sábado, 2 de janeiro de 2010

O dia de descanso





Ana Luísa
Amaral








Levei minha filha ao parque
e era domingo.

Pelo domingo, o parque
fica como o jardim do paraíso,
abertos os portões e nenhum deus.
Tudo inocência
entre verdura e saibro e cavalinhos
cabalisticamente numerados
até sete.

Levei minha filha ao parque
e era domingo
e não havia o anjo com a espada de fogo.

Não que na minha filha
cuidasse o guardião:
rasteiros os arbustos sem sítio de maçã
e esta filha tinha só três anos.
o anjo era meu só,
velha dez vezes mais e proibida
por regras de baloiço.

Mesmo dez vezes mais, voei, e tudo ausente.
entre palmas e risos,
o anjo, o fogo, a espada, tudo ausente,
e o céu: só céu azul e limpo.

Levou-me a minha filha ao parque
e era domingo,
o dia de descanso do anjo distraído
de expulsar e distraídos
os portões abertos.


Ana Luísa Amaral, Imagias

O futuro






Foto A.M.








Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

Reinaldo Ferreira

Tempo livre


Parque Eduardo VII -
Lisboa
in
www.leme.pt








Numa tarde de domingo, em Central Park, ou
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo,
ou num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
¬napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer.
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio.
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.

Nuno Júdice, Poesia Reunida (1967 – 2000)

Domingo





...a minha mulher teve vergonha da sua beleza.

(Foto in
Au féminin.com)








Hoje, domingo, nasceu uma filha-magnólia.
Hoje, domingo, um cavaleiro atravessou a cidade,
sem que ninguém o visse.
Hoje, domingo, foram desenterrados os tesouros
submersos pelas tuas lágrimas.
Hoje, domingo, minha mãe não regressou
do cemitério.

Hoje, domingo, uma pradaria caiu do céu
antes de sobrevoar, durante uma hora, a nossa região.
Hoje, domingo, o geneticista olhou pela primeira vez
por uma janela cega.
Hoje, domingo, sábado fez amor com segunda-feira.
Hoje, domingo, o campo reverdecido ficou prisioneiro do trigo.
Hoje, domingo, sobre a casa Pogor, as nuvens imitaram
a cabeça do Melro.

Hoje, domingo, os avós releram
as suas certidões de nascimento originais.
Hoje, domingo, a minha mulher teve vergonha
da sua beleza.
Hoje, domingo, o tipógrafo adoptou
uma letra de ouro.
Hoje, domingo, a máquina de escrever
aprendeu uma língua morta, hindu.
Hoje, domingo, o muro em que escrevi
caiu em cinzas.

Lucian Vasiliu, O Melro da Casa Pogor, 1994
Tradução de Anthero Monteiro
__________

Lucien Vasiliu, poeta, romancista, bibliotecaário, conservador de museu literário, nasceu, filho de padre, na Moldávia, Roménia. É autor dos livros de poesia : O Filho do Homem (1986), O Melro da Casa Pogor (1994), Lucianogramas (1999).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Amanhã que é domingo



...rios onde as crianças nuas tomam banho


(Foto A.M.
)







Amanhã é domingo, Raul
Amanhã é domingo e não farás nada do que dizes.

Ao acordar não saberás o que fazer. Depois a rotina
[habitual — lavar a cara, fazer a barba, ler o
[jornal, escovar o fato, sair para o almoço
[— ocupará meio-dia.

Amanhã passarás a tarde num café,
às voltas com um livro,
às voltas com um amigo,
às voltas com uma saudade...

Depois do jantar irás a um cinema, subirás a rua
[paulatinamente, puxarás de um molho de
[chaves e, ao vestir o pijama, vir-te-ão
[lembranças
rios onde crianças nuas tomam banho,
pássaros que cantam livres sobre as árvores,
navios que cruzam oceanos em direcção a ilhas onde
[a alegria dura sessenta anos,
espelhos facetados onde o passado e o futuro têm
[rostos de pureza...

Amanhã, onde quer que vás, estarás só.
Noutra mesa,
noutra rua,
noutro bairro,
noutra cidade,
serás mordido, espezinhado, insultado.
cortar-te-ão a língua, quebrar-te-ão os ossos,
colarão a tua fotografia no edital das cabeças a prémio,
lançarão ao monturo as cinzas recolhidas do auto de fé...

O dia será triste, a noite sem aventura,
as famílias que abordares falar-te-ão em calão...
Amanhã estarás só e não haverá estrelas.


Egito Gonçalves, O Amor Desagua em Delta

Domingo







Foto A.M.











domingo dia do senhor em quem não creio
mas subo o monte a pé e faço a penitência
de existir arrastando-me para o alto

aproximo-me assim do trono em que ele adormeceu
e contemplo do miradouro a criação que lhe atribuem

mas em mim tudo o que vejo tudo o que existe
tudo o que é beleza e perfeição
tudo o que é divino e sobranceiro e imenso
é o teu rosto que se sobrepõe às coisas criadas
é o teu nome que vem do aroma das rosas
é a tua suave voz que vem no vento

domingo dia da senhora dos meus pensamentos

Anthero Monteiro
(inédito)

Tema de Janeiro 2010:" NUNCA MAIS É SÁBADO"












Estrela cabalística
de 7 pontas in
www.astrothon.com





E assim desabrochou 2010
. Um ano redondo, que também espero redondo de grandes concretização e prenhe de novos sonhos, indispensáveis para que os meus amigos e amigas se possam continuar a sentir vivos.

Este mês de Janeiro, proponho-me coligir na PRAÇA DA POESIA poemas e outros textos relacionados com os dias da semana.

Como é do conhecimento geral, a divisão do tempo em períodos de 7 dias ("septimana" - sete manhãs) provém da duração das fases lunares nas quais se inspiraram os povos antigos. O nome de cada dia deve-se aos deuses e aos astros das religiões pré-cristãs. A maior parte dos países cristãos mantiveram a nomenclatura pagã fundamentada no nome de astros ou de deuses a que cada dia era dedicado. Assim, em inglês, por exemplo:

- Sunday (dia do Sol)
- Monday (dia da Lua)
- Tuesday (dia Tyr, precursor de Odin, correspondente a Marte)
- Wednesday (dia de Woden, correspondente a Mercúrio)
- Thursday (dia de Thor, na mitologia nórdica, identificável com Júpiter)
- Friday (dia de Frige, forma antiga de Frigg, tradução do germânico para dia de Vénus)
- Saturday (dia de Saturno)

Só na língua portuguesa é que os nomes dos dias da semana seguem a liturgia católica, desde que o bispo bracarense S. Martinho de Dume aboliu os nomes pagãos, no século VI, passando a designar os dias por:

- Dominica dies (Domingo, dia do Senhor)
- Feria Secunda (Segunda-Feira)
- Feria Tertia (Terça- Feira)
- Feria Quarta (Quarta- Feira)
- Feria Quinta (Quinta-Feira)
- Feria Sexta (Sexta- Feira)
- Sabbatum ( Sábado, dia de Shabbath, do hebraico),
sendo a palavra "feriae" (origem do termo "feriado") utilizada para a Semana Santa, em que então não se trabalhava, mas generalizada depois para as outras semanas.


E creio que podemos começar a recolha. Não vejo qualquer inconveniente em que os meus amigos(as) me enviem sugestões para o e-mail da Praça da Poesia:

www.pracadapoesia@gmail.com


Então, vamos a isso antes que principiem todos a gritar que
...

NUNCA MAIS É SÁBADO!