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sábado, 30 de julho de 2011

Migração do amarelo





Foto

A.M.
-







Não fales. Morre sempre um segredo
quando falas:
o amarelo das maias, do tojo, das acácias,
o amarelo com que é feito o verde.
O funeral é bonito com todas as cores presentes
mas o vermelho nunca mais será o mesmo.
As papoilas abandonam as margens do comboio
onde escrevo este poema. Emigram talvez,
o que lhes resta?
O frio que lhes entra no corpo encontra cerradas
as portas da alma: «volto já»,
a esperança pendurada onde devia estar:
«já fui» com o amarelo, com as papoilas
neste comboio que repete, como quem anda sobre trilhos.
«Não fales. Deixa vir a mim o amarelo».

Rosa Alice Branco, «O único traço do pincel» in
Soletrar o Dia, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2002

domingo, 4 de abril de 2010

Hora de ponta




Rosa Alice
Branco
(Foto A.M.)









Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes; a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto à hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.

Rosa Alice Branco, Da Alma e dos Espíritos Animais

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Inclusive às terças


Rosa Alice Branco
e Anthero Monteiro
nas Quartas Mal Ditas
(Foto do Clube
Literário do
Porto)




A casa de Sibelius encerra às Terças-feiras.
Em Tuusula, na paisagem de bétulas
só agitada pelo vento, sobre as águas serenas
do lago Tuusula e do pequeno ruído dos insectos
e dos peixes que não vêm à superfície
Sibelius compunha apaixonadamente
inclusive às Terças. Também nós ouvimos Sibelius
a qualquer dia da semana e vendem CDs
mesmo aos Domingos. Às vezes componho palavras
enquanto oiço Sibelius. É apenas o fundo hábil
em que me movo, o fundo do lago Tuusula. À superfície
vêm os despojos da poesia, junto com os passos
das pessoas no outro lado do vidro, as filas de trânsito,
as buzinas que inflamam os ouvidos. Estão a chamar-me
para as suas vidas, mas falta-me o olhar que agasalha,
as mãos que curam. Só tenho esta mão absurda
que se desprende do fundo e vem à cegueira da superfície.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia - Obra Poética,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002, 1.ª ed.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Duas palavras para a noite







Rosa Alice
Branco em
foto de
Anthero Monteiro

(Maio 2009)








Agora sou o dia. Arrumei as roupas
da última viagem, a tua voz
na gaveta junto à cama.
Em que língua ouço as primeiras vogais
do nosso alfabeto, o cheiro dos lençóis
depois do sono? Vem de mansinho
pela rua estreita onde uma flor abre
sempre que passamos. És tu que o dizes,
és tu que abres quando a flor. Quando abres
o pão. O azeite no prato e os nossos dedos
sulcando os caminhos da boca e todo o corpo
a caminho um do outro. Também o vinho.
O vermelho da noite. Também a língua.
Sinto que a gastronomia e o amor
são duas palavras para a mesma coisa.
Não me acuses de plágio. Como posso
dizer o que ainda não disseste?

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V.N. Famalicão, Edições Quasi, 2002

sábado, 30 de maio de 2009

Rosa Alice Branco entre rosas












































Foi mais uma sessão das Quartas Mal-Ditas, ou melhor, foi uma sessão muito especial, onde todas as atenções convergiram para uma Rosa também especial, entre o aroma de outras rosas e o aroma dos seus versos.

Apesar dos futebóis, a sala encheu em cima da hora. Rosas Brancas para Alice era o tema e, por isso, foram lidos textos de vários escritores e poetas: Anthero Monteiro, José Gomes Ferreira, Saint-Exupéry, O'Neill, Sophia, Neruda, Al Berto, Joaquim Pessoa, Ricardo Reis e outros.

De seguida, a poeta convidada, que tem em casa «uma janela que dá para as rosas», leu também alguns dos seus muitos poemas sobre o assunto. Às perguntas suscitadas pelas leituras, Rosa Alice respondeu com a desenvoltura que se lhe conhece e deixou mais um perfume: o do seu saber sobre a poesia e a literatura em geral.

No final, depois da declinação completa do Rosa Rosae, uma pianista espontânea (Paula, assim se apresentou) encerrou esta cálida noite poética do dia 27/5 no Clube Literário do Porto. Aí vão algumas fotos. 

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dia de aniversário







Rosa Alice
Branco

ao Hugo

Sempre que te escrevo aparecem fusos entre nós:
11 da manhã em Isla Negra e duas da tarde
no teu quarto. Na casa de Neruda mesmo as figuras da ré
olham o mar. Coleccionáveis, como as que se vendem
numa barraca cá fora, de vários tamanhos e preços.
Escrevo-te para qualquer lugar que nunca sei onde fica.
Cão de caça, procuro os teus vestígios por aí:
entre as roupas que faltam busco as que te agasalham,
cheiro a louça que sujaste, procuro a ciência da tua natureza
espalhada pela casa. A casa de Neruda em Isla Negra
é transparente: posso segui-la ao longo da costa, da voz do guia,
essa voz absurda que podias ter ouvido três horas antes
se não houvesse fusos entre nós. Talvez o poeta
se tenha picado num fuso e o exílio fosse apenas a cegueira
dos outros. Imponentes as figuras inclinadas miram longe,
para lá do vidro. A mais bela olha a campa de Neruda
por entre a multidão de visitantes que exigem uma fotografia
com ele. Instantâneos: vão e e outros vêm ser fotografados.
A terra é fotogénica e está sempre à mão. Agora já é tarde
em Isla Negra e demasiado cedo no teu quarto.
Talvez o amor seja uma figura de proa desafiando o barco
por entre o alvoroço das águas. Está virada para ti
que nunca sei onde estás e és o meu norte.

Rosa Alice Branco, Das Almas e dos Espíritos Animais,
Porto, Campo das Letras, 2001
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Por falar em aniversário:
Não sei bem como foi, mas, como associamos o mês de Maio às rosas, sempre tive como certo que Rosa Alice Branco, poeta das minhas predilecções, faria anos em Maio. Por isso a convidei para a sessão das Quartas Mal-Ditas deste mês, amanhã, dia 27, às 22 horas. Entretanto, vim a saber que o seu aniversário é no dia 22 de Dezembro...

Grande pontaria! - disse ela...

Também lhe afiancei que a sessão, a avaliar pela maioria das outras, teria uma sala cheia, desde que não houvesse futebol... Outro tiro certeiro: amanhã, Barcelona - Manchester para a final da Liga dos Campeões...
Não será por isso que vamos calar os poemas ou abafar o perfume das rosas e... da Rosa.

Também gosto de futebol, mas a Poesia, para mim, estará sempre em primeiro lugar.
Quem quer fazer-me companhia?

À flor da pele











Nunca vi nervos à flor da pele, mas sinto
a doçura do pólen e deixo a língua escorregar
pelo teu corpo. Dizem que os nervos se reflectem
nos intestinos. A flor dos intestinos cura-se
com a flor do iogurte. É um universo completo:
da flora à fauna intestinal, de dobra em dobra,
a vista da montanha, a festa dos vales
e pequenos seres despertando
no côncavo, no invisível cheio de promessas.
Deve ser terrível ter os nervos à flor da pele,
acalmá-los com massagens suaves até murcharem
ou então deixar os nervos à superfície
como um ouriço-cacheiro, um ouriço-do-mar
se viver no litoral. É um mundo perigoso.
São horas: Levo a minha pele à rua
presa pela correia do relógio.

Rosa Alice Branco, Da Alma e dos Espíritos Animais,
Porto, Campo das Letras, 2001

Rosa Alice Branco estará amanhã, quarta-feira, na sessão das Quartas Mal-Ditas do Clube Literário do Porto, coordenadas por Anthero Monteiro. Lerão poemas, para além da poeta e do coordenador: Amílcar Mendes, António Pinheiro, Isamar, Luís Carvalho, Mário Vale Lima, Marta Tormenta e Rafael Tormenta. No piano, Rosa Brandão. Sessão subordinada ao tema: ROSAS BRANCAS PARA ALICE.

Rosa Alice Branco nas Quartas Mal-Ditas

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Os ramos do pulmão





Picasso,
Portrait of J.R.
with roses,


in
www.tapestriesbyvivi.com








Não há perguntas
porque não há respostas
para o tecido das rosas
e o olhar para ela.
Cada pergunta constrói uma ordem
onde a resposta se ordena
com o umpulmão vazio.
Entre os ramos
o vento assegura o humor passageiro
do ar
como se uma pincelada houvesse tocado
o espaço vazio
entre as rosas.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002, 1.ª ed.

Entre as rosas














Salvador Dali,
Meditative Rose, 1958

in www.theartistsalvadordali.com




Desenho a minha ausência
juntamente com as rosas que murcham
mesmo em frente à janela onde escrevo.
Deixei cair umas pétalas, o ténue fio
de um caminho que se perde antes
do horizonte. Conto as letras que encontrei
nos bolsos, não chegam para nada
e não há perguntas, nada que queira saber.
Uns trocos para pão, migalhas no caminho
onde me esperas como se eu fosse um pássaro
faminto. Dou-te uma bicada de amor:
é tudo o que ficou fora do desenho.
As árvores dão estalidos
como se o vento se tivesse levantado
tão cedo. Estou aqui de véspera
e nem sequer estou cansada.
Atrás do monte há um roseiral.
Quando lá chegar direi que estive à tua espera
e será verdade como tudo o que escrevo:
amar-te-ei sempre entre as rosas
que planto ao acaso no papel
onde um rio canta
porque me esqueci de desenhar as margens.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002, 1.ª ed.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A divisibilidade dos aromas










Foto A.M.








Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva
e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro
dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto
o meu perfume, o que pomos por cima das certezas
e das dúvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.
Em breve me confundirei com o cheiro dos outros, daquele homem
vergado pelo saco de batatas, da florista a compor as margaridas,
da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas sangrentas
(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim
fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos
os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar
também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com a mistura
dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele
a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta
e o teu cheiro irá entranhado em mim até uma distância infinita
das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada
estendendo a pele às dádivas do dia.


Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002, 1.ª ed.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Gravitação universal








Pérgola de roseiras
na casa de Monet.


Foto in
givernews.com/?Maison-de-monet/2008/05/27



De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
bebemos e falámos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
de sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
e a tua mão na minha perna. Lá no céu
um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
e as palavras voam em redor de nós
alagadas em suor. E vem o mar.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Arte poética





Rosa Alice Branco
in
www.quasi.com.pt



Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.

O que é então o poema?
Um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?

Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.

Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.

O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!

Rosa Alice Branco, «Da Alma e dos Espíritos Animais» in
Soletrar o Dia – Obra Poética, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2002

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Poema com camarinhas (corema album)

as mãos vazias sim. e o relógio no pulso
a dar conta das horas perdidas dos anos em cinza
das pegadas alisadas por dunas viajantes.
cavalgo então no dorso de uma ali por mira
mar senhor da pedra à vista e encontro
aquelas translúcidas camândulas
com que encho os bolsos e mato
a sede à saudade. Voo então no bico
das gaivotas até mais além bem dentro da infância
e pouso numa palmeira do adro da igreja à sombra
da qual aos domingos mulheres de negro vendiam
doces de gema níveos de açúcar e as mesmas bagas
minúsculas que trazíamos para casa num cone de jornal.

agora sim as mãos vazias e tanto bolso roto incapaz
de suster a memória dos dias afogueados a lata dos doces
comida da ferrugem e das formigas e a boca sedenta
de frutos sumarentos exilados do mercado e dos dias do senhor.

de repente topo de novo estas pequenas
drupas rosadas e que bem me sabem
uhmm camarinhas num poema de rosa alice.

Anthero Monteiro

(inédito e a propósito do poema postado imediatamente antes, de Rosa Alice Branco)

A letra mais pequena

Caminhas na praia. As sandálias nas dunas
junto à erva agreste de outros dias. O sol
não te queima, não te fere os olhos ao meio-dia.
Soletramos o amor com a letra mais pequena de uma língua
acabada de inventar. Sabem as gaivotas. Sabe o mar.
Era uma vez. Era assim que te agasalhava a noite
e me enrolava nos teus olhos para encontrar
a luz. Não é com a memória que caminho.
As manhãs de névoa como as camarinhas
que cresciam nas dunas. Com quem posso
agora falar de camarinhas? Saborear o gosto
das bagas e dos risos. Vamos apanhando conchas,
castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo
o que encontramos. As mãos vazias. Os passos leves.
Os olhos crescem como a erva nas sandálias.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002


Foto: www.ocean.edu/images

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A arte da escrita


1

A criação do poema: batalha

silenciosa

entre o som e o sentido.


2

Autor? Amante? Se ficas o mesmo

depois dessa viagem,

não fizeste viagem nenhuma


3

Não há poema para si;

não há poema sem Outro, a quem, cego,

se ofereça.


4

O salto imprevisível

da escuta para a escrita.


5

Aceitar, absorver, engolir

tudo: metáforas, inspirações -

o caos, a contaminação

da rua e do cânone e da corte. Depois

o estilete, o estilo, a minha maneira.


6

O poema está mais quente

na boca de quem o canta

do que no ouvido de quem escuta.


7

Um poema não se escreve. O poema

é escrito no momento preciso

em que é o corpo de si próprio

e pouco tem já a ver com a mão de quem escreve.


8

A emoção em arte é uma espécie

de música, parece dada

mas não foi (...) foi composta

e depois parida

com muita dor (ainda que a não sintas).


9

Depurar, depurar. O poema

nasce das palavras

que ficam pelo caminho.


10

A palavra não diz nada,

único dizer é o silêncio.


Casimiro de Brito / Rosa Alice Branco,

Animal Volátil, Porto, Edições Afrontamento, 2001