sábado, 3 de abril de 2010

Eugénio e os pintores






Belas Artes,
no Porto,
perto de
S. Lázaro






sei de pintores que se inquietavam por
pressentirem uma relação entre a cor e a palavra.
era nos anos sessenta em s. lázaro, quando
a luz entardecia, muita gente se afadigava no
----
lento regresso a casa, as aves recolhiam e
eles sabiam que havia alguém para falar
das águas e das luas e da sombra
das cores, dos gestos entre as hastes e os farrapos
---
do silêncio. seria à mesa do café, numa
sala cheia de livros, num vão de escada a caminho
do atelier que lhe propunham essa
revisita das fontes, das perturbadas melancolias

que ele havia de dizer por palavras no papel.
mostravam-lhe os trabalhos, esperando as
justas perífrases, os ritmos em que haviam de rever
a sua fome do real nas artes da pintura.

era o cruzar das solidões comovidas: tudo
seria reescrito, portuense, partilhado
com uma densa, irisada exactidão, lá onde
umas pétalas da música começam

a partir de uma cor ou de um murmúrio,
de um rosto ou de uma nuvem,
de uma explosão do sol, de uma agonia.
era nos anos sessenta, era em s. lázaro.

Vasco Graça Moura, Poesia 1997/2000, Círculo de Leitores

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Rua de Camões





Inês Lourenço
que nasceu na
Rua de Camões






A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe

Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho

Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva

Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto

E havia a Dona Laura
senhora distinta
e sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça

O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia

Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão

A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes

Não olhes para os rapazes
que é feio.

Inês Lourenço, Um Quarto com Cidades ao Fundo,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2000, 1.ª d.

She lives by the castle





Grande Hotel
de Paris,
no Porto







Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.

Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte,

Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.

E assim, meu amor, acaba este poema.

Manuel de Freitas, Intermezzi, Op. 25

Rua de Miragaia






Foto A.M.













Se vieres dos lados da Ribeira,
depressa reparas como
os preços descem e a miséria
aumenta em esplanadas
de improviso, e ficam mais
tristes e humanas as janelas.

Chegaste a Miragaia
e quase não mentes
se lhe chamares destino.

Manuel de Freitas, Intermezzi Op. 25

Campanha "Poesia à Mesa" - Algumas fotos





























Ainda algumas fotos da semana de 13 a 20 de Março em S. João da Madeira, onde decorreu a campanha "Poesia à Mesa", um conjunto de já tradicionais eventos comemorativos do Dia Mundial da Poesia.
Foi uma honra e um enorme prazer ter lá estado como convidado e foi animador ver o destaque que foi dado à Poesia: os livros nos balcões dos restaurantes, cartazes alusivos aos poetas alvo de homenagem, escolas a receberem os poetas, plateias de jovens atentos às leituras e ao diálogo com eles, outros interessados em participar. Enfim, um ambiente acolhedor às palavras e aos que as sabem usar de forma diferente de todos os dias. Até as minha amigas magnólias souberam engalanar as ruas da cidade para os receber como merecem, pelo menos nestes dias, pois nos outros os poetas e os poemas são completamente esquecidos.

Anthero Monteiro

Ecos da Semana da "Poesia à Mesa" em S. João da Madeira

Recorte
do jornal
Labor, de
S. João da
Madeira
sobre a
presença
de Anthero
Monteiro
naquela
cidade
durante a
tradicional
semana
dedicada
à Poesia
em Março.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Poesia no Dó-Ré-Mi















Anthero Monteiro e Diana Devezas estiveram estes dias, em representação da Onda Poética de Espinho, na Associação Cultural e Recreativa de Música Dó-Ré-Mi, em Guetim- Espinho, numa sessão poético-musical comemorativa do Dia Mundial da Poesia.


Os textos poéticos lidos foram retirados dos livros de Anthero Monteiro, A Lia Que Lia Lia e A Sara Sardapintada, em atenção aos mais jovens presentes, acompanhados de familiares e amigos. Os interlúdios musicais estiveram a cargo da Associação, de seus alunos e professores.

Tudo decorreu num ambiente informal e de franca boa disposição, concluindo-se o convívio em volta dos livros que lhe serviram de base.

(Fotos in Espinho.TV)