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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Compaixão










Autógrafo de
José Tolentino Mendonça
in A Que Distância
Deixaste o Ciração




Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia

somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções, derrotas, recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão

José Tolentino Mendonça, A Que Distância Deixaste o Coração, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Do "Cântico dos Cânticos"













Texto original
hebraico



Ah és bela minha amada ---
és tão bela --- teus olhos são pombas
por detrás de teu véu
teu cabelo um rebanho de cabras --- que descem do monte Galaad
teus dentes rebanhos de ovelhas tosquiadas --- que sobem do banho
todas geraram suas crias --- nenhuma há estéril entre elas
como fita escarlate teus lábios --- que formosa é a tua boca
tuas faces são metades de romãs --- por detrás de teu véu
teu pescoço é a torre de David --- erguida sobre troféus
dela pendem mil escudos --- todos broquéis de valorosos
teus seios são dois filhotes --- gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios
antes que o dia expire --- e as sombras se alonguem
irei por mim ao monte da mirra --- e à colina do incenso
ah és bela minha amiga --- defeito não há em ti.

Salomão, Cântico dos Cânticos,
Tradução de José Tolentino Mendonça,
Lisboa, Edições Cotovia, 1997

Os amigos









Autógrafo de
José Tolentino Mendonça




Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça, De Igual para Igual,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A noite abre meus olhos


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
-
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
-
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
-
o amor é uma noite a que se chega só
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José Tolentino Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2006
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O autor esteve nas últimas Quintas de Leitura (dia 23 de Outubro) do Teatro do Campo Alegre. Sendo crente (aliás é sacerdote), explicou porque era materialista a sua poesia. Gostei de ouvir alguns dos seus poemas nas vozes bem medidas e modelares da Filipa Leal, Sofia Grilo, Paulo Campos dos Reis e Pedro Lamares. No final, fui, como um adolescente, pedir-lhe um autógrafo para cada um dos livros que levei de casa. Já cá habitava há alguns anos...