quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Teu nome















ínfimas estrelas
meus olhos alastro-os
percorro com elas
o livro dos astros
e é nesta fome
das imensidões
que leio o teu nome
nas constelações
Anthero Monteiro,
Canto de Encantos e Desencantos,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2005, 2.ª ed.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Dois cigarros

Cada noite á a libertação. Contemplam-se os reflexos
no asfalto das avenidas que se abrem luminosas ao vento.
Cada raro transeunte tem um rosto e uma história.
Mas a esta hora deixa de haver cansaço: os milhares de luzes
são todos para quem pára para riscar um fósforo.

A chamazinha apaga-se contra o rosto da mulher
que me pede lume. Apaga-se com o vento
e a mulher, frustrada, pede-me outro,
que também se apaga: a mulher agora ri-se baixinho.
Aqui podemos falar em voz alta e gritar,
que ninguém ouve. Erguemos os olhar
para todas as janelas - olhos apagados que dormem -
e esperamos. A mulher encolhe os ombros
e queixa-se de que perdeu o xaile às cores
que a aquecia à noite. Mas basta apoiar-se
contra a esquina e o vento não é mais do que um sopro.
No asfalto gasto há já uma beata.
Este xaile veio do Rio, diz-me a mulher,
que está contente por tê-lo perdido, pois me encontrou.
Se o xaile veio do Rio, atravessou de noite
o oceano inundado de luzes pelo grande transatlântico.
Noites de vento, sem dúvida. É um presente dum seu marinheiro.
O marinheiro desapareceu. A mulher sussurra-me
que, se for com ela, me mostra o retrato
de caracóis e bronzeado. Viajava em vapores sebentos
e limpava as máquinas: eu sou mais bonito.

No asfalto há duas beatas. Olhamos para o céu:
a janela lá em cima - aponta com o dedo - é a nossa.
Mas lá em cima não há aquecedor. De noite, os navios perdidos
têm poucas luzes ou apenas as estrelas.
Atravessamos o asfalto de braço dado, brincando a aquecer-nos.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Lisboa, Cotovia, 1998
(Tradução de Carlos Leite)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Noite

Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,

Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I, Lisboa, Ática, 1975, 3.ª ed.

No chão da noite





"..aprendi a andar
no chão da noite"
José Gomes Ferreira, Memória II




1. À noite, quando o sul e o norte se confundem, em cada cidade adormecida, uma sombra agoniza no escuro.


2. Nas madrugadas de chuva, o lamento da noite não comove - porque é mais densa e bravia a memória do sangue, vertido a coberto do sono e das pálpebras do mundo.
Nas madrugadas de chuva, cala-se a voz do rio, as miragens fenecem, e o calor do linho não chega para aplacar o frio e apagar a imagem dos que no escuro se perderam.


3. Como um navio em águas sombrias os olhos cruzam a noite e uma janela de luz os retém.
Sentado, um homem luta ainda com as palavras. A noite vai cumprindo o que a mão resiste a escrever: "rotinas de sangue suor e pranto".
E ante o comum lugar da fórmula, a última lâmpada apaga-se e tinge de silêncio o verso que a luz não quis reter.


João Pedro Mésseder,
in Vários, Recomeço Límpido, Porto, PCP, 2000

Crepúsculo


Cai a tarde, dentro e fora.

E agora, ao cair da tarde,

frio, caminho, por fora,

face estranha à tarde que arde

na hora que cai agora.

Adeus, tarde. Vou-me embora

antes que seja mais tarde.

Não quero ser leão covarde:

quando tem dentes, devora,

quando os não tem, geme e chora,

anjo falso que se inflora

à hora em que cai a tarde.

Oh não quero! Vou-me embora

antes que seja mais tarde.

Para quê sentir agora

se agora é a hora da tarde?

Não há nada que nos guarde,

nem defenda nem resguarde

do que na hora é outrora.

Chora, chora, chora, chora.

Não chores mais. Vai-te embora

antes que seja masi tarde.


António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975
(foto A.M.)

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!


Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!

Porque não vens de olhos enxutos

e não despes as mãos

de mágoas e de lutos!


Porque hás-de vir semimorta,

com ar macerado e de bruxedo,

e não despes os ritos, o cansaço,

e as lágrimas e os mitos e o medo!


Porque não vens natural

Como um corpo sadio que se entrega,

e não destranças os cabelos,

e não nimbas de luz a tua treva!


Porque hás-de vir com a cor da morte -

se a morte já temos nós!

Porque adormeces os gestos,

porque entristeces os versos,

e nos quebras os membros e a voz!


Porque é que vens adorada

por uma longa procissão de velas,

se eu estou à tua espera em cada estrada,

nu, inteiramente nu,

sem mistérios, sem luas e sem estrelas!


Ó noite eterna e velada,

senhora da tristeza, sê alegria!

Vem de outra maneira ou vai-te embora,

e deixa romper o dia!


Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos, 1948

To night


Esta noite vou embebedar os meus navios
Rasgar os meus poemas
E as minhas raras (raríssimas)
Cartas de amor

Esta noite vou ser horrível
Pior do que o costume
Vou desabobadar os céus da minha esperança
Viga por viga estrela por estrela

Esta noite vou embebedar os meus navios
Vou deixar de falar a imensa gente
Vou encontrar um sábio chinês
Que me recitará poemas muito simples
Insuportáveis de tão belos

Esta noite vou destruir mapas antigos
Abrir certas janelas e quebrar
A possibilidade de alguém mais entrar na minha vida

Esta noite vou pedir perdão aos meus amigos
E escrever uma última carta sem a mínima sombra de sentimentalismo

Esta noite vou embebedar os meus navios

Alberto de Lacerda, Palácio, Lisboa, Delfos, 1961
(Foto in nadacomoorealmente.blogspot.com)