sábado, 11 de março de 2017
A toupeira
Uma vez por ano
a toupeira chega de
metropolitano
apeia-se na minha horta
e fica ali a espreitar à minha
porta
Um pouco infeliz talvez
a toupeira
quase morre de timidez
e é por isso que é solteira
Mas como espreita por todo o
lado
o desconfiado
do meu pai
diz que se trata de uma agente
do FBI
e vem de enxada atrás dela
a ver se ela cai
na esparrela
Ora eu nunca vi uma espia
que sofra assim de miopia
Tenho por certo que ela gosta
de mim
que eu bem a vejo do postigo
a rondar no meu jardim
e a querer falar comigo
Acho mesmo que no próximo ano
ela vai prolongar o
metropolitano
e vai sair numa nova estação
debaixo do meu colchão
Vou então emprestar-lhe umas
lentes
e juntos muito contentes
sentadinhos no meu quarto bem
tranquilo,
vamos ler a história do
Pinóquio e do seu grilo
de modo que a toupeira fique a
saber algo do seu vizinho
que também anda de metro e
vive num buraquinho
Talvez a partir desse momento
ela aceite marcar o casamento
e partir numa viagem nupcial
com o tal grilo do Pinóquio
no metropolitano
intercontinental
até Tóquio.
Anthero Monteiro
Explicando o nada
"Escadas para o nada"
(Stairway of Nothingness)
Alpes austríacos
http://ecoviagem.uol.com.br/noticias/curiosidades/turismo/conheca-as-impressionantes-escadas-para-o-nada-da-austria-veja-fotos-18318.asp
É precisa imaginação
(Stairway of Nothingness)
Alpes austríacos
http://ecoviagem.uol.com.br/noticias/curiosidades/turismo/conheca-as-impressionantes-escadas-para-o-nada-da-austria-veja-fotos-18318.asp
É precisa imaginação
até mais não
para
conceber a noção
do nada.
O nada é uma
ideia engraçada
sem graça
nenhuma,
uma espécie
de espuma
que cresce e
logo se esfuma,
um balão que
se alenta
e logo
rebenta.
Já procurei
o nada
lá longe e
aqui perto
debaixo da
cama
e até no
deserto
do Sara e no
de Atacama
no
sorvedouro do céu
no
sorvedouro do mar
e ele nunca
apareceu
para me
cumprimentar.
O nada
não avança
nem balança
nem recua
nem flutua
nem borbulha
nem mergulha
nem se
enfada
nem nada.
O nada
é uma mesa
triste
que nem
sequer existe
e em cima da
qual há uma salada
inexistente
e um prato
de filetes de pescada
que
simplesmente
nunca foi
apanhada,
com um
montinho de arroz
que nunca
ninguém lá pôs.
O nada
não está
debaixo da escada
como a
vassoura
e o
apanhador,
nem está
como a tesoura
em cima do
aparador.
O nada
não respira
nem
transpira
é muito
menos que a mentira
é mais
pequeno que um aparo
e nem é banal
nem raro.
O nada
não voa como
um pardal
ou como um
albatroz.
Nem é lento
nem é veloz.
Nem é
cinzento
nem branco nem
amarelo.
O nada
não é
parecido com um castelo
nem com um
ameia
nem com uma meia
nem com um
chinelo,
nem com uma
bota calçada.
O nada
não é
parecido com nada.
O nada não é
transparente
nem é opaco,
nem é aquela
parede em frente
nem é um
buraco,
nem é um
continente
nem uma
estrela cadente
nem uma
curva da estrada.
Quando
perdes o nada
não perdes
nada,
quando
compras o nada
não pagas
nada,
quando
alguém tropece
no nada
nada lhe
acontece
nem cai nem nada.
O nada
é zero vezes
zero
e não penses
que exagero.
O nada
é uma ninhada,
um cardume,
uma manada,
uma cáfila,
um rebanho,
um bando
tamanho,
um esquadrão
uma multidão
de meros
zeros
e sejam
tantos ou apenas um
ocupa espaço
nenhum.
O nada
é o nada.
O nada
não é nada.
Absolutamente
nada.
Anthero Monteiro
21.12.2016
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Mohammad e a montanha
Annapurna, a montanha mais perigosa do planeta
chamava-se também mohammad
seduzia-o
a montanha
e
conhecia bem aquele provérbio
por
isso achou razoável que dividissem
responsabilidades
ele e ela
percorreu
todo o caminho
até ao
sopé do annapurna
e ficou
à espera que o maciço
fizesse
a sua parte
esperou toda uma semana
mas a serrania
era preguiçosa
como um
mastodonte
ou
então não conseguia mexer-se
com
aquele pesado manto de gelo
e as
articulações adormecidas
ao
oitavo dia mohammad
deu
mais dois passos em frente
e fez ecoar
a voz por toda a cordilheira
exigindo
resposta
à sua
aproximação
num
derradeiro esforço a serrania
começou
a liquefazer-se
estendeu-lhe
uma rápida passadeira branca
e
abraçou-o até o envolver por completo
como um
amante que se quer para sempre
foi
assim num rompante que a montanha
foi ter
com moammad
chamemos
a isso arrebatamento
outros
lhe chamarão alude ou avalancha
Anthero
Monteiro
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Anthero Monteiro,
HUMOR,
Poemas de Anthero Monteiro
sábado, 19 de março de 2016
Madrigal
(Foto ANAAS)
que tirassem a luz da flor da terra
que arrancassem aos céus o Sol e a Lua
que aplanassem a curva a cada serra
os vales fossem coisa morta e nua
que arrancassem aos céus o Sol e a Lua
que aplanassem a curva a cada serra
os vales fossem coisa morta e nua
que secassem as águas cristalinas
dos mansos rios e dos meigos lagos
que morressem miosótis e boninas
murchassem as carícias e os afagos
dos mansos rios e dos meigos lagos
que morressem miosótis e boninas
murchassem as carícias e os afagos
que a natureza fosse deusa enferma
mortos os entes pelo globo além
e que a vida ficasse triste e erma
sem oásis sem nada sem ninguém
mortos os entes pelo globo além
e que a vida ficasse triste e erma
sem oásis sem nada sem ninguém
contanto que ficasse o teu sorriso
inda havia na terra o paraíso
inda havia na terra o paraíso
ANTHERO MONTEIRO, Canto de Encantos e Desencantos,
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2005
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2005
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
o senhor z

Anthero Monteiro
numa sessão de poesia
ao fim
de um longo dia de trabalho
um
zero-à-esquerda sempre zangado
sempre
ziguezagueando sempre zangarilhando
na
ingrata e persistente luta para subir na vida
o
senhor z sentia-se exausto
sentou-se
no sofá ligou a tv
e logo
retomou o comando
a
pensar em mudar para um canal
mais
interessante um combate de boxe
seria
uma hipótese de aprender a lutar
por um
lugar mais condigno
ia
premir o botão
mas deixou-se
vencer pelo sono
quando
horas depois acordou
viu-se derrotado também pela resignação
não
seria assim que alguma vez
conseguiria subir
na
ordem alfabética
Anthero
Monteiro (inédito)
domingo, 25 de outubro de 2015
Contragravidade
quando subia a imensa escadaria
desequilibrou-se
e foi estatelar-se lá em cima
desequilibrou-se
e foi estatelar-se lá em cima
pelo menos garantiram-me
que agora está no céu
que agora está no céu
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Poemas de Anthero Monteiro
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Contrastes
todo
este céu que alguns momentos dura
esta
infinita eternidade exígua
este
sabor que perpassou na língua
o
pressentir que todo o mal tem cura
este
sorrir que me visita os lábios
que
anda comigo à hora imprevisível
porque
os meus olhos viram o invisível
e
passei a saber mais do que os sábios
e por
coisas banais muito pequenas
sinto-me
grande às vezes e possante
só
por aquele afortunado instante
em
que mesmo de longe tu me acenas
não
me acena o futuro não sorri
e se
sorrio é só porque sou doido
é um
infinito inferno este céu todo
e
tudo isso vem de ti de ti
vivo
assim dentro desta colisão
de
forças de gigantes tão adversos
onde
morrem e nascem universos
onde
é ínfimo e é enorme o coração
Anthero
Monteiro
16/06/2010
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