sexta-feira, 10 de abril de 2009

Contradições









Foto A.M.




A Sofia foi-se de tesoura em punho à trepadeira
de flores azuis que tudo invade
-------------------------------- e decidiu libertar
a roseira mais próxima desses coleantes abraços
que a asfixiam.
----------------Pronto!
------------------------ concluiu vingadora.
Libertei as nossas pobres rosas!
-------------------------------- Mas viu no chão
as decepadas campainhas azuis
-------------------------------- que choravam em voz alta.
Que mal te fizemos?!
--------------------- gemeram.
-------------------------------- Ingrata! Trepamos por todo
o lado para melhor alegrar os vossos olhos com as nossas
flores azuis! Nosso destino de trepadeira é este:
subir cada vez mais alto!
------------------------- Abraçámos com muito amor
as tuas rosas. De quem a culpa se lhes falta o ar?

Teresa Rita Lopes, Jogos, Versos e Redacções,
Lisboa, Editortial Presença, 2001

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Rosas e cantigas




C
astelo de
Montemor-o-Velho
onde há uma lápide
com versos de
Afonso Duarte.


Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? - Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas...
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.

Afonso Duarte


N. a 1 de Janeiro de 1884 na Ereira, Verride, Montemor-o-Velho.
Foi professor no Liceu de Vila Real e no Liceu Gil Vicente, em Lisboa, e chefe de secretaria em várias escolas, mas notabilizou-se, a nível europeu, como pedagogo na Escola Normal.
Em 1956, sai a 1.ª edição da sua Obra Poética, das Iniciativas Editoriais, uma recolha dos livros de poesia já publicados e outros poemas. A 2.ª edição, aumentada, sai na Guimarães Editores no ano seguinte. A 3.ª edição, póstuma e definitiva é de 1974.
Tinha falecido em Coimbra, a 5 de Março de 1958, ficando sepultado o seu corpo na Ereira, terra natal.

Na terra










Foto A.M.




Pequena
rosa,
rosa pequena,
por vezes
diminuta e nua,
parece que
numa das minhas mãos
cabes,
que vou assim fechar-te
e levar-te à minha boca,
mas
logo
os meus pés tocam os teus pés
e a minha boca os teus lábios,
cresceste,
sobem os teus ombros como duas colinas,
teus peitos passeiam pelo meu peito,
o meu braço consegue apenas rodear
a delgada linha de lua nova que tem a tua cintura:
no amor como água do mar te desataste:
meço apenas os olhos mais externos do céu
e inclino-me na tua boca para beijar a terra.

Pablo Neruda, in Poesía de Amor,
Barcelona, Mondadori, 1998
Trad. de Anthero Monteiro

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Anúncio da rosa










Foto in
www.interrose.co.uk/




Imenso trabalho nos custa a flor.
Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.
Primavera não há mais doce, rosa tão meiga
onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,
sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,
ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,
todas histórias, todas catárticas, todas patéticas.

Vede o caule,
traço indeciso.

Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?
Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido
que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,
pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio.

Vinde, vinde,
olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,
não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.
Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas,
oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão.

Rosa na roda,
rosa na máquina,
apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,
e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.
Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

Aproveitem. A última
rosa desfolha-se.


Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001

O Principezinho e a rosa











[...] O principezinho foi ver outra vez as rosas.
- Vós não sois nada parecidas com a minha rosa; ainda não sois nada, disse-lhes ele. Ninguém vos cativou, nem vós cativastes ninguém. Sois como era a minha raposa. Não passava de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas fiz dela minha amiga e agora é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante aborrecidas.
- Vós sois belas, mas vazias, disse-lhes mais. Ninguém vai morrer por vós. É certo que, quanto à minha rosa, qualquer vulgar transeunte julgará que ela se vos assemelha. Mas, sozinha, ela vale mais do que vós todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que pus numa redoma. Porque foi ela que abriguei com um biombo. Porque foi por causa dela que matei as lagartas (excepto duas ou três para as borboletas). Porque foi ela e só ela que ouvi lamentar-se ou gabar-se, ou mesmo, por vezes, calar-se. Porque é a minha rosa. [...]

Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho,
Lisboa, Editorial Aster, Trad. de Alice Gomes, 4.ª ed., s/d

La rose













Foto in
www.visoflora.com/photos-nature



Une rose qui pleure

Lentement se dévêt

Pour mettre à nu son cœur

D’où la vie disparaît.


Elle se sent mourir,

Elle courbe la tête,

La brise fait frémir

Sa frêle silhouette.


Des larmes de rosée

Roulent sur sa peau lisse

Et sa robe fripée

A terre doucement glisse.


Un doux parfum d’adieu

S’élève dans la nuit,

Elle cligne des yeux,

Un sursaut, c’est fini.


Madeleine Reynaud,

in www.poesiefrancophone.com


Poeta francesa, n. em Schimpt, Chaumont, no Haute-Marne em 1942.
Autora de Trois Petites Notes d'Éternité (1996) e de Du Bonheur et des Larmes (2005).

Rosa














Foto in
www.gmulhermaravilha.blogspot.com/


Rosa.
Chamam-te Rosa, minha preta formosa,
E na tua negrura
Teus dentes se mostram sorrindo.
Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
Minha preta formosa, lasciva e ridente
Vais cheia de vida, vais cheia de esperança
Em teu corpo correndo a seiva da vida
Tuas carnes gritando
E teus lábios sorrindo...
Mas temo a tua sorte na vida que vives,
Na vida que temos.
Amanhã terás filhos, minha preta formosa
E varizes nas pernas e dores no corpo;
Minha preta formosa já não serás Rosa,
Serás uma negra sem vida e sofrente,
Serás uma negra
E eu temo a sua sorte.
Minha preta formosa não temo a tua sorte,
Que a vida que vives não tarda a findar...
Minha preta formosa, amanhã terás filhos
Mas também amanhã...
... amanhã terás vida!

Amílcar Cabral