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segunda-feira, 29 de março de 2010

Balada do rio Douro





Foto A.M.










Que diz além, além entre montanhas,
O rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há-de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...

Pedro Homem de Mello, Poesias Escolhidas

Hino ao Porto




Um domingo
junto aos Clérigos


Foto A.M.






Cidade em que as burguesas vão à missa
Vestidas de vermelho carmesim.
Em vão, a luz, sobre elas, se espreguiça...
(As mães, pelo caminho, ao vir da missa
Proíbem-lhes os bancos do jardim...)

Não há fidalgos hoje. Há comerciantes.
É deles todo o ar que se respira!
Noites sem flor, sem luz, sem estudantes
E sem guitarras e sem mentira!

Para sentir o mar, o rio eterno
Cava, connosco, a rocha que dormia
E deita-se connosco, na alegria
De imaginar o céu, calcando o inferno.

Na rua escura as lojas de oiro e pano
São pedras frias, frígidas mas quietas.
Ó frios mercadores de oiro e pano
Porto! Mercado frio e desumano...
E no entanto ali é que há Poetas!

Lutar! — é o verbo. — Não morrer — é a vida.
Mas em surgindo a morte, que na estrada
Os ombros verguem sob a urna pesada
E seja lenta a hora da partida!

Noites sem luz, sem mel, sem fantasia!
Noites sem estudantes e sem flor!
Porto! — cidade pulmonar e fria
Que tens a força de negar ao dia
A medicina do amor!

Pedro Homem de Mello, Bodas Vermelhas

domingo, 28 de março de 2010

Carta a Eugénio de Andrade



Eugénio de Andrade






Porto. Abril. Tantos de tal...
E continuo a teu lado,
Hoje como ontem. Igual
A mim próprio: abandonado
Por todos, menos por ti.
Posto que tão diferente
Seja o berço em que nasci
Da praia, livre, onde passas
Com Sol a pino. Sorriste
Alheio às minhas desgraças?
Vê: mendigo sou que aceita
Mesmo uma côdea de pão,
Mas que traz na mão direita
A flor que as roseiras dão...
Vela apagada ou acesa?
- Sei que me podem comprar
Tudo, menos a nobreza
De sorrir quando há luar...

Pedro Homem de Mello,
Poesias Escolhidas

Miragaia






Foto A.M.













Aqui, onde esta noite nunca cessa,
Foi Miragaia a minha Madragoa.
Aqui, em frente ao rio, oiço a promessa
Do mar que ajoelha, enquanto me atordoa.

Aqui, sei onde sangra o lábio oculto.
De quem me vê, até de olhos fechados!
E, como os cegos, reconheço um vulto,
Pelo roçar dos dedos namorados...

Deviam chamar Pedro, em vez de Porto,
Ao burgo, se é tal qual do meu tamanho!
Aqui

Nasci,
Porém nasci já morto,
Imóvel, surdo, triste, mudo, estranho...

Deu-me Deus ele, apenas, por amigo.
Deitamo-nos, cismando, lado a lado...

Seu corpo, rijo e nu, dorme comigo.
Mas fico, entre os seus braços, acordado!

Pedro Homem de Mello,
Poesias Escolhidas

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Milagre





Púcaros Bar
em Miragaia,
terra natal de
Pedro Homem de Mello
(foto de Anaas)




O meu futuro fora aquele instante!
(Leve, subtil, a flor buliu na haste...)
O meu futuro fora aquele instante.
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Com musgo, o pinheiral esteve à espera...
E a flor (tão perto e azul) buliu na haste!
O Inverno do arrabalde? - Primavera!
Com musgo, o pinheiral esteve à espera...
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Então, o olhar da noite fez-se baço;
E a flor, fria talvez, buliu na haste...
- Desertos, lagos, pântanos, cansaço...
O olhar da noite vítrea fez-se baço!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Vergonha?
Estrume sob a flor da minha haste...
Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Verginha?
Poesia indomável e medonha!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Sangrou demais o meu pecado. Basta!
Buliu demais a flor, dobrando a haste...
Sangrou demais o meu pecado. Basta!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

O vento varreu toda a noite, ardida
E, com o vento, a flor buliu na haste...
Veio chuva depois. Destino, vida...
E o vento varreu toda a noite ardida!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Os homens não me viram e passaram.
E a flor, distante já, buliu na haste...
Os homens não me viram e passaram...
Ó mãos cegas que, um dia, me salvaram!
Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

Pedro Homem de Mello, Bodas Vermelhas,
Porto, Porto Editora, 1979, 3.ª ed.

N. no Porto, há 105 anos (6 de Setembro de 1904) e f. em 5 de Março de 1984. Poeta, professor, folclorista muito ligado ao povo, monárquico, católico, conservador, a sua terra de adopção foi Afife (Viana do Castelo), onde viveu no Convento de Cabanas durante anos e escreveu grande parte da sua obra, versando os costumes daquela terra e da Serra de Agra.

O livro de onde foi retirado este poema tem prefácio de Júlio Dantas, que nos convida à leitura deste poeta nestes termos:

«Há tempos, a Sociedade das Nações ocupou-se da poesia. (...) Chegou-se à conclusão de que  'a poesia não existe enquanto não for recitada, porque a poesia é música e a música é para se ouvir'».

Hoje mesmo, reconhecendo o papel desempenhado por Homem de Mello na divulgação da Poesia e do Folclore Nacional, irei ler alguns textos seus no Púcaros Bar, ali nas arcadas de Miragaia, onde ele nasceu.
E tentarei, de alguma forma, fazer viver os versos deste talentoso autor de "Povo que lavas no rio", tão injustamente esquecido.

domingo, 28 de setembro de 2008

Os poetas

Nunca os vistes,
Sentados nos cafés que há na cidade,
Um livro aberto sobre a mesa e tristes,
Incógnitos, sem oiro e sem idade?

Com magros dedos, coroando a fronte,
Sugerem o nostálgico sentido
De quem rasgasse um pouco de horizonte
Proibido...

Fingem de reis da Terra e do Oceano
(E filhos são legítimos do vício!)
Tudo o que neles nos pareça humano
É fogo de artifício.

Por vezes fecham-lhes as portas
- Ódio que a nada se resume -
Voltam depois, a horas mortas,
Sem um queixume.

E mostram sempre novos laivos
De poesia em seu olhar...

Adolescentes! Afastai-vos
Quando algum deles vos fitar!

Pedro Homem de Mello, «O Rapaz da Camisola Verde» (1954), in Poesias Escolhidas, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983