segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Carpe diem

Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio — nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice

Eu, Rosie, se eu falasse...







Renoir,
Dance at Bougival,
oil on canvas,
1882-1883











Eu, Rosie, se eu falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso
e o que tu sentes
A ponte que nos une — é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira
__________

Nascido em Barcelona, a 20 de Março de 1922, , era filho do jornalista Reinaldo Ferreira, o famoso Repórter X.
Tendo vindo para Moçambique (Lourenço Marques) em fins do ano de 1941 e aqui feito o sétimo ano dos liceus, por lá se conservou, com raras e breves escapadas à Metrópole, até Junho de 1959, data do seu falecimento com um cancro no pulmão.
É autor da letra da célebre canção "Menina dos olhos tristes", cantada por José Afonso.

Com a essência das flores





Ingres,
Le Bain Turc

1862
Pintura a óleo
sobre madeira
(Museu do Louvre)








Com a essência das flores mais coniventes
Na formosura, prepara o banho, Lídia.
Os anos murcham e só no corpo sentes
Quente e fagueira a passagem da vida.

Não digas, céptica, que a carne é vã e passa
Desfeita em sombra, o negro rio. O Orco
Perséfone raptou rendido à graça.
Talvez no além precises do teu corpo.

Estima-o; e à beleza mais demora
Darão os fados na vida passageira.
Tépida a água, rescenda a musgo e a rosa.
De Paros seja o mármore da banheira.

Nua e rosada imerge na carícia
Emoliente da água perfumada,
E as folhas lassas dos membros espreguiça
Como uma humanizada flor aquática.

Não te esqueças porém de no amavio
Da água verter um brando óleo de malvas
Que te aveluda as coxas e mais brilho
Te dá ao polimento das espáduas.

E saindo do banho como a deusa
Sai, das macias ondas, nacarada,
Ergue-te para o amor, estátua de seda
Toda coberta com pérolas de água.

Por fim veste a camisa mais picante;
Com pó de ouro empoa o teu cabelo.
E vai para a alcova onde o teu amante
Te espera radioso e fiel como um espelho.


Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II,
Lisboa, 1993

Quinta, 12/11 - Onda Poética


















Mais uma sessão da Onda Poética, correspondendo ao tema postado neste blogue durante o mês de Outubro último.

De acordo com o que foi deliberado na última sessão, esta está a ser organizada pelas entusiastas da Onda,
Manuela Correia e Gabriela Ramalho.
Carlos Andrade estará uma vez mais ao comando das suas cordas vocais e das da guitarra acústica com as canções que há muito nos habituámos a apreciar.
Como convidado especial, estará presente também o poeta e actor Alberto Bastos.
E nós lá estaremos, lendo, participando, aplaudindo a dedicação à poesia deste grupo que mantém viva a chama sagrada.

Carpe Diem (Yellow Generation)

domingo, 8 de Novembro de 2009

If...








- - - - - - - - -
with a slight bow
- - - - - - - - - towards Rudy







Se, porventura,
a qualquer ponto do caminho
te surgir o instante de loucura
através do qual te possas libertar
num maravilhoso exercício de alegria
e exaltação

e tu resistas e renuncies

(é preciso, é preciso
aprender a não viver).

Se, casado
e rodeado de filhos,
souberes renunciar ao amor e à aventura
e manter a estabilidade
perante a solicitação de fugires
com a mulher do teu melhor amigo,
ou a extorquires com dor,
a puta ao chulo,
num tinir de copos e móveis partidos
pelo chão do cabaret.

Se, contabilista,
resistires à falsificação da escrita
à tentação da «caixa»;
se, empregado,
souberes oferecer ao patrão
o sorriso e a vénia modelares,
em vez do gesto indecente, descarado,
do gesto português

(é preciso, é preciso
aprender a não viver).

Se, perante o absinto,
o brandy, o gin com água tónica,
o uísque ou a mera aguardente de cana,
optares
pela moderação de um drink ocasional,
numa situação excepcional.

Se, à aventura e ao risco,
opuseres o sossego e a rotina,
se te souberes afeiçoar
à norma certinha, à teia
das relações familiares, sociais,
políticas e administrativas
num respeito deferente
para com a ordem estabelecida
e, ao próprio verso
- ainda uma ilusão de liberdade,
um exercício de íntima alegria
- responderes
com as formas prosaicas convenientes,

então, meu filho, serás um homem
geralmente respeitado e admirado
pelos teus concidadãos.

Entretanto, formulo um obscuro voto
para que, nalguma destas alternativas,
te percas, meu filho, sem remissão.

Rui Knopfli, Memória Consentida,
Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982

Se...





If by Rudyard Kipling

in the Dave Wood Art Gallery
(4umi.com/kipling/if/)






Se tu podes impor a calma, quando aqueles
Que estão ao pé de ti a perdem, censurando
A tua teimosia nobre de a manter.

Se sabes guardar sem ruga e sem cansaço.
Privar com Reis continuando simples,
E na calúnia não recorres à infâmia
Para com arma igual e em fúria responder,
- Mas não aparentar bondade em demasia
Nem presumir de sábio ou pretender
Manifestar excesso de ousadia, -

Se o sonho não fizer de ti um escravo
E a luz do pensamento não andar
Contigo no domínio do exagerado,

Se encaras o triunfo ou a derrota
Serenamente, firme, e reforçado
Na coragem que é necessário ter
Para ver a verdade atraiçoada,
Caluniada, espezinhada, e ainda
Os nossos ideais por terra. - Mas erguê-los
De novo em mais profundos alicerces
E proclamar com alma essa Verdade!

Se perdes tudo quanto amealhaste
E voltas ao princípio sem um ai,
Um lamento, uma lágrima, e sorrindo
Te debruças sobre o coração
Unindo outras reservas à Vontade
Que quer continuar, e prosseguindo
Chegar ao infinito da razão,

Se a multidão te ouvir entusiasmada
E a virtude ficar no seu lugar,
Se amigos e inimigos não conseguem
Ofender-te, e se quantos te procuram
Para estar com o teu esforço não contarem
Uns mais do que outros, - olha-os por igual!,

Se podes preencher esse minuto
Com sessenta segundos de existência
No caminho da vida percorrido
Embora essa existência seja dura
À força das tormentas que a consomem,

Bendita a tua essência, a tua origem
- O Mundo será teu
E tu serás um Homem!

Rudyard Kipling

Versão portuguesa de António Botto
in "Poesia Mais-que-pefeita", A Mar Arte, Coimbra, 1994