sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Amanhã que é domingo



...rios onde as crianças nuas tomam banho


(Foto A.M.
)







Amanhã é domingo, Raul
Amanhã é domingo e não farás nada do que dizes.

Ao acordar não saberás o que fazer. Depois a rotina
[habitual — lavar a cara, fazer a barba, ler o
[jornal, escovar o fato, sair para o almoço
[— ocupará meio-dia.

Amanhã passarás a tarde num café,
às voltas com um livro,
às voltas com um amigo,
às voltas com uma saudade...

Depois do jantar irás a um cinema, subirás a rua
[paulatinamente, puxarás de um molho de
[chaves e, ao vestir o pijama, vir-te-ão
[lembranças
rios onde crianças nuas tomam banho,
pássaros que cantam livres sobre as árvores,
navios que cruzam oceanos em direcção a ilhas onde
[a alegria dura sessenta anos,
espelhos facetados onde o passado e o futuro têm
[rostos de pureza...

Amanhã, onde quer que vás, estarás só.
Noutra mesa,
noutra rua,
noutro bairro,
noutra cidade,
serás mordido, espezinhado, insultado.
cortar-te-ão a língua, quebrar-te-ão os ossos,
colarão a tua fotografia no edital das cabeças a prémio,
lançarão ao monturo as cinzas recolhidas do auto de fé...

O dia será triste, a noite sem aventura,
as famílias que abordares falar-te-ão em calão...
Amanhã estarás só e não haverá estrelas.


Egito Gonçalves, O Amor Desagua em Delta

Domingo







Foto A.M.











domingo dia do senhor em quem não creio
mas subo o monte a pé e faço a penitência
de existir arrastando-me para o alto

aproximo-me assim do trono em que ele adormeceu
e contemplo do miradouro a criação que lhe atribuem

mas em mim tudo o que vejo tudo o que existe
tudo o que é beleza e perfeição
tudo o que é divino e sobranceiro e imenso
é o teu rosto que se sobrepõe às coisas criadas
é o teu nome que vem do aroma das rosas
é a tua suave voz que vem no vento

domingo dia da senhora dos meus pensamentos

Anthero Monteiro
(inédito)

Tema de Janeiro 2010:" NUNCA MAIS É SÁBADO"












Estrela cabalística
de 7 pontas in
www.astrothon.com





E assim desabrochou 2010
. Um ano redondo, que também espero redondo de grandes concretização e prenhe de novos sonhos, indispensáveis para que os meus amigos e amigas se possam continuar a sentir vivos.

Este mês de Janeiro, proponho-me coligir na PRAÇA DA POESIA poemas e outros textos relacionados com os dias da semana.

Como é do conhecimento geral, a divisão do tempo em períodos de 7 dias ("septimana" - sete manhãs) provém da duração das fases lunares nas quais se inspiraram os povos antigos. O nome de cada dia deve-se aos deuses e aos astros das religiões pré-cristãs. A maior parte dos países cristãos mantiveram a nomenclatura pagã fundamentada no nome de astros ou de deuses a que cada dia era dedicado. Assim, em inglês, por exemplo:

- Sunday (dia do Sol)
- Monday (dia da Lua)
- Tuesday (dia Tyr, precursor de Odin, correspondente a Marte)
- Wednesday (dia de Woden, correspondente a Mercúrio)
- Thursday (dia de Thor, na mitologia nórdica, identificável com Júpiter)
- Friday (dia de Frige, forma antiga de Frigg, tradução do germânico para dia de Vénus)
- Saturday (dia de Saturno)

Só na língua portuguesa é que os nomes dos dias da semana seguem a liturgia católica, desde que o bispo bracarense S. Martinho de Dume aboliu os nomes pagãos, no século VI, passando a designar os dias por:

- Dominica dies (Domingo, dia do Senhor)
- Feria Secunda (Segunda-Feira)
- Feria Tertia (Terça- Feira)
- Feria Quarta (Quarta- Feira)
- Feria Quinta (Quinta-Feira)
- Feria Sexta (Sexta- Feira)
- Sabbatum ( Sábado, dia de Shabbath, do hebraico),
sendo a palavra "feriae" (origem do termo "feriado") utilizada para a Semana Santa, em que então não se trabalhava, mas generalizada depois para as outras semanas.


E creio que podemos começar a recolha. Não vejo qualquer inconveniente em que os meus amigos(as) me enviem sugestões para o e-mail da Praça da Poesia:

www.pracadapoesia@gmail.com


Então, vamos a isso antes que principiem todos a gritar que
...

NUNCA MAIS É SÁBADO!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Aos amigos






Foto in

www.brunorusso.eti.br/
brusso/amizade/











Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder, Ofício Cantante,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2009

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

That's what friends are for



Canção composta por Burt Bacharach e Carole Bayer Sager em 1982, aqui interpretada por Dionne Warwick, Stevie Wonder, Luther Vandross & Whitney Houston.
A letra é de Kelly Clarkson.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Cântico fraterno






Pablo Picasso,

Amistad







Chamo por ti.

Chamo por ti, com versos fraternais.

Nunca te vi,

Mas nascemos os dois dos mesmos pais.


Chamo em nome da vida, que me ordena

Que te diga a verdade;

É o meu lenço que acena,

Mas o cais é de toda a humanidade.


Deixa as sombras e vem!

És homem como eu sou, hás-de gostar

De pisar com desdém

A herança que não podes renovar.


O passado é o passado – já morreu.

Grande é o futuro, por nascer.

Nenhum fruto maduro prometeu

O que a semente pode prometer.


Do que foi embebedas a lembrança,

Do que há-de ser, estremeces!

Vindo, voltas a ser criança;

Mas aí, apodreces.


Chamo por ti de manso,

Numa ordeira canção;

É uma ponte de sonho que te lanço…

Passa por ela, irmão!


Miguel Torga, Nihil Sibi

Os amigos desconhecidos









Quando ouvi onde ouvi este rosto vulgar e fatigado
estes olhos brilhantes lá no fundo
e este ar abandonado e inconformado
que aproxima?

Quando ouvi esta voz
que se eleva em surdina em meu ouvido e diz
frases tão conhecidas?

Quando foi que senti
estes dedos amigos nos meus dedos
este aperto de mão
tão comovidamente prolongado?

Não somos nós dois estranhos que se cruzam
com o mesmo passado
e com a mesma féria?

Ah dois amigos velhos que se encontram
pela primeira vez

Mário Dionísio, Poesia Incompleta,
Mem-Martins, Publicações Europa-América