sábado, 11 de maio de 2019

O botão













Eu sou rico, tenho tudo,
dizia o senhor Pimpão.
Olhe que não, olhe que não,
responde assim um miúdo,
falta-lhe um botão
no sobretudo
e com esta chuva tamanha
e esta manhã tão fria,
ainda apanha
uma pneumonia.

14/05/2019

Anthero Monteiro

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Poesia ao natural




















escoou-se a manhã

do alto da eternidade
o sol riu-se de mim que meço o tempo
fez murchar as horas
e não floriu em mim um só poema

entretanto
mal o sol rompera
desabrolhou uma corola
no vaso da varanda
sub-reptícias mais outra
e outra
e outra

e muito antes da primeira meia-hora
já a flor tinha escrito um poema
inimitável

Anthero Monteiro
(inédito)

De mãos atadas















De mãos atadas             a liberdade
De mãos atadas             meu riso aberto
De mãos atadas             é que se evade
De mãos atadas             meu voo certo

De mãos atadas             rebento a grade
De mãos atadas             encho o deserto
De mãos atadas             não tenho idade
De mãos atadas             tenho o céu perto

De mãos atadas             mas que ironia
De mãos atadas             temores são vãos
De mãos atadas             é a harmonia

De mãos atadas             somos irmãos
De mãos atadas             aleluia

De mãos atadas             nas tuas mãos

Anthero Monteiro,
Canto de Encantos e Desencantos
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição










À espera







Foto 
A.M.




Por mais que aguarde
vejo somente
pelo poente
as nuvens a perseguir a tarde
sem que te afoites
a vir com elas
para me dar as boas noites
como me fazem as estrelas

Anthero Monteiro,
Canto de Encantos e Desencantos,
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição

Cilada















Anthero Monteiro
(foto Prof. Paulo Pedro)



Andava na vida
coa alma assustada
temendo a investida
dos ladrões da estrada
sempre de fugida
da gente malvada

Andava em segredo
e pela calada
tolhido do medo
de tudo e de nada
de bruxa bruxedo
de gnomo ou de fada

Andava e tremia
a cada passada
esperava de um espia
alguma laçada
e mal me escondia
fechava a portada

Até que uma tarde
sem hora marcada
sem fazeres alarde
e sem seres chamada
num ato covarde
de feia golpada

chegaste e me viste
e eu tirei a espada
coloquei-a em riste
à porta da entrada
mas mal me sorriste
caí na cilada

E assim sem o aviso
de uma tal cartada
fiquei sem juízo
e de alma roubada
a olhar-te o sorriso
que alegra a alvorada

O pavor extinto
a espada quebrada
só sei que não sinto
nem medo nem nada
e diz-me o instinto
que és a minha amada

Anthero Monteiro
Canto de Encantos e Desencantos, Porto, Corpos Editora,  2.ª edição

quarta-feira, 25 de abril de 2018

A minha liberdade















Anthero Monteiro
por Filipe Ferreira




vós os que procurais em vão a justiça
vós os que interrogais os céus inutilmente
vós olhos doridos de desilusão
tomai a minha liberdade


vós que ainda não tivestes a vossa hora
vós que ainda não divisastes a terra prometida
vós que sois espoliados até da vossa esperança
tomai a minha liberdade


tomai-a nas mãos com amor religioso
é tudo o que possuo - e é tão pouca
é diminuta como uma semente
mas é como semente que eu a quero
é pela semente que aquele campo é uma seara
é pela semente que a foice desce ao trabalho
é pela semente que nesta mesa há pão


abdico desta semente
e na hora em que poderia usá-la
podeis lançá-la ao campo de batalha
para que dê fruto e vos sacie


bom é que morra no aceso do combate
como morrem todas as sementes
para ressurgir em libertação

Anthero Monteiro

(escrito em 1974)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O BICHO-PAPÂO


















Dizem que é um animal gigante
maior que um elefante
o bicho-papão.
Nunca o vi nunca o senti por perto
mora talvez nalgum deserto
muito distante desta habitação.
Acham outros que é mais corpulento
do que os Apeninos ou os Andes
mas cá em casa não há ninguém que o tema.
Se existisse deixava-o ao relento
que bichos assim tão grandes
não cabem no meu poema.
Anthero Monteiro
14.04.2018