quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Choramos a morte da árvore centenária
Foto A.M.
Choramos a morte
da árvore centenária
personagem central
da nossa infância
gigantismo surreal
frente à pequena riqueza
da nossa infância.
(Catástrofe ecológica em nossos corações enraizados)
Choramos a morte
da árvore centenária
as raízes expostas
longos, pétreos, calosos cordões rumo ao infinito
penosamente expõem
quão profunda a relação
da nossa juventude com sua temperança.
(Resta-nos agora chorar a morte
da nossa velha árvore centenária)
Choramos a morte
da árvore centenária
esperávamos um dia
mostrar aos nossos filhos
nomes troncamente escritos
velhos sonhos
que acabaram por tombar.
(Que nossas lágrimas reguem a terra
e que as sementes da árvore centenária
façam surgir uma nova companheira
para a infância dos nossos netos)
Ricardo Senna Guimarães
A árvore em fogo
Na ténue névoa vermelha da noiteVíamos as chamas, rubras, oblíquas
Batendo em ondas contra o céu escuro.
No campo em morna quietude
Crepitando
Queimava uma árvore.
Para cima estendiam-se os ramos, de medo estarrecidos
Negros, rodeados de centelhas
De chuva vermelha.
Através da névoa rebentava o fogo.
Apavorantes dançavam as folhas secas
Selvagens, jubilantes, para cair como cinzas
Zombando, em volta do velho tronco.
Mas tranquila, iluminando forte a noite
Como um gigante cansado à beira da morte
Nobre, porém, em sua miséria
Erguia-se a árvore em fogo.
E subitamente estira os ramos negros, rijos
A chama púrpura a percorre inteira
Por um instante fica erguida contra o céu escuro
E então, rodeada de centelhas
Desaba.
Bertolt Brecht
(Tradução de Paulo César de Souza)
Foto in
http://terresacre.org
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
As sílabas da casa

Tílias do Palácio de Cristal no Porto.
A foto é do bloque a seguir indicado,
ao qual faço vénia como homenagem ao melhor
blogue sobre árvores
(e com inúmeros e belos poemas).
dias-com-arvores.blogspot.com,
Uma pedra,
outra pedra – assim começa
a casa, o pátio onde o lume
dos gerânios morde a cal,
os degraus subindo ao feno
desatado, a marca
dos dentes nas maçãs e na cintura,
a porta estreita
do corpo, o nó de sombra mais secreto,
os cães correndo entre as primeiras
sílabas da noite, por fim
o inaudível rumor das tílias.
Eugénio de Andrade
O lódão
(...) Se falei de árvores com ácida melancolia é porque me derrubaram uma das que mais amei na vida, o velho lódão que me entrava pela varanda e dava notícia das estações. O móbil foi, naturalmente, atravancar a rua com mais automóveis (...). Levei anos e anos a lamentar-me, até que, não há muito ainda, numa cerimónia em que, surpreendentemente, me fizeram cidadão honorário do Porto, disse ao Presidente da Câmara que preferia uma árvore à porta do que a medalha de ouro da cidade, com que me distinguia e honrava toda a vereação. Ele prometeu-me outro lódão e cumpriu a promessa, deus seja louvado. Agora a casa onde moro é fácil de descobrir: tem um troncozito despido que lembra um poema meu, exíguo e desamparado.
Eugénio de Andrade, A Cidade de Garrett (1996)
Eugénio de Andrade, A Cidade de Garrett (1996)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
25/2, Quarta-Feira de Cinzas é Quarta Mal Dita
Quartas Mal Ditas
25 Fevereiro
22:00 horas
Piano Bar
Clube Literário do Porto
Tema:
Gatos, Gatos, Gatos
Coordenação:
Anthero Monteiro
Colaboração e Leituras:
António Pinheiro / Diana Devezas / Isa Mar / Luís Carvalho / Mário Vale Lima / Marta Tormenta / Rafael Tormenta
Convidadas:
- Graça Marto (pintora, autora da antologia Posso Entrar? - 30 Estórias com Animais e membro do MIDAS - Movimento Internacional em Defesa dos Animais)
- Rosa Brandão (pianista, dirigente da SOS- AniArouca)
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, n.º 22
4050-430 Porto
T. 222 089 228
Fax. 222 089 230
Email: clubeliterario@fla.pt
URL: www.clubeliterariodoporto.co.
BLOGUE: http//www.
Que luz feliz estar a ver as árvores...
Foto A.M.
Que luz feliz estar a ver as árvores
a rendilhar a madrugada fina
de um Dezembro subtil em que se esparze
só a memória da ternura antiga.
Leve persiste a nitidez das árvores.
Mas se, às vezes, se contrista
é porque o voo, atropelando o instante,
rascunha o susto na pressa da retina.
Desembacia-se a subtilidade
de estar a ver. Vem acima
a memória feliz de havermos visto as árvores
e de estarmos a vê-las do fundo de outra vida.
Fernando Echevarría, Geórgicas,
Porto, Afrontamento, 1998
N. em 1929. Cursou Humanidades em Portugal, Filosofia e Teologia em Espanha.
Exilado em Paris desde 1961, parte para Argel em fins de 1963, regressando àquela cidade em meados de 1966. Aí reside desde então.
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