Nesta praça apregoa-se a Poesia. Sobretudo a dos outros. Possivelmente alguma da que escrevo. Autores da minha terra, da minha pátria-língua-portuguesa, mas também da nossa Terra-mãe-comum. Nesta praça vendo o sonho de ser poeta, mas não passo talvez de um mero divulgador de Poesia.
Confias no incerto amanhã? Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável? Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua o riso claro de um corpo que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos, os instantes; e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase, deixando a dúvida definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória, para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém, nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias; e abraças a própria figura do vazio. Então, por que esperas para sair ao encontro da vida, do sopro quente da primavera, das margens visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará à renúncia de mim próprio — nem esse olhar que me oferece o leito profundo da sua imagem!" Louco, ignora que o destino, por vezes, se confunde com a brevidade do verso. Nuno Júdice
Renoir, Dance at Bougival, oil on canvas, 1882-1883
Eu, Rosie, se eu falasse, eu dir-te-ia Que partout, everywhere, em toda a parte, A vida égale, idêntica, the same, É sempre um esforço inútil, Um voo cego a nada. Mas dancemos; dancemos Já que temos A valsa começada E o Nada Deve acabar-se também, Como todas as coisas. Tu pensas Nas vantagens imensas De um par Que paga sem falar; Eu, nauseado e grogue, Eu penso, vê lá bem, Em Arles e na orelha de Van Gogh... E assim entre o que eu penso e o que tu sentes A ponte que nos une — é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira __________
Nascido em Barcelona, a 20 de Março de 1922, , era filho do jornalista Reinaldo Ferreira, o famoso Repórter X. Tendo vindo para Moçambique (Lourenço Marques) em fins do ano de 1941 e aqui feito o sétimo ano dos liceus, por lá se conservou, com raras e breves escapadas à Metrópole, até Junho de 1959, data do seu falecimento com um cancro no pulmão. É autor da letra da célebre canção "Menina dos olhos tristes", cantada por José Afonso.
Ingres, Le Bain Turc 1862 Pintura a óleo sobre madeira (Museu do Louvre)
Com a essência das flores mais coniventes Na formosura, prepara o banho, Lídia. Os anos murcham e só no corpo sentes Quente e fagueira a passagem da vida.
Não digas, céptica, que a carne é vã e passa Desfeita em sombra, o negro rio. O Orco Perséfone raptou rendido à graça. Talvez no além precises do teu corpo.
Estima-o; e à beleza mais demora Darão os fados na vida passageira. Tépida a água, rescenda a musgo e a rosa. De Paros seja o mármore da banheira.
Nua e rosada imerge na carícia Emoliente da água perfumada, E as folhas lassas dos membros espreguiça Como uma humanizada flor aquática.
Não te esqueças porém de no amavio Da água verter um brando óleo de malvas Que te aveluda as coxas e mais brilho Te dá ao polimento das espáduas.
E saindo do banho como a deusa Sai, das macias ondas, nacarada, Ergue-te para o amor, estátua de seda Toda coberta com pérolas de água.
Por fim veste a camisa mais picante; Com pó de ouro empoa o teu cabelo. E vai para a alcova onde o teu amante Te espera radioso e fiel como um espelho.
Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II, Lisboa, 1993
Mais uma sessão da Onda Poética, correspondendo ao tema postado neste blogue durante o mês de Outubro último. De acordo com o que foi deliberado na última sessão, esta está a ser organizada pelas entusiastas da Onda, Manuela Correia e Gabriela Ramalho. Carlos Andrade estará uma vez mais ao comando das suas cordas vocais e das da guitarra acústica com as canções que há muito nos habituámos a apreciar. Como convidado especial, estará presente também o poeta e actor Alberto Bastos. E nós lá estaremos, lendo, participando, aplaudindo a dedicação à poesia deste grupo que mantém viva a chama sagrada.
Se, porventura, a qualquer ponto do caminho te surgir o instante de loucura através do qual te possas libertar num maravilhoso exercício de alegria e exaltação
e tu resistas e renuncies
(é preciso, é preciso aprender a não viver).
Se, casado e rodeado de filhos, souberes renunciar ao amor e à aventura e manter a estabilidade perante a solicitação de fugires com a mulher do teu melhor amigo, ou a extorquires com dor, a puta ao chulo, num tinir de copos e móveis partidos pelo chão do cabaret.
Se, contabilista, resistires à falsificação da escrita à tentação da «caixa»; se, empregado, souberes oferecer ao patrão o sorriso e a vénia modelares, em vez do gesto indecente, descarado, do gesto português
(é preciso, é preciso aprender a não viver).
Se, perante o absinto, o brandy, o gin com água tónica, o uísque ou a mera aguardente de cana, optares pela moderação de um drink ocasional, numa situação excepcional.
Se, à aventura e ao risco, opuseres o sossego e a rotina, se te souberes afeiçoar à norma certinha, à teia das relações familiares, sociais, políticas e administrativas num respeito deferente para com a ordem estabelecida e, ao próprio verso - ainda uma ilusão de liberdade, um exercício de íntima alegria - responderes com as formas prosaicas convenientes,
então, meu filho, serás um homem geralmente respeitado e admirado pelos teus concidadãos.
Entretanto, formulo um obscuro voto para que, nalguma destas alternativas, te percas, meu filho, sem remissão.
Rui Knopfli, Memória Consentida, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982
Se tu podes impor a calma, quando aqueles
Que estão ao pé de ti a perdem, censurando
A tua teimosia nobre de a manter.
Se sabes guardar sem ruga e sem cansaço.
Privar com Reis continuando simples,
E na calúnia não recorres à infâmia
Para com arma igual e em fúria responder,
- Mas não aparentar bondade em demasia
Nem presumir de sábio ou pretender
Manifestar excesso de ousadia, -
Se o sonho não fizer de ti um escravo
E a luz do pensamento não andar
Contigo no domínio do exagerado,
Se encaras o triunfo ou a derrota
Serenamente, firme, e reforçado
Na coragem que é necessário ter
Para ver a verdade atraiçoada,
Caluniada, espezinhada, e ainda
Os nossos ideais por terra. - Mas erguê-los
De novo em mais profundos alicerces
E proclamar com alma essa Verdade!
Se perdes tudo quanto amealhaste
E voltas ao princípio sem um ai,
Um lamento, uma lágrima, e sorrindo
Te debruças sobre o coração
Unindo outras reservas à Vontade
Que quer continuar, e prosseguindo
Chegar ao infinito da razão,
Se a multidão te ouvir entusiasmada
E a virtude ficar no seu lugar,
Se amigos e inimigos não conseguem
Ofender-te, e se quantos te procuram
Para estar com o teu esforço não contarem
Uns mais do que outros, - olha-os por igual!,
Se podes preencher esse minuto
Com sessenta segundos de existência
No caminho da vida percorrido
Embora essa existência seja dura
À força das tormentas que a consomem,
Bendita a tua essência, a tua origem
- O Mundo será teu
E tu serás um Homem!
Rudyard Kipling
Versão portuguesa de António Botto in "Poesia Mais-que-pefeita", A Mar Arte, Coimbra, 1994
Autor de vários livros de poesia.
Uma vida a divulgar a poesia e os poetas.
Coordenador de vários eventos literários: Quartas Mal-Ditas (Clube Literário do Porto), Onda Poética (Espinho), Quarto Crescente (S. Paio de Oleiros).
Participou em muitos outros, como nas Noites do Pinguim, e colabora, há cerca de 10 anos, nas Quartas de Poesia do Púcaro's Bar, também no Porto.
Poesia partout, everywhere. Sempre.