sábado, 2 de janeiro de 2010

Poema destinado a haver domingo






In
www.stylehive.com











Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

Natália Correia

Reservo-me o domngo...







Robert Delauny,
Joie de vivre









Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.

António Rebordão Navarro, O Dia Dentro da Noite - Poemas (1952 - 1982)
Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda

Primeiro domingo

A tarde estava errada,
não era dali, era de outro Domingo,
quando ainda não tinhas acontecido,
e apenas eras uma memória parada
sonhando (no meu sonho) comigo.

E eu, como um estranho, passava
no jardim fora de mim
como alguém de quem alguém se lembrava
vagamente (talvez tu),
num tempo alheio e impresente.

Tudo estava no seu lugar
(o teu lugar), excepto a tua existência,
que te aguardava ainda, no limiar
de uma súbita ausência,
principalmente de sentido.


Manuel António Pina, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança,
Assírio & Alvim, Lisboa

O dia de descanso





Ana Luísa
Amaral








Levei minha filha ao parque
e era domingo.

Pelo domingo, o parque
fica como o jardim do paraíso,
abertos os portões e nenhum deus.
Tudo inocência
entre verdura e saibro e cavalinhos
cabalisticamente numerados
até sete.

Levei minha filha ao parque
e era domingo
e não havia o anjo com a espada de fogo.

Não que na minha filha
cuidasse o guardião:
rasteiros os arbustos sem sítio de maçã
e esta filha tinha só três anos.
o anjo era meu só,
velha dez vezes mais e proibida
por regras de baloiço.

Mesmo dez vezes mais, voei, e tudo ausente.
entre palmas e risos,
o anjo, o fogo, a espada, tudo ausente,
e o céu: só céu azul e limpo.

Levou-me a minha filha ao parque
e era domingo,
o dia de descanso do anjo distraído
de expulsar e distraídos
os portões abertos.


Ana Luísa Amaral, Imagias

O futuro






Foto A.M.








Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

Reinaldo Ferreira

Tempo livre


Parque Eduardo VII -
Lisboa
in
www.leme.pt








Numa tarde de domingo, em Central Park, ou
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo,
ou num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
¬napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer.
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio.
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.

Nuno Júdice, Poesia Reunida (1967 – 2000)

Domingo





...a minha mulher teve vergonha da sua beleza.

(Foto in
Au féminin.com)








Hoje, domingo, nasceu uma filha-magnólia.
Hoje, domingo, um cavaleiro atravessou a cidade,
sem que ninguém o visse.
Hoje, domingo, foram desenterrados os tesouros
submersos pelas tuas lágrimas.
Hoje, domingo, minha mãe não regressou
do cemitério.

Hoje, domingo, uma pradaria caiu do céu
antes de sobrevoar, durante uma hora, a nossa região.
Hoje, domingo, o geneticista olhou pela primeira vez
por uma janela cega.
Hoje, domingo, sábado fez amor com segunda-feira.
Hoje, domingo, o campo reverdecido ficou prisioneiro do trigo.
Hoje, domingo, sobre a casa Pogor, as nuvens imitaram
a cabeça do Melro.

Hoje, domingo, os avós releram
as suas certidões de nascimento originais.
Hoje, domingo, a minha mulher teve vergonha
da sua beleza.
Hoje, domingo, o tipógrafo adoptou
uma letra de ouro.
Hoje, domingo, a máquina de escrever
aprendeu uma língua morta, hindu.
Hoje, domingo, o muro em que escrevi
caiu em cinzas.

Lucian Vasiliu, O Melro da Casa Pogor, 1994
Tradução de Anthero Monteiro
__________

Lucien Vasiliu, poeta, romancista, bibliotecaário, conservador de museu literário, nasceu, filho de padre, na Moldávia, Roménia. É autor dos livros de poesia : O Filho do Homem (1986), O Melro da Casa Pogor (1994), Lucianogramas (1999).