segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A uma cerejeira em flor















Foto in
www.baixaki.com.br



Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos (1948)

As Árvores da Fonte do Sol



















O David decide recuperar todas as árvores
que vegetam entre silvas na Fonte do Sol.
Depois de as ter plantado e acarinhado
durante anos ---- confesso que desisti: a terra
é dura e seca e o mato tem mais força do que eu..
Mas o intrépido David mobiliza as primas que,
devidamente apetrechadas, de alfaias ao ombro,
caminham para o matagal e deitam mãos à obra.
De repente descobrem:
- Olha a Pereira em flor! ---- Deleito-me: é verdade!
Como as ervas são muitas eles começam por abrir
um espaço de respiração em torno de cada árvore.
- Olha esta aqui! ---- diz a Sofia, ou talvez a Inês,
quem sabe se a Patrícia.
- É uma Oliveira, não é? ---- Digo que sim
mas eles querem saber se é mansa ou brava,
se lhes arrancam o mato ou a deixam assim.
Hesito. E respondo-lhes:
- Se fosse um bicho percebia-se logo! Então
se fosse um toiro... largávamos todos a orrer!
Mas uma árvore não tuge nem muge! ---- Decidimos
finalmente, que, mansa ou brava, seria tratada
com o mesmo ardor ---- e o mesmo amor.

Teresa Rita Lopes, Jogos, Versos e Redacções,
Lisboa, Editorial Presença, 2001

Ao rubro ímpeto da romãzeira




















Dia dos meus anos hoje. Parabéns sabem-me
a condolências. Setembro é um mês de vogais
melancólicas. Tenho passado quase todos os dias
com um sabor a milagre na boca. Lá está
a mesma romãzeira oferecendo suas romãs
abertas suas fêmeas feridas escarlates.
É já velha tem troncos secos e ossudos
mas é jovem o interior de seus frutos
e de seus sumos. Saúdo-a e digo-lhe:
- À tarde vou ver-te. Não quero festa
de anos nem bolo de velas nem a imbecil
cantilena de parabéns mas havemos de brindar
em silêncio só as duas a esse antigo tempo
que ainda nos habita e à felicidade
que nunca aconteceu. Talvez o rubro ímpeto
que te faz continuar a dar romãs me dê a mim
recados desse país natal de que sou órfã desde
sempre antes mesmo de nascer.

Teresa Rita Lopes, Afectos,
Lisboa, Editorial Presença, 2000, 1.ª ed.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Gingo biloba












Folhas de
gingo biloba ou
ginkgo biloba


A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

Pra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?

J. H. Goethe (1749 - 1832), Poemas,
Coimbra, Centelha, 1986, Versão de Paulo Quintela

A ginkgo biloba ou nogueira-do-Japão é, afinal, uma árvore de origem chinesa, um verdadeiro fóssil vivo, considerada símbolo da paz, por se ter verificado que resistiu à explosão da bomba de Hiroshima. É porventura a planta mais estudada e é muito usada em farmacologia. A designação "biloba" provém do facto de a sua folha ser bilobada, característica aproveitada pelo poeta alemão Goethe para, em 1815, escrever este poema sobre a unidade e a dualidade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A alma do Rossio


Lá do alto os quatro torreões testemunharam
o desfile patético da história.
Viram passar os reis e as rainhas
os condes e os lóios, amigos e inimigos.
Viram justas, torneios e batalhas,
incursões de Almansor e Bonaparte.
E viram multidões a sucumbir à peste
ou a tentar fugir-lhe com votos e ex-votos.
Todos passaram como passam as torrentes do Cáster.
Jazem estrato após estrato neste chão
de que se nutrem os plátanos da praça.
Entre ramos e folhas que se agitam
vagueiam essas sombras do passado.
É aí que rumoreja a alma do Rossio.

Come e bebe e ri e saboreia o instante,
olhando para onde aponta a ramaria.
Esquecerás assim que também tu
serás passado e chão e serás alvo
do riso milenar dos torreões impávidos.

Anthero Monteiro

Poema inscrito na parede do Restaurante Bar Rossio com Alma,
no centro de Santa Maria da Feira,
e expressamente redigido pelo autor para o efeito.
(Publicado na Revista VILLA DA FEIRA n.º 20,
Santa Maria da Feira, LAF - LIga dos Amigosda Feira)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Cortaram uma árvore










Foto A.M.




Cortaram uma árvore
E a terra chorou

Cortaram outra árvore
E a terra chorou

E tantas árvores mais...

E a terra chorou
Chorar tanto também cansa
Quem pode enxugar as lágrimas
Da terra cansada?

Nem as mãos de uma criança...

Matilde Rosa Araújo, Fadas Verdes,
Porto, Liv. Civilização, 1994

Árvore

















Foto A.M.





Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.

António Ramos Rosa, Ocupação do Espaço,
Lisboa, Portugália, 1963