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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Outono













Auto-retrato do
poeta marinheiro
Giuseppe Gianinni
Pancetti (Brasil)




Uma lâmina de ar
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no outono. E a canção
que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar.
Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.


Joaquim Pessoa, 125 Poemas - Antologia Poética

domingo, 13 de junho de 2010

As casas

Oh as casas as casas as casas suspirou Ruy Belo















Quando olhamos para as casas alguma coisa estremece
alguma coisa chama alguma coisa espera

Olho-te com os olhos das casas respiro-te ao abrir cada janela
e atravesso as portas como se penetrasse o teu corpo
angustiado e nu















conquistando o interior da casa o ventre do teu ventre
soltando meu grito quando o coração em vértice
desce para as mesas
e um fino pó se ouve cair das lâmpadas

Dentro da casa agitam-se as bandeiras do ar
quando os teus passos se moldam ao silêncio
e tudo é escuro espesso e escuro
e nada se passa no meu peito nada em festa corre para as tuas mãos

Se nos olhamos nos olhos olhamos para as casas
porque as casas têm um sol bancos de jardim e lâmpadas
que se acendem apenas com os beijos














Esquecemo-nos de tudo e olhando
construímos as casas
habitamos as casas
amamos as casas
pertencemos às casas
e morremos nas casas procurando conhecer o seu último segredo
sua voz
suas ruínas

As casas vestem o silêncio com uma roupa dura
entregam-no depois em nossas mãos
e permitem-nos palavras boca a boca
e gestos quase puros
porque nenhuma dor magoa a sua própria morte

Todas as casas são
o interior da noite




















Joaquim Pessoa

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Reconheço as ruas...
















Reconheço as ruas e as paredes da infância
mesmo aquelas que já foram derrubadas.
Estava a comer só quando pensei nisto. E agora penso
nas coisas em que pensamos quando comemos sós.
Só posso falar por mim. Converso com o vento, vou com as aves
sobre os gumes aguçados das montanhas, por ali me demora planando
sentindo-me leve, leve, leve, tão leve como se não tivesse pecados ou acabasse de confessar-me.
Volto à cidade, volto a mim, é preciso escolher o vinho, sim, pode ser um Borba,
agora estou eu desencontrado com os meus projectos, as coisas não são feitas como eu penso,
deixo-as ficar assim, mas a minha estratégia era quase imbatível,
entretanto esta história da casa preocupa-me,
é muito dinheiro, o empréstimo compromete-me quase até à morte,
bom, se calhar tenho sorte e chego aos oitenta, até mais quem sabe?,
mas também posso apagar-me de um momento para o outro,
não seria nem o primeiro nem o último. Para sobremesa
quero fruta, um pêssego, não, talvez uma laranja, se for doce.
Ah!, tenho de falar ao editor, saber como vai a minha antologia,
talvez haja boas notícias, acho que está a ler-se mais outra vez,
já baixou a febre da informática e dos audiovisuais,
o que é que andará o Hugo a fazer, estou preocupado com ele,
a minha filha ficou de telefonar e o mais velho há dias que não diz nada,
não deve estar a precisar de mim, se não já tinha aparecido.
Os filhos são óptimos quando são pequenos, é bom vê-los crescer
mas o que eu não daria para tê-los de novo crianças,
aqueles olhos vivos, as palavras deformadas por excessos de ternura,
um café, se faz favor, não é preciso açúcar.
Os filhos, os filhos, que pensarão eles de mim daqui a trinta anos?,
possivelmente qualquer coisa semelhante ao que eu penso hoje do meu pai,
se fosse assim não era mau, melhor, era até justo, tenho sido um bom pai,
adoçante também não, muito obrigado. Não sei
por que é que esta gente faz tanto barulho, deviam estar todos mais magros,
conversam mais do dobro do que comem. Não, não,
fico-lhe muito agradecido mas não gosto de jogar na lotaria,
sorte é coisa com a qual nunca pude contar muito,
como diz o outro, tenho subido a corda a pulso.
A conta, por favor! Tenho tanta coisa para fazer esta tarde,
provavelmente guardarei para amanhã alguma coisa do que posso fazer hoje,
serei cliente de mim mesmo, tratar-me-ei com toda a deferência
e simpatia - uma factura, por favor! - isso, com muita simpatia,
arranjarei forma de ser simpático comigo mesmo,
ando cansado de gastar a minha simpatia com os outros.
Acho que mereço um bocadinho mais do que me têm dado,
ou talvez seja eu que dê demasiado por aquilo que me oferecem,
não sei, francamente não sei, não é o sítio nem tenho tempo para pensar nisso agora,
por que é que o tipo leva tanto tempo a trazer-me a factura?,
só faltava agora o telefone! ah, és tu!, não, quero dizer, sim,
não me demoro, já falamos nisso, não decidas nada sem eu chegar!,
é isto, também tenho que decidir com os outros e às vezes pelos outros,
estas coisas são mais difíceis do que parecem, a minha mulher
diz que passo o tempo em reuniões, que rico emprego,
não se faz mais nada a não ser umas reuniõezinhas, assim também eu, diz ela,
mas ela sabe lá o tamanho dos sapos que eu tenho de engolir,
agora por isso, olhe, por favor, falta a factura, já estou atrasado,
mas atrasado para quê, os meus grandes problemas não se resolvem hoje,
há coisas que esperam por nós uma vida inteira,
nós levamos uma vida inteira a esperar por certas coisas,
melhor seria eu hoje não ir a lugar nenhum - ah, a factura, obrigado! -
sinceramente não sei que faça, vou andando, já penso nisso,
preciso é de dar descanso à minha cabeça,
vim eu almoçar sozinho para não ouvir falar de problemas,
afinal aí estão os meus, gaita!, misturar problemas com filetes,
não há coração ou fígado que aguentem!, e mesmo sem interesse
não há nada como uma tagarelice à mesa
embora a minha mãe sempre me dissesse e insistisse,
Joaquim, eu já te disse que não se fala à refeição.

Joaquim Pessoa, Vou-me Embora de Mim,
Lisboa, Hugin, 2000

(itálicos do poema da minha responsabilidade)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Outono





Foto in
moodle.apvm.net





Uma lâmina de ar
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no outono. E a canção
que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.

Joaquim Pessoa, 125 Poemas - Antologia Poética

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O tempo, Maud...







O tempo nunca se detém...
(Foto A.M.)





O tempo, Maud,
o tempo não é como os cães de um trenó
que, à voz do dono, se detém.
O tempo não é como a Ursa branca
que volta a cabeça para ver se a seguem
os filhotes,
nem como o caçador
que volta ao igloo seguindo as suas próprias pegadas
sobre a neve,
as pegadas que o vento já começa a apagar.
O tempo nunca se detém,
não olha atrás,
não regressa.

Eu era já velho, ainda os teus pais não tinham nascido;
e estarei morto
quando os teus peitos se mantiverem ainda firmes
debaixo do agasalho de pele de foca
que ontem te ofereci.

Amo em ti
o universo infinito, não a tua beleza passageira;
amo em ti a raça humana que não acaba,
não o barro mortal de que estás feita.
Amo em ti o modo como haverás de recordar-me
quando tu também te aproximares com passo vacilante
do inverno da tua vida,
e não a primavera do teu sorriso.
Mas, sobretudo, Maud,
amo em ti aquele que eu fui,
amo em ti todas as raparigas que queimaram suas asas
lá longe,
no fogo da minha juventude,
e que não puderam sobreviver-me.

W. S. T. Hillip Zen Eugen Jahra
in Joaquim Pessoa, Os Herdeiros do Vento - Antologia Apócrifa,
Litexa Portugal, 1984

N. na Nova Zelândia em 1872. Formou-se em medicina e correu meio mundo: viveu sucessivamente em Inglaterra, Áustria, Índia, África do Sul, Sicília, Cuba, México, Peru, Bolívia, Brasil, França. Casou com 60 anos com uma jovem de 18 anos da sua terra natal, mas, tendo tido conhecimento da descoberta de uma ilha a 2300 km da sua cidade, habitada por uma tribo de gente que vivia no período neolítico, o Dr. Zen partiu com a família e um grupo de jovens voluntários, disposto a conquistar a ilha, a que já dera o nome de Simbeck. A travessia durou 6 meses e perdeu nela a esposa, os filhos e 42 dos 50 acompanhantes, Durante 20 anos, ninguém soube deles, mas , em 1957, após uma expedição de cientistas da UNESCO, soube-se da existência de um estado, chamado República Independente de Simbeck, a menos de 100 km das contas da Antártida. Tinham leis, instituições, idioma, capital, hino, bandeira, etc. próprios, e cerca de 2000 habitantes. O Presidente era o Dr. Zen: tinha 85 anos e foi várias vezes reeleito. Em 1980, tinha 108 anos e era ainda o presidente do país mais pequeno do mundo: 46 km2.
Este belo poema foi-lhe inspirado por uma adoloescente de 16 anos chamada Maud, nome que em zénico significa "lábios gelados". (Resumo da aventurosa vida do Dr. Zen narrada no livro de Joaquim Pessoa: um autêntico romance.)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A rosa





Foto in
moodle.apvm.net




Estou aqui! Estou aqui, não pretendi fugir, nunca!
o meu peito é sólido
o meu nome é sólido
o meu céu é sólido
o meu ar é sólido
as minhas dúvidas são sólidas.

Acabei de jantar no Restaurante Chinês e olhei para as minhas mãos
estão inquietas como ontem
tremem como ontem
e ontem tudo foi
inquieto e trémulo como as minhas mãos.

Não há nenhuma flor que resista à beleza da poesia de Paul Éluard
não é meu filho? repetia aquela mãe que eu nunca tive
E eu afirmava afirmava sempre
que nada neste mundo tem a força de uma rosa

oh a minha mãe era bela
todas as mães são belas
e eu só posso chamar-lhes meu amor!

Quando a minha mãe morreu a cidade não tinha sombras
em Abril tinha recomeçado tudo
até as próprias sombras
e eu vesti-me de branco para dar o último beijo a minha mãe

no dia em que me senti pela primeira vez um homem
porque, ao ficar de novo órfão
disse: É preciso ler Paul Éluard! e não
lhe dei simplesmente a minha rosa

Joaquim Pessoa, 125 Poemas – Antologia Poética,
Lisboa, Litexa-Portugal, 1983

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cabeça


Cabeça, ó minha página sempre outra,
folha de um livro que é todos os livros,
livro em branco aonde escrevo e emendo e onde às vezes
rasuro, rasuro, até provocar ferida. Cabeça,
pequeno mundo desdobrável como um mapa, como um filme, uma fita gravada, pequena cabeça que tantas vezes gostava de enfeitar com penas como um índio,
que tantas vezes sinto coroada de espinhos por dentro,
ferindo, rasgando, inutilizando, doendo e doendo e doendo.
Umas vezes sinto-a como a deve ter sentido Alexandre
com o odor do vento e o perfume do louro; outras,
como um monarca carregando nela o ouro jovem de uma coroa,
e o medo de uma coroa e o peso de uma coroa.
A minha cabeça, uma qualquer cabeça, deve sentir-se assim:
de mármore ou de luz, de palha ou de granito, vazia,
oca, cheia a transbordar de coisas que não sabe, de
coisas que não quer, querendo coisas que não há, sonhando com gente e dias tão reais, acordando o passado,
abrindo écrans para o futuro. Cabeça, ó minha cabeça
pouco minha, mais vossa, mais tua, mais de todas
as coisas. Que falta fizeste a Luís XVI, que falta fazes quando me exalto
e te perco e é como se tivesse mais, muito mais de quarenta mil anos
e não soubesses nada, ou do nada soubesses muito pouco,
um risco, uma cor, um movimento, e uma paisagem
que não soubeste transportar para o futuro. Agarro-me
à cabeça: por que fui eu escrever um texto assim,
porquê, porquê, onde teria eu, meu Deus, onde teria eu
a minha cabeça?

Joaquim Pessoa, Vou-me Embora de Mim,
Lisboa, Hugin Editores, 2000

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Balada das onze e meia

Onze e meia: meia hora
para acabar este dia.
Meia hora ainda é hoje.
Meia hora é amanhã.

Às onze e meia da noite
vai haver muita pancada
num bar da rua das Pretas.

Vai haver muita mudança
nos decretos aprovados.

Às onze e meia da noite
no quarto não se ouve nada
mas no berço uma criança
dorme o sono dos poetas
que andam subalimentados.

Às onze e meia da noite
direi vinte e três e trinta.

Acordo o galo vermelho
com dois murros no pescoço.

Canta, canta, meu pelintra
o dia de hoje é tão velho
que amanhã já estamos mortos.

Às onze e meia da noite
os ódios nunca estão fartos.

Às onze e meia da noite
a morte anda lá fora
a pedir contas à vida
e os polícias têm medo
da própria sombra que pisam.

Onze e meia. Está na hora.

No relógio ainda é cedo.
Os ponteiros não deslizam.

Às onze e meia da noite
esperamos por amanhã.
Chega a morte para a ceia
com dois pezinhos de lã.

Passam gatunos, canalhas
com seus múltiplos perfis.
Caem corpos e navalhas
no silêncio dos lancis.

Onze e meia. A meia hora
que falta, nunca mais passa.

Não passa. Nunca mais passa.
Eu sei lá quanta desgraça
se apodera em meia hora
das ruelas e dos becos
que apodrecem na cidade!

São onze e meia. É agora
que os olhos verdes dos cegos
pressentem a claridade.

Às onze e meia da noite
o vento não bate à porta
nem quer saber de mais nada.
Às onze e meia da noite
no bar da rua das Pretas
continua a haver pancada.

Às onze e meia da noite
os cães disputam a dente
uma cadela aluada.

Às onze e meia da noite
há travestis no Rossio
à pesca dos marinheiros
que deixaram o navio
e fazem ondas de cio
no sangue dos paneleiros.

Bateram as onze e meia.

Só faltam trinta minutos.

Acende-se a lua cheia
na rua dos Sapateiros.
São onze e meia da noite
e eu quero ficar contigo
entre lençóis de algodão.

Fincar no flanco uma espora.

Cavalgar por meia hora.

Dar rédeas ao coração.

Às onze e meia da noite
é tempo de solidão.
E nas entranhas do medo
fazem-se filhos diversos.
Como o padeiro faz versos
ou um poeta faz pão.

Às onze e meia da noite.

Às onze e meia da noite,
recebem-se embaixadores
e à mesma hora os porteiros
afugentam os trapeiros
vestidos de malfeitores.

Às onze e meia da noite
a Primavera passou-se
para o lado do Outono.
E uma Maria qualquer
nas alamedas do sono
cansada de ser mulher
ás onze e meia matou-se.

Em ponto. São onze e meia.

Esta noite os redimidos
hão-de fazer por esquecer.

Bem comidos e bebidos
não tardam em adormecer.

E um frasco de comprimidos
na mesa de cabeceira,
vai ajudar os sentidos
a cozer a bebedeira.

Às onze e meia da noite.

Às onze e meia da noite
num gabinete privado
(como a irmã cotovia)
o tipo que está ao lado
cantou tudo que sabia
para subir de ordenado.

Às onze e meia da noite
rastejam cobras na lama
onde afocinham as putas
Senhoras Donas da Cama.
Mas aquelas que são putas.
Não as que têm a fama.

São onze e meia da noite.

Já só falta meia hora.

Apenas trinta minutos.

Às onze e meia da noite
ponho a tristeza de lado
e uma gravata de seda.

Quero ouvir cantar o fado.

Quero dar uma facada
no galo da consciência.

Quero menos paciência
e um pouco mais de loucura.

E enquanto são onze e meia
e ainda dura a pancada
no bar da rua das pretas,
os putos fazem punhetas
em jeito de habilidade
apenas com quatro dedos.
E descobrem os segredos
de nascerem portugueses
filhos de um povo adiado.

Feitos aqui e agora.

Quando falta meia hora
para acabar o passado.

Joaquim Pessoa, 125 Poemas – Antologia Poética,
Lisboa, Litexa, 1983, 2.ª ed.