sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Pastoral











Foto: A.M.




Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.
Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.

António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.

O valor do vento























Foto:
A. M.




Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo, Homem de Palavra[s],
Lisboa, Editorial Presença, 1978, 2.ª ed.

Algumas preposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração












Foto: A.M.




Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo, Homem de Palavra[s],
Lisboa, Editorial Presença, 1978, 2.ª ed.

Poema das árvores

















Foto: A.M.





As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.

António Gedeão, Novos Poemas Póstumos,
Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1998, 3.ª ed.

Cada árvore é um ser para ser em nós



















Foto: A.M.




Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
a árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
Com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa, Cada Árvore é um Ser para Ser em Nós, Porto, In-Libris

Tema de Fevereiro: ÁRVORES PARA ABRAÇAR














Foto in
www.tao-yin.com




FEVEREIRO. Encerramos aqui o tema "Amor - um não sei quê", que será objecto da sessão da Onda Poética do próximo dia 12, na antevéspera do Dia dos Namorados.

Começamos, pois, agora a preparar a sessão do mês de Março, de tal sorte que, quando lá chegarmos, tenhamos poemas suficientes para as escolhas dos participantes.
Dado que em Março (dia 21), se comemora o Dia Mundial da Árvore e da Floresta, optamos pelo tema

ÁRVORES PARA ABRAÇAR.

Talvez com este gesto, possamos de alguma forma agradecer-lhes tudo o que elas nos oferecem.
Para as abraçar, teremos de plantá-las, cuidá-las e cuidar todo o ambiente à nossa volta, evitando que sejam cortadas. Quando isso for inevitável, é indispensável plantar muitas outras.
Que a poesia nos ajude a respeitá-las e a amá-las como merecem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Poesia no Ar em Ermezinde



























Eis a dupla que vale a pena ouvir no
Ar de Café - Rua de Goa n.º 109 - Ermezinde

* Leituras por Luís Carvalho
* Voz e guitarra acústica de
Carlos Andrade

Para mais informações:

- LIgue 93 256 6517 ou
- consulte o blogue PEDAÇOS DE ALMA, aqui.