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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Nunca mais é sábado!...
















—conjecturamos à segunda-feira,
início de uma longa ressaca,
em todas as claves, desde o ré menor
gemebundo aos claros tons de sol maior.
Nós os humildes e os humilhados,
os que não temos rosto próprio porque somos
o rosto da multidão. Nós, o branco-branco,
o preto-preto e o branco-preto.
O senhor que desce o elevador da manhã
e a virgem desflorada na véspera
que o sobe trazendo nos olhos o pavor
da gravidez e da desonra (e é obrigatória
em todos os articulados deste género). E a moça
desflorada há mais tempo, um namorado
tímido e um senhor casado a compensar
a timidez do adolescente, com a ciência
mais exacta, mais precisa, que lhe vem
do tédio conjugal. E o velho guarda negro
do elevador, a piscar, a piscar um sono
nunca redimido. E o contínuo que não vai
de elevador, mas sobe pela escada de serviço
até ao quinto andar, carregando em jeito
de via-sacra a bicicleta da firma,
cada qual trepando a seu Gólgota privativo.
E os que esperam para lá da penumbra
dos balcões, no silêncio húmido dos armazéns,
no bafio burocrático e gris das repartições
com funcionários de vida atribulada
funcionários de vida empenhada,
funcionários de vida sempre estragada.
Os que esperam na jaula envidraçada dos cafés,
fumando o cigarro bronquítico da melancolia;
na fuligem luminosa do cais, nas zonas
de carga e descarga, na longa fita de asfalto
ardente, na perigosa articulação dos ângulos
de betão do prédio de onze andares.
Os que uma regra de excepção escondeu
por detrás dos altos muros de um silêncio
recluso e têm o olhar mortiço
e a expressão resignada. Os que dormitam
atentos, em bancos públicos de jardim,
os que fazem um amor rápido e dolorido
a horas impróprias, em apartamentos de empréstimo,
O estudante com a mão entalada nas coxas
firmes e tépidas da colega morena e sensual,
o marinheiro adormecido na branca espuma
da sétima cerveja, as putas adejando,
multicolores borboletas do vício, blenorragias
de transmissão fulminante e cura arrastada.
Os que alimentam de miséria a sua miséria
e outros que, estando melhor, a nutrem
na miséria de pequenas e grandes indústrias.
E os que nem sequer a alimentam
no lôbrego ventre de oficinas e fábricas.
Toda a população flutuante do elevador
e da escada de serviço, do prédio e da rua;
o senhor engenheiro com uma dor de corno
e dois projectos enguiçados; o clínico preso
aos afazeres (cinco prédios, uma hérnia estrangulada
e o consultório cheio de pacientes); o advogado
a correr atrás dos prazos, dos prazos
cada vez mais curtos; a senhora enfrentando
a crise difícil da menopausa, a viúva
de negro que vai ao médico com uma pontada
no baixo-ventre e uma amostra de urina
num frasco embrulhado em papel de jornal.
Da escada de serviço e do elevador
para o prédio, do prédio para a rua,
da rua para a praça, da praça para a cidade,
da cidade para o subúrbio, onde crescem
a doença, o medo, a fome e o futuro,
— nunca, nunca mais é sábado.

Rui Knofli, Memória Consentida,
Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982

domingo, 8 de novembro de 2009

If...








- - - - - - - - -
with a slight bow
- - - - - - - - - towards Rudy







Se, porventura,
a qualquer ponto do caminho
te surgir o instante de loucura
através do qual te possas libertar
num maravilhoso exercício de alegria
e exaltação

e tu resistas e renuncies

(é preciso, é preciso
aprender a não viver).

Se, casado
e rodeado de filhos,
souberes renunciar ao amor e à aventura
e manter a estabilidade
perante a solicitação de fugires
com a mulher do teu melhor amigo,
ou a extorquires com dor,
a puta ao chulo,
num tinir de copos e móveis partidos
pelo chão do cabaret.

Se, contabilista,
resistires à falsificação da escrita
à tentação da «caixa»;
se, empregado,
souberes oferecer ao patrão
o sorriso e a vénia modelares,
em vez do gesto indecente, descarado,
do gesto português

(é preciso, é preciso
aprender a não viver).

Se, perante o absinto,
o brandy, o gin com água tónica,
o uísque ou a mera aguardente de cana,
optares
pela moderação de um drink ocasional,
numa situação excepcional.

Se, à aventura e ao risco,
opuseres o sossego e a rotina,
se te souberes afeiçoar
à norma certinha, à teia
das relações familiares, sociais,
políticas e administrativas
num respeito deferente
para com a ordem estabelecida
e, ao próprio verso
- ainda uma ilusão de liberdade,
um exercício de íntima alegria
- responderes
com as formas prosaicas convenientes,

então, meu filho, serás um homem
geralmente respeitado e admirado
pelos teus concidadãos.

Entretanto, formulo um obscuro voto
para que, nalguma destas alternativas,
te percas, meu filho, sem remissão.

Rui Knopfli, Memória Consentida,
Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

«Cântico negro»

Cago na juventude e na constestação

e também me cago em Jean-Luc Godard.

Minha alma é um gabinete secreto

e murado à prova de som

e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes

nem uma só gravura de Lichtenstein

ou Warhol. Nas prateleiras

entre livros bafientos e descoloridos

não encontrareis decerto os nomes

de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos

volumes de qualquer filósofo

maldito, vários poetas graves

e solenes, recrutados entre chineses

do período T’ang, isabelinos,

arcaicos, renascentistas, protonotários

– esses abundam. De pop apenas

o saltar da rolha na garrrafa

de verdasco. Porque eu teimo,

recuso e não alinho. Sou só.

Não parcialmente, mas rigorosamente

Só, anomalia desértica em plena leiva.

Não entro na forma, não acerto o passo,

não submeto a dureza agreste do que escrevo

ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.

De alguns. De poucos. De um só se necessário

for. Tenho esperança porém; um dia

compreendereis o significado profundo da minha

originalidade: I am really the Underground.

-

Rui Knopfli, Memória Consentida, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1982


Rui Knopfli nasceu em Moçambique (1932). É autor também de O País dos Outros (1959), Reino Submarino (1964), Máquina de Areia (1964), Mangas Verdes com Sal (1969), A Ilha de Próspero (1972) e O Escriba Acocorado (1978), entre outros.