segunda-feira, 14 de março de 2011

A meu favor














Foto A.M.




Os meses
menos quentes do ano
são aqueles
em que tenho o vento a meu favor.
Há um comboio
que desliza nos trilhos
pela paisagem plana da linha do sul
e eu exclamo: lá vai ele a meu favor.
Vão a meu favor também todas as aves
mesmo as mais novas já têm instruções
dos pais
ou das dominantes dos bandos
para seguir sempre a meu favor

Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
Dióspiro, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2007

Pausa




















Estou aqui e triste
com um livro nas mãos
vazio e ausente
como num enterro.
-
Gostaria de entrar
pela História dentro
pisar o passado
comprar o futuro.
-
Gostaria de ter
tuas pernas comigo
dois olhos tranquilos
ao acordar tarde.
-
Ajudar a ceifar
o desespero frio
acreditar na fogueira
de todas as forcas.
-
Ouvir o comboio
chegar com a paz
morrer enrolado
num suspiro de alívio.
-
Egito Gonçalves, in
valter hugo mãe (sel. e org.), O Futuro em Anos-Luz, V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2001

Como um grande borrão...











Foto A.M.



Como um grande borrão de fogo sujo
O sol posto demora-se nas nuvens que ficam.
Vem um silvo vago de longe na tarde muito calma.
Deve ser dum comboio longínquo.
-
Neste momento vem-me uma vaga saudade
E um vago desejo plácido
Que aparece e desaparece.

Também às vezes, à flor dos ribeiros,
Formam-se bolhas na água
Que nascem e se desmancham
E não têm sentido nenhum
Salvo serem bolhas de água
Que nascem e se desmancham.

Alberto Caeiro

Esta é a terra do Texas Jack






in
marvel.wikia.com




Esta é a terra do Texas Jack.
Terra amarela, terra feia, terra dura,
A terra do Texas Jack....
Onde estão as Aventuras
do Grande Matador de Índios?
Já as rasguei, já as destruí.
Palmilhei mundos, voguei nos mares, cruzei os céus,
Até este deserto de erva ruim,
Termo da longa caminhada.

A amedrontar os Índios,
Brilha,
Na sombra,
A carabina do Texas Jack.
E a sua voz heróica é a única voz heróica,
E o seu vulto de legenda é o único vulto de legenda
Na vida sem legenda.

O comboio rasga o deserto de erva ruim,
Mas a lembrança queda naquele momento último
Em que, pela vez derradeira,
Ergui, num simulacro de heroísmo,
A carabina do Texas Jack.

Depois, na vida prática, não houve mais lugar para o heroísmo,
Nem para as leituras do Texas Jack.
E hoje que o busco neste deserto que o seu vulto habita,
Já não o encontro,
Porque ele já não está dentro de mim.

Joaquim Paço d'Arcos,
Poemas Imperfeitos, Edições SIT, 1952

(Texas, caminho do Novo México, Maio 52)

Ao passar por Espinho









-
-
Foto A.M.
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As ruas nasciam
de dentro dos comboios
e seguiam
direitas ao mar.

Os olhos dos meninos
tornavam-se navios
e alongavam
todo o novelo do peito
até ao fim da linha azul
do longe.

As casas abriam as janelas
e sorriam
à limpeza do ar.

Mas isso era no tempo
em que os comboios cantavam
com sotaque lento
e pousavam
por vezes
nalgum ramo de pinheiro
enquanto o mundo descansava
de tão longa caminhada.

José Fanha

domingo, 13 de março de 2011

O comboio de serviço











1

Por ordem expressa do Führer,
o comboio de luxo expressamente feito para o congresso
do Partido em Nuremberg
recebeu o nome simples de COMBOIO DE SERVIÇO.
Os que o tomam prestam com isso um serviço
ao povo alemão.


2

O comboio de serviço
é uma obra-prima da técnica ferroviária. Os passageiros
têm apartamentos privativos. Pelas largas janelas
vêem os camponeses alemães mourejar pelos campos.
Se por acaso transpirassem nesse momento
poderiam tomar banho
em cabines cobertas de ladrilhos.
Um subtil sistema de luzes permite-lhes
ler à noite, de pé, sentados ou deitados, os jornais
com as grandes reportagens sobre os benefícios do regime.
Os vários apartamentos
comunicam entre si por linhas telefónicas
tal como as mesas dos grandes dancings cujos clientes
podem pedir às mulheres das mesas vizinhas
o preço que cobram.
Sem sair da cama os passageiros também podem
ligar o rádio, que transmite as grandes reportagens
sobre os erros dos outros regimes. Jantam,
se assim o desejarem, no respectivo apartamento, e fazem as
respectivas necessidades
em privadas privativas revestidas de mármore.
Cagam
na Alemanha.

Bertolt Brecht,
Poemas, Lisboa, Editorial Presença, s/d

Là-bas, je ne sais où...

Véspera de viagem, campainha...
Não me sobreavisem estridentemente!

Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago,
Antes de pôr no estribo um pé
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.

Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela?
Que importa? Todo o universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.
Sabe-me a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação...
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio despedir-se de mim,
Minha família abstracta e impossível...
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida –
“E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui?” –

Ficar só a pensar em partir,
Ficar e ter razão,
Ficar e morrer menos...

Vou para o futuro como para um exame difícil.
Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?

Já me vejo na estação até aqui simples metáfora.
Sou uma pessoa perfeitamente apresentável.
Vê-se – dizem – que tenho vivido no estrangeiro.
Os meus modos são de homem educado, evidentemente.
Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vício vil.
E a mão com que pego na mala treme-me e a ela.

Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.

Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!...

Álvaro de Campos, in
Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007