segunda-feira, 27 de julho de 2009

A "minha" Biblioteca















Não, não é minha. Minha é esta teimosia, que tem cerca de trinta anos, de assegurar na minha terra natal um serviço de leitura domiciliária e local, aberto diariamente ao público: é a Biblioteca Pública de S. Paio de Oleiros, onde três vezes por ano se têm realizado também as sessões poético-gastronómicas do Quarto Crescente, seguramente das mais participadas do país.

De nada me valeria essa teimosia, se não fora o apoio das consecutivas direcções a que tenho pertencido, da autarquia, da Biblioteca Municipal, do povo oleirense, das nossas colaboradoras.

Mas é essa a principal tarefa a que me tenho dedicado - garantir esse apoio, que chegou recentemente a um ponto decisivo: a Associação que deu origem à Biblioteca em 1975 transformou-se (ou é também) mais um dos pólos da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.


Muito há ainda a fazer. E o ano de 2009 não começou bem: a intempérie de Janeiro causou sérios prejuízos na sede e fomos obrigados a proceder à sua mudança para instalações provisórias, o que não tem sido nada fácil.

É por isso que não me é possível estar aqui sempre de plantão na Praça da Poesia. Há meses que reservo a maior parte das minhas horas à recuperação da "nossa" Biblioteca.
Hoje, por exemplo, dediquei-lhe cerca de 8 horas de trabalho (voluntário e gratuito - é preciso lembrar...): li poemas e histórias para um grupo de crianças de uma escolinha local, transportei muitos quilos de livros da sede para as novas instalações e estive horas a colocá-los nos seus lugares nas estantes. Passaram hoje pelas minhas mãos, um a um, mais de oitocentos livros...

Tudo isto faz parte da missão que me foi atribuída, não por nenhum deus, mas pela minha própria vontade. Não sei como dizê-lo sem corar de vergonha por tanta imodéstia. Mas é verdade que me orgulho de sentir-me interveniente e supostamente útil à terra que me serviu de berço.

Mesmo que me provocasse mais prazer (e menos queixas físicas) ocupar todo esse tempo da minha aposentação a escrever e a produzir os meus próprios livros...

Onda Poética em convívio

























Foi no sábado passado, dia 25/7, o convívio anual da Onda Poética, que se mantém viva na cidade de Espinho, há cerca de 12 anos. Nasceu na extinta Livramar, rua 62, andou pela Biblioteca da Calouste Gulbenkian, a maior parte do tempo pelo Bar Dominó do Casino de Espinho, prosseguindo agora as suas sessões mensais na 2.ª quinta-feira do mês, na Junta de Freguesia de Espinho.

O convívio decorreu em casa de uma das suas maiores entusiastas, a poeta Manuela Correia, em Santa Maria da Feira, e envolveu pouco mais do que exercícios com os maxilares: comer, ler poesia, dialogar... Versaram as conversas os mais variados temas, mas não deixaram de abordar também questões relacionadas com o futuro da tertúlia e com a próxima sessão, que se realizará só no mês de Outubro.

A finalizar e, como já começa a ser habitual, bebeu-se a queimada de aguardente, cuja confecção esteve a cargo do Coordenador, Anthero Monteiro, e que proporcionou momentos de grande fruição, como se pode ver nas fotos.

Recitou-se também o tradicional esconjuro um pouco à maneira de Montalegre, mas com adaptações textuais com referências ao Castelo da Feira, às Guimbras envolventes e ao rio Cáster.

Certamente ficaram esconjuradas também as ameaças que têm pairado sobre a continuidade da tertúlia, já que a amizade que a todos une impedirá certamente o desmembramento do grupo, ciente de que prescindir da Poesia é o primeiro passo para o aniquilamento total.

domingo, 26 de julho de 2009

Quarta Mal Dita de 22 de Julho (algumas fotos)

Apesar do Verão, a noite no Porto foi de borrasca, afectando um pouco o número dos elementos da tertúlia e do público assistente. Mesmo assim, tratou-se de uma sessão bem participada, que acolheu com curiosidade o tema do POETRIX e do respectivo Movimento Internacional, nascido no Brasil há dez anos e espalhando-se cada vez mais pelo Mundo, como uma verdadeira pandemia, como ali foi referido.

Na impossibilidade de trazer o Coordenador Internacional do mesmo Movimento, o poeta bahiano Goulart Gomes, criador do Poetrix, Anthero Monteiro, animador da tertúlia, trouxe do Entroncamento o Coordenador Nacional, o professor e também poeta Martinho Branco, com quem se estabeleceu um interessante diálogo sobre a história daquela modalidade poética, sobre as suas regras, características e virtualidades e sobre as múltiplas formas que se têm praticado.

Foram lidas algumas dezenas daqueles "poemínimos" pelos elementos da tertúlia, por Martinho Branco e por Anthero Monteiro, também ele praticante da modalidade e autor do primeiro livro do género publicado em Portugal e na Europa.

Os interlúdios musicais estiveram ao cuidado do Gabriel, ao piano. Martinho Branco, também jornalista e radialista, gravou imagens de todos os pormenores da sessão, incluindo o momento que considerou "histórico" para o Movimento Poetrix em que Anthero Monteiro introduziu pequenos separadores musicais, com um gongo e com uma "rela", entre os poetrix que se estavam a ler.

A sessão concluiu com a participação de todo o público presente a ler também, cada um, o seu poetrix.

As Quartas Mal Ditas regressarão ao Clube Literário do Porto, na Rua Nova da Alfândega, no dia 28 de Outubro próximo.






quarta-feira, 22 de julho de 2009

Ode para o Futuro












Matisse,
The Dream, 1940






Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.


7/10/49

Jorge de Sena, Pedra Filosofal

Homem comum














Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
---Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
------------ cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
----------------------------------- tudo
misturado
essa lenha perfumada
- que se acende
- e me faz caminhar

Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.

Ferreira Gullar, Os Melhores Poemas de Ferreira Gullar,
São Paulo, Global Editora, 1983, 1.ª ed.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Poetrix nas Quartas Malditas

























POETRIX... - uma nova linguagem poética
(nova... mas já com dez anos de vida, sempre a galgar continentes, como uma pandemia).

Nas Quartas Mal Ditas vamos saber o que é exactamente,
quais as suas características,
quais os seus recursos e segredos,
quais os seus principais cultores - os poetrixtas.

Vamos contar com a presença do poeta
MARTINHO BRANCO,
coordenador nacional do
M.I.P. - Movimento Internacional Poetrix.

E vamos ler esses micro-poemas que são, no mundo...
...o mal menor.

QUARTAS MAL DITAS
Poesia
Música
Conversas

Comparece. Divulga. Participa
.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O lugar da alegria





Robert Delauny,
Rhythm, Joie de Vivre






A alegria é a última das ilhas
onde chegamos sempre de manhã

cobertos de mistério e de viagens
experientes despertos e seguros
sem saudade sem remorsos sem pudor

Mágico limiar dos mares do Sul
onde acabam todos os caminhos

não como abismo onde se perde o sonho
mas como porta que se abre e tudo é diferente

Rui Namorado, Sete Caminhos,
Coimbra, Fora do Texto, 1996