

O poeta vai ao médico





















então de que se queixa?
o poeta pede licença para ler-lhe um poema
o clínico encrespa um tudo-nada as feições
mas condescende sou todo ouvidos

como não foi treinado para ser todo ouvidos
espera impaciente
que o fim chegue depressa
e o poema era curto afinal

só isso? pergunta
sim doutor é só isto o que sinto
mas nunca conseguiria
dizer-lho de outra forma

o doutor gatafunha umas linhas
num papel timbrado
pronto pode levar este meu
à farmácia

mas doutor não percebo uma

não se preocupe 
eles lá foram treinados
para ler qualquer rabisco


Anthero Monteiro

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Servir




















passou a vida ao serviço dos demais
do próximo ou do distante
do indivíduo ou da multidão
de quem tinha pouco ou muito mais do que ele
o seu lema era servir sem ver a quem

quanto a servir-se
servia-se apenas à mesa
o suficiente para manter o vigor
e poder continuar a servir os outros

também se servia de algum descanso
pelos mesmos motivos
servia-se ainda do sol e da chuva
das amoras nos valados
dos trilhos dos bosques e das mo ntanhas
dos miradouros para o indizível
da secreta companhia das estrelas
de tudo quanto é naturalmente de todos

um dia de repente deixou de servir
e como nem sequer conseguia mexer-se
recebeu a recompensa que nunca reivindicara:
ficou ali mesmo transformado
em estátua jacente


Anthero Monteiro

Primeiro encontro











Foto: A.M. 





ribeiro nunca tinha visto o mar
viera do interior nortenho
com os olhos apenas acostumados
às corcovas das montanhas
e à infinitude das noites estreladas

vasconcelos esse conhecia bem o oceano
atravessara-o desde a sua ilha
para ser também nosso condiscípulo
de internato

quase todos chegaram do litoral
e os outros eram amiúde atraídos
pela linha líquida do horizonte

numas férias acampámos todos
perto da foz de um rio modesto
nas dunas que antecedem o areal
aplanado pelas ondas

bastava subir a encosta
e logo teríamos aquela aparição
de plenitude e incomensurável

o momento mais esperado seria assistir
ao primeiro encontro entre ribeiro e o mar
todos esperavam o olhar de espanto do colega
uma centelha de deslumbramento
uma interjeição de assombro
perante o inefável

mas ribeiro era uma água quase parada
e continuava sem pressas a colocar os prumos
a bater as estacas a prender a lona
como quem  antegosta o melhor do prato
deixando-o para o fim

a impaciência desaguou no desânimo
do lado de lá da duna seguia-se uma planura
de areia e uma bola começou por ali a rolar
sob o impulso dos nossos pés descalços

só muito depois ribeiro subiu o declive
e silente discreto vagaroso
como quem se acerca de um leão
e humilde como arroio que vai ter com o oceano
foi descendo até à areia mais húmida

foi Vasconcelos na baliza quem deu o sinal
o jogo coagulou ali por minutos
e todos quiseram assistir
àquele primeiro encontro

o moço ali parado e reverente
enchendo os olhos de infinito
até que uma onda mais afoita e mais humilde
veio beijar-lhe os pés

ele baixou-se e estendeu-lhe as mãos
num cumprimento que era já um abraço

depois desatou a correr
deitou-nos a língua de fora
e veio integrar o jogo logo reatado


Anthero Monteiro