Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Oceanografia





Saramago recebendo o Nobel
in
nobelprize.org








Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.

De náufragos sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.

José Saramago, Os Poemas Possíveis,
Lisboa, Editorial Caminho, 1981, 2.ª ed.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta














Imagem in
loud.weblog.com.pt




Aqui na terra a fome continua,
a miséria e o luto e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
de mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

José Saramago, Os Poemas Possíveis,
Lisboa, Editorial Caminho, 1981, 2. ª ed.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Inventário

De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
-
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
-
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
-
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
-
José Saramago, Os Poemas Possíveis,
Lisboa, Editorial Caminho, 1981
-
Este é um belíssimo poema do Saramago, já tão esquecido como poeta.
Aqui se insere para comemorar, de alguma forma, o 10.º Aniversário da atribuição do Nobel ao autor do Memorial do Convento.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Circo

Poeta não é gente, é bicho coiso
Que da jaula ou gaiola vadiou
E anda pelo mundo às cambalhotas,
Recordadas do circo que inventou.

Estende no chão a capa que o destapa,
Faz do peito tambor, e rufa, salta,
É urso bailarino, mono sábio,
Ave torta de bico e pernalta.

Ao fim toca a charanga do poema,
Caixa, fagote, notas arranhadas,
E porque bicho é, bicho lá fica,
A cantar às estrelas apagadas.

José Saramago, Os Poemas Possíveis,
Lisboa, Editorial Caminho, 19781, 2.ª ed.