sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Procura-se um amigo







Foto A.M.







Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa de saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.


Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância. Precisa-se de um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinícius de Moraes (?)

Tem sido atribuído a Vinicius de Moraes. No entanto, a sua Obra Completa, da Editora Aguilar, não regista este texto, o mesmo acontecendo com a sua página oficial, mantida pela família do poeta.

Enquanto houver amizade...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Púcaros Bar (e Anthero Monteiro) no Youtube



Estas são as imagens que puderam ser presenciadas no Jornal da Uma na TVI, há dias, sobre as Noites de Poesia do Púcaro's Bar, nas Arcadas de Miragaia, no Porto.

Desde esse dia, o Púcaros é diferente para melhor: quase sempre cheio e com muita gente nova (e nova gente) a participar. Ainda ontem, a nota dominante foi a presença de um grupo de jovens, alunos, na sua maioria, da Escola Soares dos Reis.

Como sempre, dominou também a mais completa anarquia (nos temas sobretudo), que é, ao fim e ao cabo também, uma ciência de auto-regulação:às duas e meia / três da matina ainda estávamos todos vivos e a Poesia muito mais viva do que nós.

Púcaro's Bar = Poesia Sempre.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Quartas Mal-Ditas de Dezembro: AMIZADE / FRATERNIDADE / SOLIDARIEDADE... e Padre Mário de Oliveira

É isso mesmo: na próxima Quarta que dizemos Mal Dita, a realizar no dia 23 no Clube Literário do Porto, a tertúlia irá ler poemas subordinados ao tema deste mês da Praça da Poesia.

O tema parece adequar-se ao Natal que aí está, mas o convidado que está presente para falar sobretudo do seu último livro (Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação) é mesmo considerado maldito pela hierarquia católica: trata-se do Padre Mário de Oliveira, ex-pároco de Macieira da Lixa, cujas múltiplas obras têm causado algum pânico na instituição da Igreja.

Valerá a pena conversar com ele mais uma vez e ouvir da sua voz corajosa por que razão escreve:

«Este
Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação vem pôr a nu as máfias que todas as cúpulas das Igrejas/Religiões são. Juntamente com as outras cúpulas do Poder Político e do Poder económico-financeiro. Os três Poderes juntos são a mais perversa Trindade que se faz passar por Deus/ pelo Absoluto na História e que exige dos seres humanos e dos Povos incondicional adoração/submissão.»

22 horas no Piano-Bar, com música a cargo da voz e da guitarra acústica de Carlos Andrade. Imperdível.

Saiba mais sobre o Padre Mário de Oliveira aqui.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Poema do coração


















Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.


Balada dos amigos separados



















Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? Aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?


Mário Dionísio, Poesia Incompleta,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 1966

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Catorze Escritores do Norte" - um livro colectivo













Trata-se de uma iniciativa do meu amigo Orlando da Silva, que coordenou o projecto e desenhou com grande perícia os retratos dos escritores contemplados, a saber:

Camilo Castelo Branco
Júlio Dinis
Guilherme Braga
Eça de Queiroz
Guerra Junqueiro
António Nobre
Manuel Laranjeira
Teixeira de Pascoaes
Aquilino Ribeiro
Ferreira de Castro
João de Araújo Correia
José Régio
Miguel Torga
Sophia de Mello Breyner

Para além do próprio Orlando da Silva, publicista, e de um texto sobre Camilo, da autoria de Manuel Laranjeira, médico, escritor, poeta e dramaturgo, o projecto teve ainda a colaboração dos seguintes autores:

Abílio F. da Silva, médico, ensaísta e dramaturgo
Fonseca Gaspar, escritor, poeta e ensaísta
Henrique Manuel S. Pereira,, professor, escritor e ensaísta
Humberto Rocha, escritor e poeta
António Cândido Franco, romancista, poeta e ensaísta
Manuel Lima Bastos, advogado e devoto aquiliniano
Paulo Samuel, editor e ensaísta
Carlos Maduro, professor e ensaísta
Manuel Poppe, diplomata, novelista, dramaturgo e ensaísta
Celestino Portela, advogado e director da revista Villa da Feira
Anthero Monteiro, professor, poeta e ensaísta.

O apresentador, o Professor Daniel Serrão, é, como se sabe, uma distinta personalidade ligada à Medicina, sobretudo à Anatomia Patológica e à Bioética, especialista em Ética da Vida e conselheiro do Papa.

Esta cerimónia será antecedida pela apresentação de outra obra, no mesmo local: trata-se de A Música de Junqueiro - livro e 2 cds, coordenada pelo Professor Henrique Manuel S. Pereira, um dos autores de Catorze Escritores do Norte.

Uma tarde em cheio, portanto, no próximo sábado, no Clube Literário do Porto, ali em frente ao estacionamento da Alfândega.

Vai valer a pena lá estar.