sábado, 11 de abril de 2009

Quando eu morrer...













Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudade de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira, O Canto do Vento nos Ciprestes,
Lisboa, Gótica, 2001

Campo de flores









Foto A.M.




Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001

Cantiga






Foto in
carolinaemauriliodaniel.blogspot.com


Flor verde, na botoeira,
Rosa verde - que magia!
A luz desmaia no verde
Da rosa da botoeira...
Rosa verde, poesia!

E o poeta traz a alma
Toda à mostra, pela rua,
Não sei o quê em o dia...
Anda na brisa um desmaio...
Um vago e fresco desmaio...
E a luz desmaia no verde
Da rosa da poesia.

Cristovam Pavia, Poesia,
Lisboa, Moraes Editores, 1982


Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho,nasceu em 1933 em Alcântara, Lisboa, filho do poeta Francisco Bugalho. Viveu a infância em Castelo de Vide, onde também passava as férias escolares. Frequentou Direito em Lisboa,desistindo a favor de Letras (Filologia Germânica), que conclui aindaq que sem ter feito a tese exigida. Fez várias vezes psicoterapia em Heidelberg, onde trabalha na construção civil. A 13 de Outubro de 1968, morre debaixo de um comboio, em Belém, no mesmo dia em que desaparece Manuel Bandeira no Brasil.
Os organizadores do volume Poesia, editado postumamente em 1982, consideram que o seu único livro publicado em vida, em 1959, - 35 Poemas - tem «uma ressonância cabalística de aviso», pois a morte de Cristovam Pavia ocorre pouco depois de ter completado 35 anos.
Esse volume Poesia contém os 35 poemas e muios esparsos e inéditos.

La rosa de las noches




Foto in

cool.altervista.org



Todas las noches de mi vida, hasta el alba,
sin llegar nunca a nadie,
en ciudades distintas, los ojos en acecho,
son una turbia rosa negra.
Se cumple así la sed que concedo a mi carne,
esta difusa espera, que es la fidelidad de mis cansancios,
o el encuentro de alguna luz pequeña que se abate,
tras el furor, en las cansadas sábanas.
Allí donde los cuerpos se nutren de reposo
que no es mortal aún,
en esta hora tan dura
en que la luz es agria, es una ciega rosa blanca.

Todas las noches de mi vida, envejeciendo,
son una infame rosa negra,
son una rosa negra y solitaria,
una encantada y desvalida rosa.
Si volviera a vivir, yo quisiera aspirarla
de nuevo sin piedad,
pues por ella existí, aunque me devorase.

Yo miraba los astros, su hermosura,
y nada aquel espejo reflejó
que a él se asemejase:
sólo la quemadura del vivir,
que aún sin fulgor, yo sé que existe.

Todas las noches de mi vida,
también las que vendrán,
son una iluminada rosa negra,
un secreto esplendor que aún no es ceniza
y nadie puede ver,
y que este ciego roza
lleno de ardor, com las manos tendidas.

Francisco Brines, El Otoño de las Rosas (1986)

Nasceu em Oliva (Valência, Espanha, em 1932. Licenciado em Direito pela Universidade de Salamanca e em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid. Foi leitor de Espanhol na Univ. de Oxford, de 63 a 65. Reside em Madrid e em Valência, com prolongadas estadas no campo, em Elca (Oliva).

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Floriram por engano as rosas bravas






Foto in
cvc.instituto-camoes.pt




Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor –, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha, Clépsidra e Outros Poemas,
Porto, Anagrama, 1980

Excerto de um poema de "Rose Publique"





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www.guardian.co.uk



(...)
J'ai vu mon meilleur ami
Creuser dans les rues de la ville
Dans toutes les rues de la ville un soir
Le long tunnel de son chagrin
Il offrait à
Toutes les femmes
Une rose privilégiée
Une rose de rosée
Pareille à l'ivresse d'avoir soif
Il les priait humblement
D'accepter
Ce petit myosotis
Une rose étincelante et ridicule
Dans une main pensante
Dans une main en fleur (...)

Paul Eluard, «La Rose Publique» (1934) in Choix de Poèmes,
Paris, Gallimard, 1941

A rosa





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moodle.apvm.net




Estou aqui! Estou aqui, não pretendi fugir, nunca!
o meu peito é sólido
o meu nome é sólido
o meu céu é sólido
o meu ar é sólido
as minhas dúvidas são sólidas.

Acabei de jantar no Restaurante Chinês e olhei para as minhas mãos
estão inquietas como ontem
tremem como ontem
e ontem tudo foi
inquieto e trémulo como as minhas mãos.

Não há nenhuma flor que resista à beleza da poesia de Paul Éluard
não é meu filho? repetia aquela mãe que eu nunca tive
E eu afirmava afirmava sempre
que nada neste mundo tem a força de uma rosa

oh a minha mãe era bela
todas as mães são belas
e eu só posso chamar-lhes meu amor!

Quando a minha mãe morreu a cidade não tinha sombras
em Abril tinha recomeçado tudo
até as próprias sombras
e eu vesti-me de branco para dar o último beijo a minha mãe

no dia em que me senti pela primeira vez um homem
porque, ao ficar de novo órfão
disse: É preciso ler Paul Éluard! e não
lhe dei simplesmente a minha rosa

Joaquim Pessoa, 125 Poemas – Antologia Poética,
Lisboa, Litexa-Portugal, 1983