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terça-feira, 27 de novembro de 2012
O naufrágio
------Apenas o hipopótamo e o seu dono escaparam
ao naufrágio, saltando para cima de um pequeno bote.
O hipopótamo era o ganha-pão do homem e por
isso quando o pequeno bote se começou a inclinar para o lado onde estava o
animal, o homem ficou preocupado com a possibilidade de este se afogar. Para
evitar que a pequena embarcação se desequilibrasse completamente o homem cortou
um pedaço do hipopótamo e comeu-o, o que também era oportuno pois começava a
estar com fome. O pequeno pedaço tirado ao hipopótamo permitiu que o bote
recuperasse o equilíbrio entre os dois lados, como uma balança. Mas por pouco
tempo. Novamente o bote começou a ir ao fundo do lado do hipopótamo. Este,
apesar do bocado que lhe fora retirado, ainda era mais pesado que o seu dono. O
homem decidiu então comer mais um pedaço do hipopótamo. Depois de o fazer,
olhou para o barco e viu que ainda não era suficiente: tirou mais um bom bocado
do animal e comeu-o. O barco recuperou o equilíbrio.
A viagem durou ainda algumas semanas e o
homem, de seis em seis horas, via-se obrigado a cortar mais um bocado do
animal.
Talvez não fosse a solução perfeita, mas
não poderia correr o risco de perder o hipopótamo.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht, Lisboa, Caminho, 2004
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O banco do jardim
O senhor Henri estava no jardim em frente do seu banco preferido, onde sentada uma mulher tocava violino.O senhor Henri interrompeu a violinista e disse: António Stradivarius foi o mais famoso construtor de violinos.
...era o arquitecto dos violinos, bem se pode dizer.
...ele experimentou vários tipos de violinos até se decidir pela dimensão e forma actual do violino Stradivarius.
...eu poderia ter sido um grande violinista, mas nunca soube tocar violino.
...porém, o álcool apareceu muito antes do violino.
...muito antes de existirem violinistas já existiam pessoas inspiradas artisticamente pelo álcool.
...por isso faça o favor de sair desse banco com o seu violino.
...porque esse banco é meu - disse o senhor Henri.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri,
Lisboa, Editorial Caminho, 2003
Etiquetas:
Gonçalo M. Tavares,
POESIA PARA COMER... E BEBER
sexta-feira, 8 de maio de 2009
A exactidão

Calendário babilónico.
Foram os babilónios
quem introduziu
o sistema sexagesimal
(a hora de 60 minutos
e o minuto de 60 segundos).
O senhor Henri ainda se ria às gargalhadas.
O senhor Henri disse: o meu pensamento localiza-se no espaço que existe, ainda vazio, entre as células e o absinto. É nesse pequeno espaço, é nesse pequeno resto, que eu consigo pensar.
O senhor Henri disse, depois, muito alto: já os babilónios tinham um calendário, 600 anos antes de Cristo!
O senhor Henri, entretanto, estava baralhado com as horas. Pensava que eram quatro da tarde e, afinal, eram só onze da manhã.
Cheio de pressa, porque tinha combinado encontrar-se com um amigo às quatro e meia, o senhor Henri repetia, acompanhando o passo acelerado: 600 anos antes de Cristo!, vejam bem.
...mais precisamente. Li na enciclopédia: 530 anos antes de Cristo! 530 é o número correcto.
Temos de ser exactos nas datas, disse o senhor Henri, enquanto, equivocado, pensando estar atrasadíssimo, continuava a acelerar o passo.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri,
Lisboa, Caminho, 2003
O senhor Henri disse, depois, muito alto: já os babilónios tinham um calendário, 600 anos antes de Cristo!
O senhor Henri, entretanto, estava baralhado com as horas. Pensava que eram quatro da tarde e, afinal, eram só onze da manhã.
Cheio de pressa, porque tinha combinado encontrar-se com um amigo às quatro e meia, o senhor Henri repetia, acompanhando o passo acelerado: 600 anos antes de Cristo!, vejam bem.
...mais precisamente. Li na enciclopédia: 530 anos antes de Cristo! 530 é o número correcto.
Temos de ser exactos nas datas, disse o senhor Henri, enquanto, equivocado, pensando estar atrasadíssimo, continuava a acelerar o passo.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri,
Lisboa, Caminho, 2003
terça-feira, 17 de março de 2009
O eclipse

O senhor Henri olhava para o eclipse anunciado que ainda não começara.
Se os astros se atrasam, o que fará o resto – disse o senhor Henri.
O senhor Henri tinha trazido uns binóculos enormes.
…se os meus binóculos tivessem o comprimento que vai da terra ao sol, aí sim, eu veria as coisas mais próximas – disse o senhor Henri.
… em chinês existe uma única palavra para eclipse e para comer. O eclipse é uma coisa escura que come um astro.
… é uma bela imagem.
O senhor Henri, entretanto, pousou os binóculos e tirou da sua mochila uma garrafa de absinto.
Depois de beber umas boas goladas o senhor Henri disse: que belo eclipse! E bebeu mais umas goladas.
Deitado no chão à espera que algo acontecesse no céu o senhor Henri acabou por fechar os olhos e adormecer.
Quando acordou pegou na sua mochila e na sua garrafa de absinto e retirou-se.
Tive um eclipse privado, disse o senhor Henri para si próprio, satisfeitíssimo com os astros que conseguira ver no seu céu particular.
Um eclipse que só depende de mim, eis o que trago nesta garrafa – disse senhor Henri.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri,
Lisboa, Editorial Caminho, 2003
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