domingo, 25 de outubro de 2009

Pastelaria



Afinal o que importa não é a literatura

nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante

- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola

antes de haver cinema madame blanche e parola


Que afinal o que importa não é haver gente com fome

porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo

de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo

à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta

ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny


Café com leite

Começou a mexer o café com leite com a colherzinha. O líquido quase transbordava da chávena empurrado pelo movimento do utensílio de alumínio (o recipiente era vulgar, o sítio era ordinário e a colher estava arredondada pelo uso). Ouvia-se o barulho do metal contra o vidro. Tim, tim, tim, tim. E o café com leite girava, girava com uma cova no meio. Um maelstrom. E eu encontrava-me sentado mesmo à frente. O café estava à pinha. O homem continuava a mexer, a mexer, imóvel, e sorria ao olhar-me. Senti uma coisa subir por mim acima. Fitei-o de tal maneira que se viu na obrigação de se explicar:
- O açúcar ainda não está derretido.
Para mo provar, bateu com a colher várias vezes no fundo do copo. Recomeçou a mexer metodicamente a beberagem, com uma energia redobrada. Voltas e mais voltas, sem parar, eternamente. Voltas e mais voltas e mais voltas. E continuava a olhar para mim, sorrindo.
Então puxei da pistola e disparei.

Max Aub, Crimes Exemplares
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N. Paris, 1903. F. Cidade do México, 1972. Escritor espanhol, nascido em Paris, filho de pai alemão e mãe francesa, ambos de origem judia, foi viver para Valencia aos 11 anos. Após a Guerra Civil Espanhola, refugiou-se em Paris e depois no México até à morte.

A uma lata velha









Paul Cézanne
,
La Femme à la Cafetière








Pego na velha cafeteira amolgada
que nesta cozinha de Cacela
conheceu as mãos laboriosas de minha Mãe.
Está reformada, abandonada, triste,
ninguém mais se serve dela.
Dou-lhe de vaia: anima-se, pergunta-me por ela,
chora como um velho ao recordar:

–Amolgou-me toda,
às vezes deixava-me cair no chão,
mas era tão minha amiga!

– Andava sempre à pressa! As suas mãos
sentiam-se responsáveis pela família toda!

– Lavavam-me com tanta força que me faziam doer!
Mas sempre com muito amor.

– Olha, eu agora vou fazer café só para mim.
Vês a diferença? Tempos modernos.
Cada um por si e Deus por todos (se é que Deus existe.)
Mas minha Mãe, essa, existiu, lembras-te?

– Se me lembro!

…e abandonada aos soluços da fervura
desata num choro convulso.
Acudo com uma colher acogulada de café moído:
rompe em tal espasmo ou pranto
que o café transborda e suja o fogão todo.
Comentam ironicamente ao meu lado:

– Com uma máquina eléctrica ao lado
e prefere fazer borras numa lata velha!

Deus queira que ela não tenha ouvido:
já está tão surda! Mas vou-lhe dizendo:

– Não ligues a esses parvos!
Para eles, café é só café!

Teresa Rita Lopes, Afectos

Vais perguntar...





Foto
A.M.







Vais perguntar outra vez porque existes?
Para quê? Para ficares com os olhos do tamanho de ilhas tristes?
Pois não sabes que já milhões como tu e como eu
pediram em vão às aves
que procurassem nas nuvens aquela Porta
de que nem a Morte tem as chaves?
E quem a abriu? Quem sabe que Porta é?

(Rapaz! Mais um café!)

José Gomes Ferreira, «Café» (1945 a 1948) in Poesia III

Na próxima quarta, 28/10, PELO SONHO É QUE VAMOS


























Aí está a nova temporada das QUARTAS MAL DITAS.

E regressamos a sonhar, convictos de que a Poesia nos ajudará a construir um mundo mais habitável, como o idealizou o professor e poeta Sebastião da Gama, autor de
PELO SONHO É QUE VAMOS, que nos serve de tema para esta sessão de Outubro.

Poemas, canções e conversas sobre eles...

E a presença de um dos maiores vultos da cultura, da arte e da ciência, a que alguns chamam o nosso Leonardo Da Vinci: Fernando Lanhas, arquitecto, pintor, escultor, poeta, inventor, investigador, biólogo, astrónomo, geólogo, museólogo, muito mais do que os sete rostos que o cinema lhe atribuiu.

Teremos assim todos os condimentos para uma sessão memorável, se o tempo ajudar e se tivermos o nosso habitual friso de público fiel e muito outro mais correspondente à importância de que se revestirá tal sessão.

Então, até Quarta, 28, no piano-bar do Clube Literário do Porto, Rua Nova da Alfândega, n.º 22.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

De tarde




Naquele "pic-nic" de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima de uns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda,
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde

Dióspiro






Foto
Anthero
Monteiro






Depois do almoço
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna
entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho.

É nessa altura que dizemos:
vou comer este dióspiro
antes que apodreça.

Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
Dióspiro - Poesia Reunida 1977-2007,
V. N. Famalicão, quasi edições, 2007
_______

"Dióspiro" ou "diospiro"?
Os dicionários registam as duas formas.
Na minha zona prefere-se a segunda.
A palavra provém do grego e significa "fogo de deus".

(Ver, neste blogue, o meu poema "Tentação").