domingo, 30 de setembro de 2012
quedas
Anthero Monteiro
(foto de Anaas)
de repente um estrondo
algures na casa
rouba-me de um voo alucinante
sobre campos e bosques e aldeias
acendo as luzes
percorro toda a casa
entro na biblioteca
herberto helder
está prostrado por terra
voluminoso asas abertas
uma quebrada
alguém o empurrara ou então
ele se lançara do oitavo
andar das estantes onde
pus a morar os grandes paquidermes
o dante alighieri o ariosto
pejado das fúrias de orlando
o rui belo inteiro o al berto
sobraçando a bíblia negra
intumescida de medo
este aliás fora de lá preci
pitado na véspera
pela mesma estranha força
um ente qualquer poeticida
habitante de uma página assombrada
ergo herberto da alcatifa acarinho-o
componho-lhe as asas subo
a uma cadeira dependuro-me
com risco de cair
recoloco-o no seu lugar
mais acordado mostro-me na varanda
às minhas estrelas e a todos
os figurantes do cortejo celeste
um deles talvez um cuspidor de fogo
saúda-me num rasto repentino
desprende-se acima de perseu
sobressalta a cassiopeia
despenha-se nas pinças de andrómeda
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Sortilégios da noite
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Pouco mar
Foto
A.M.
perante a maré
cheia dos teus olhos
envergonha-se o
mar de ser tão pouco
e é só
acidental o infinito
ao ver como são
sôfregos teus lábios
já recolhem os
polvos as ventosas
e as lapas nada
mostram aos rochedos
de quanta
obstinação eram capazes
andam as ondas
a aprender requebros
ao ritmo dessas
ancas tão volúveis
e ao ver quanto
um do outro teus joelhos
fugiram a
fingir que se não querem
desabotoam
risos flores profundas
e libertam seus
raios as actínias
como os dedos
das águas imiscuindo-se
rebuscando
segredos pelos seixos
essas mãos agem
ágeis com denodo
e encontraram
num ápice o tesouro
que escondi na
avidez de o ver roubado
este mar nada
sabe nem suspeita
da volúpia do
sal dos teus eflúvios
da tontura
abissal do teu pescoço
do pântano dos
olhos que me perdem
do marulhar da
voz que me afogou
foi quando nós
nos fomos abraçados
que o aturdido
oceano onda após onda
veio estudar na
areia que foi nossa
os signos que
escreveu tanto desejo
- mil carateres
gravados numa folha
vinte
metros quadrados de paixão
Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens, Porto,
Egoiste, 2010
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Poemas de Anthero Monteiro
Visitação
Quando a porta se abriu,
perguntaste
quem era.
Não
se pergunta ao amor
que
nome tem.
Albano Martins,
Escrito a Vermelho, 1999
Teoria do caos
de repente
bateram
a porta
rompeu-se e o telhado saltou
de repente
esvoaças
e tens muitos
pés enrolados nas nuvens
de repente
ardem-te na fronte
constelações de
olhos em fogo
de repente nem
sabes
porque é a arca
do peito um palco de concerto
de repente o
planeta
descarrila e
ganha sucessivas órbitas
de repente és
irmão
não apenas dos
homens mas das pedras também
e dos vermes e
dos mastodontes
de repente és
ventríloquo
e louco e
funâmbulo
de repente
fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o
corpo aos tigres e aos pumas
de repente és
capaz de engolir facas
e espadas e
raios e abismos
muitas vezes
ouviste falar das borboletas
que batem as
asas na china
e provocam
ciclones nos antípodas
não deve
espantar-te por isso que um simples sorriso
do outro lado
da mesa
possa causar
deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero
Monteiro, Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste, 2010constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
constelações de olhos em fogo
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
de repente nem sabes
porque é a arca do peito um palco de concerto
de repente o planeta
descarrila e ganha sucessivas órbitas
de repente és irmão
não apenas dos homens mas das pedras também
e dos vermes e dos mastodontes
de repente és ventríloquo
e louco e funâmbulo
de repente fazes estranhas prestidigitações
e ofereces o corpo aos tigres e aos pumas
de repente és capaz de engolir facas
e espadas e raios e abismos
muitas vezes ouviste falar das borboletas
que batem as asas na china
e provocam ciclones nos antípodas
não deve espantar-te por isso
que um simples sorriso do outro lado da mesa
possa causar deste lado
o mais terrível dos cataclismos
Anthero Monteiro
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Torre dos Clérigos
Torre dos Clérigos
vista do poente
(Foto de
Carolina Dias de Marques)
quando uma torre se levanta é para usar da palavra
traz algo
nos lábios para dizer histórias
lembranças saudações
augúrios
quando
esta porém se erige acima de todos os coruchéus
acima dos
outros campanários acima do nevoeiro
não estira
apenas o pescoço da curiosidade
para saber
se o rio que desliza no sonho dos séculos
vai
vestido de azul ou de ouro
ou
para espreitar os acenos brancos das velas dos rabelos
ou
o sulco das outras embarcações
orador
sagrado num púlpito excelso
ébrio da
eloquência de um infinito azul
aponta o
incomensurável como rumo
faz o
panegírico da verticalidade
promete a
bem-aventurança que mora no alto
sineira e
crucífera deveria talvez
apetecer-lhe
apenas a salvação das almas
mas esta
torre granítica ereta acima das demais
já ali
estava há muito de olhos postos no poente
vaticinando
que seria do mar que chegaria
a
auspiciosa palavra liberdade
semente
sonhada de um paraíso terreno
chegou e
logo chamaram invicta à cidade
a torre
achando merecer também o epíteto
põe-se nos
bicos dos pés de justificado orgulho
e cresce
ainda um pouco mais
Anthero Monteiro
publicado no livro de Helder Pacheco,
Porto A Torre da Cidade nos 250 anos da Torre dos Clérigos,
Porto, Edições Afrontamento, 2013, pp. 290/291
publicado no livro de Helder Pacheco,
Porto A Torre da Cidade nos 250 anos da Torre dos Clérigos,
Porto, Edições Afrontamento, 2013, pp. 290/291
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Poemas de Anthero Monteiro,
PORTO POESIA
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
En tu aniversario
Alejandra Pizarnik,
poeta argentina,
1936 - 1972
Recibe este
rostro mío, mudo, mendigo.
Recibe este amor que te pido.
Recibe lo que hay en mí que eres tú.
Recibe este amor que te pido.
Recibe lo que hay en mí que eres tú.
Alejandra
Pizarnik, Los Trabajos y las
Noches, 1965
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Prenda
Rabindranath Tagore,
Calcutá (1861-1941)
Prémio Nobel 1913
Ó meu
amor, que prenda
Devo
dar-te quando amanhecer?
Uma canção
da manhã?
Mas a
manhã não dura sempre –
O calor do
sol
Murcha
como uma flor
E as
canções que cansam
Estão
feitas.
Ó amigo,
quando chegaste ao meu portão
Ao
crepúsculo
Que
perguntaste?
Que hei-de
trazer-te?
Uma luz?
Um
candedeeiro de um canto secreto da minha casa silenciosa?
Mas
quererás levá-lo contigo
Pela
estrada povoada?
Ah,
O vento
há-de apagá-lo.
Sejam
quais forem as prendas que te possa dar,
Que sejam
flores,
Que sejam
pérolas para o teu pescoço,
E como te
podem agradar
Se com o
tempo hão-de murchar,
Desfazer-se,
perder o brilho?
Tudo o que
as minhas mãos pudessem colocar nas tuas
Deslizará
entre os dedos
E cairá
esquecido no pó
Para em pó
se tornar.
É melhor,
Quando
estiveres ociosa,
Que
deambules pelo meu jardim na primavera
E deixes
um aroma de flor desconhecido e oculto sobressaltar-te com súbito encanto –
Deixar
esse momento deslocado
Ser a
minha prenda.
Ou se,
quando perscrutares a sombria avenida por onde caminhas,
De repente,
enfeitiçada
Pelas
espessas tranças do anoitecer
Um simples
e trémulo reflexo da luz do poente te detiver,
Transforma
os teus sonhos em ouro,
E deixa
que a luz seja uma inocente
Prenda.
O mais
autêntico tesouro desaparece;
Brilha um
instante, e depois vai-se.
Não diz o
seu nome; a sua melodia
Barra-nos
o caminho, a sua dança desaparece
Com o
estremecimneto de um tornozelo.
Não
conheço outra maneira –
Nenhuma
mão, nenhuma palavra o pode alcançar.
Amiga,
leves o que levares,
Sozinha,
Sem
perguntar, sem saber, deixa que
Seja tua.
Qualquer
coisa que eu te possa dar é insignificante –
Seja uma
flor, seja uma canção.
Rabindranath Tagore, Poesia,
Lisboa,
Assírio & Alvim, 2004,
seleção e
tradução de José Agostinho Baptista
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