terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Temos partilhado um mesmo esqueleto...









«Afirmar que Inter-Cidades
é um notável livro de poesia,

é apenas sublinhar o que nos parece óbvio.»

Carlos Amaral Dias
(no Prefácio)





Temos partilhado um mesmo esqueleto
fisiológico, temos protegido com armação vertebrada
um inimaginável movimento.

Mas este não é um poema de amor.
E ainda bem que mo recordas, porque era pena
deixar esta morte sem um fim aceitável.

Os novos amantes têm sido fiéis a velhos sonhos e
amado demasiadas palavras sem estrutura cardíaca.

Por isso te contradigo: este
não é um poema de amor, este nem sequer
é um poema.

Minês Castanheira, Inter-cidades,
Leça da Palmeira, Letras & Coisas, 2008

N. em 1983, no Porto. Licenciada em Jornalismo e Ciências da Comunicação pela Faculdades de Letras da Universidade do Porto. Directora de Programação Cultural do Clube Literário do Porto. Antes do livro em que vem inserto este poema, publicou, em 2005, Plasticidades, Editora Magnólia, com prefácio de Manuel António Pina. Participou na Antologia Poética Valdeck Almeida de Jesus, em 2007, no Brasil.
É convidada da próxima sessão das "Quartas Mal-Ditas" do Clube Literário do Porto, no dia 28 de Janeiro 2009.
Lá a encontraremos no Piano Bar, pelas 22 horas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

28/01- Quarta Mal Dita / Predileccções: as nossas e as de Minês Castanheira


"(...) Acontece-nos sermos poucos e sermos contadores de histórias. E então sermos muitos nesses poucos, desta ribeira que já foi nossa, a ribeira das varandas e das crianças de cabelo espumado, que correm por nós adentro sem perguntar se podem entrar."
-
Minês Castanheira, Inter-cidades,
Leça da Palm
eira,
Letras & Coisas, 2008


A próxima sessão das Quartas Mal Ditas, organizadas por Anthero Monteiro, terá lugar no dia 28 de Janeir
o, pelas 22:00h, no Piano Bar do CLP.

O tema da sessão será "PREDILECÇÕES" e contará com a presença da poetisa Minês Castanheira e do pianista José Veloso Rito.

Leituras por: Anthero Monteiro / António Pinheiro / Diana Devezas /Isabel Marcolino / Luís Carvalho / Mário Vale Lima / Marta Tormenta / Rafael Tormenta



Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, n.º 22
4050-430 Porto
T. 222 089 228
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Se um dia a juventude voltasse...




















se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

Al Berto, in O Último Coração do Sonho,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2000

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cacida da mulher deitada






Amedeo Modigliani,
Nu couché de dos - 1917
Oil on canvas
Barnes Foundation,
Merion, PA



O ver-te nua é recordar a Terra,
a Terra lisa, limpa de cavalos.
A Terra sem um junco, forma pura
e cerrada ao porvir: confim de prata.

O ver-te nua é compreender a ânsia
da chuva que procura um corpo frágil,
ou a febre do mar de imenso rosto
sem encontrar a luz da tua face.

O sangue soará pelas alcovas
e virá com espadas fulgurantes,
mas tu não saberás onde se ocultam
o coração de sapo ou a violeta.

Teu ventre é uma luta de raízes,
teus lábios uma aurora sem contorno.
Debaixo das rosas tépidas da cama,
à espera de vez, gemem os mortos.

Federico García Lorca, "Diván del Tamarit" in
Antologia Poética, Lisboa, Relógio d'Água, 1993,
Tradução de José Bento

Casida ou Cacida (trad. de José Bento para português) é
, segundo os poucos dicionários que registam o termo, proveniente do árabe, uma pequena composição poética de tema amoroso. De acordo com Emílio García Gómez, autor da nota introdutória ao "Diván del Tamarit", seria «um poema de certa extensão, com determinada arquitectura interna (...) e em versos com uma única rima, medidos de acordo com as normas escrupulosamente estereotipadas».
Diván
é, para o mesmo autor, «a colecção das composições de um poeta, geralmente catalogadas por ordem alfabética de rimas».
García Gómez explica ainda que, em Lorca, estas denominações não se ajustam às definições anteriores, pelo que, «neste sentido, são arbitrárias».

Cacida da alta madrugada








Félix Grande
, in
www.casadellibro.com/



Quando te lembrares do meu corpo
sem conseguires dormir
e te levantares seminua
caminhando às cegas pela casa
ébria de estupor e de raiva,
nalgum lugar da Terra
andarei eu insone por algum corredor
carente de ti toda a noite
ouvindo-te ulular muito longe e escrevendo
estes versos degenerados.

Félix Grande, Poesía Completa
Barcelona, Anthropos, Editorial del Hombre, 1989, 2.ª ed.
Tradução de Anthero Monteiro

Poeta, escritor, ensaísta e crítico espanhol, n. em Mérida, Badajoz (1937). Com García Lorca, um dos grandes representante da Geração do 27. Prémio Nacional de Literatura em 1978 e Prémio Nacional de Letras em 2004, entre outros.

Cacida da tentadora









Salvador Dali
,
A Tentação de
Santo António,
1946



Todos te desejam mas nenhum te ama.
Ninguém pode querer-te, serpente,
porque não tens amor,
porque estás seca como a palha seca
e não dás fruto.
Tens a alma como a pele dos velhos.
Resigna-te.
Não podes fazer mais
do que acender as mãos dos homens
e seduzi-los com as promessas do teu corpo.
Alegra-te. Nessa profissão do desejo
ninguém como tu para simular inocência
e para enfeitiçar com teus olhos imensos.

Jaime Sabines, in
www.poemas-del-alma.com
Tradução de Anthero Monteiro

Poeta mexicano, 1926/1999.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A bela do bairro














Salvador Dali
,
Jeune fille à la fenêtre,
óleo sobre tela, 1925




Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor

Fernando Assis Pacheco, A Bela do Bairro e Outros Poemas, 1986

Blues da morte de amor






Vasco Graça Moura
in
www.gracamoura.org



já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

Vasco Graça Moura, in Inês Pedrosa (org.), Poemas de Amor,

Lisboa, Dom Quixote



segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Elegia do progresso








Boris Vian
in
lamerpourhorizon.ne



Noutros tempos ao fazer a corte
falava-se de amor
e como prova do nosso ardor
oferecia-se o coração.

Hoje já não é como dantes
está tudo mudado
Pra seduzir o ente adorado
murmura-se-lhe ao ouvido
Ah... Gudule... Vem-me dar um beijo...

E eu dou-te...
eu dou-te um frigorífico
uma boa lambreta
um atomizador
um fogão de cozinha
com um forno de vidro
montes de cobertores
e facas para bolos
um torniquete
pra fazer vinagrete
um bom ventilador
para tirar os odores
lençóis aquecidos
uma pistola de biscoito
um avião para dois

e vamos ser felizes
e vamos ser felizes

Noutros tempos se acontecesse
a gente desentender-se
partíamos com ar lúgubre
deixando ficar a baixela

mas hoje o que é que querem
a vida está tão cara
dizemos volta prà tua mãe
e ficamos com tudo
Ah... Gudule... Pede desculpa... ou ...

ou fico com tudo
o meu frigorífico
o meu aparador
o meu lava-loiça de ferro
o meu fogão a petróleo
o meu encera-chanatos
o meu passa-lesmas
o meu banco de espelho
o meu caça-malandros
o torniquete
pra fazer vinagrete
o encolhedor de lixo
e o corta-batatas-fritas

e se a bela
inda se mostrar rebelde

pômo-la na rua
pômo-la na rua

e confiamos o nosso destino
ao frigorífico
ao apaga-poeira
ao fogão de cozinha
à cama sempre feita
ao aquece-sapatas
ao canhão de batatas
ao esventra-tomates
ao esfola-galinhas

mas muito muito em breve
receberemos a visita
de uma terna miúda
de uma terna miúda
que nos oferece o coração
sim que nos oferece o coração

então logo cedemos
temos de ser uns prós outros
e vivemos assim
e vivemos assim
até á próxima vez
até à próxima vez

Boris Vian, Canções e Poemas,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997

(Proposta de leitura do texto a dois, de acordo com o estilo do tipo de letra
)

domingo, 18 de janeiro de 2009

Alguém










Charles Bukowski in
www.izdiham.com



oh deus, tinha uma tristeza espantosa
aquela mulher estava ali sentada
e disse-me
você é realmente Carlos Bukowsky?
e eu respondi
deixemos isso
não me sinto bem
tenho uma tremenda tristeza
e a única coisa que me apetece
é dar-te uma queca

ela riu
pensava que eu estava a armar-me em esperto
e eu só olhava para as suas pernas longas delgadas
celestiais
via-lhe o fígado e as entranhas tremendo
via Cristo lá dentro
a dançar um folk-rock.

todas as minhas carências interiores
sublevaram-se
e fui direito a ela
empurrei-a para o sofá
e levantei-lhe o vestido até ao pescoço

queria lá saber
se se tratava de uma violação
ou do fim do mundo.
voltava a estar ali
num sítio
real

sim
os seus trajes íntimos
jaziam por terra.
e a minha gaita entrou, a minha gaita entrou
oh deus, a minha gaita entrou

eu era Carlos
Alguém.


Charles Bukowski, 20 Poemas, Mondadori
(tradução de Anthero Monteiro)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Viva o amor!

O amor é o AMOR. Assim como quem sente, assim como quem pensa, assim como a quem dói. Mas o amor é consciente, tem consciência de si e de quem ama. O Amor é eloquente, sabe dizer o que o intriga, o que lhe vai na alma. O amor é uma perturbação, uma verdade fulgurante, é uma dádiva que não se sabe de quem nem de onde vem, alimenta-se a si próprio de esperança e de projectos para o futuro.

O AMOR trabalha com o tempo, com a distância, molda o que o cerca às suas necessidades e ao bem-estar da pessoa amada. O Amor é uma orquestra muito bem afinada, só de dois músicos apenas e, às vezes, de uma cidade inteira. Pode dissolver-se como uma gota de água. Capaz de gerar uma revolução, pode morrer com uma gargalhada, ou uma frase maldosa numa carta escrita.

O AMOR é solidário, pode ser oferecido a muitos ao mesmo tempo, como nos hospitais ou nas famílias numerosas. O Amor é rebelde, não se verga aos interesses do dinheiro ou da política. O amor é revolucionário, desfaz todas as conveniências, todos os preconceitos, vai direito ao fim que se propôs: a felicidade.

O AMOR é a alegria, um estado puro do contentamento, às vezes um silêncio na paisagem do mar, uma praia deserta à luz das estrelas, uma voz de criança que começa a pairar. O Amor é o sumo das palavras, a bandeira do Poeta, a reflexão do cientista.

O AMOR respira-se. Ouve-se para acabar com todas as guerras, com todas as tragédias, com todas as raivas, só que há sempre um surdo, um infeliz por perto que não ouve a voz do Amor, que se esqueceu do beijo de sua Mãe quando era bebé. O Amor é transigente, esquece quem o ofendeu, quem o maltratou. O Amor convida os idosos a serem jovens, incita-os a uma esperança renascida, sopra nas brasas esquecidas e ateia os seus perenes fogos. O Amor dá asas aos pés, suavidade às mãos que acariciam, delicadeza às palavras roucas, fraternidade aos desamparados.

O AMOR acontece nos animais porque o Amor é um instinto de sobrevivência. O Amor é juvenil como juvenil é o casamento dos velhos. A idade do Amor é por excelência a juventude. O Amor não tem conta bancária nem cartão de contribuinte. O Amor é um estado de superação. O planeta Terra é feito de Amor. O Amor põe a nu as maldades, é o contrário da hipocrisia, da inveja, do negócio. Tudo o que é negociável não pertence ao Amor.

O AMOR é viajar, descobrir cem países diferentes, falar com todos, dialogar sempre. O Amor nunca poderia aprender-se na Universidade. O amor existe em todos nós ao nascermos como uma condição da existência. A evolução técnica e científica desenvolve-se à sombra do Amor. O Amor escreve-se!

Fernando Morais, Poetas da Rua, E. A., 2008.


N. em Mafamude -Vila Nova de Gaia (1935). Participou no Centro Ramalho Ortigão no fim dos anos 50. Completou o Curso de Pintura Cerâmica na extinta Escola Passos Manuel, em Gaia. Colaborou no jornal República e no Suplemento Juvenil do Diário de Lisboa. Em 1967, foi obrigado a refugiar-se em Paris, perseguido pela Polícia Política. Foi um dos principais dirigentes da revista Peregrinação e organizou colóquios, exposições de arte e encontros literários internacioanis com emigrantes, neles reunindo pensadores, artistas e poetas de renome.Tem participado em muitas das noites de poesia realizadas no Grande Porto. Escreve crónicas semanais para diversos jornais regionais.É sócio dirigene da Associação dos Escritores de Gaia.
Algumas
das suas obras, muitas delas edições de autor: A Cidade Adversa (1963), A Cidade Ocupada pela Poesia (1983), O Poeta Escondido (1998), Voltar a Gaia (2000), As Ruas da Comuna (Campo das Letras, 2002), Um Estalo na Modorra (Palavra em Mutação, 2003), Conversando com Rimbaud (2004), Quadrar (2007), Exclusivamente (2008), etc.
Tivemos o prazer de apresentar várias obras deste prolífico poeta e amigo, um permanente e intransigente lutador por uma sociedade mais justa, obsessão de que dão testemunho todos os seus escritos.

Buster Keaton procura no bosque a sua noiva que é uma verdadeira vaca













Foto A.M.




1, 2, 3, 4.
Nestas quatro pegadas não cabem os meus sapatos.
Se nestas quatro pegadas não cabem os meus sapatos,
de quem são estas quatro pegadas?
Dum tubarão?
Dum elefante recém-nascido ou dum pato?
Duma pulga ou duma codorniz?

(Pi, pi, pi.)

Georginaaaaaaaaa!
Onde estás?
Não te oiço, Georgina!
Que pensarão de mim os bigodes do teu papá?

(Paapááááá.)

Georginaaaaaaaaa!
Estás aí ou não?

Abeto, onde está ele?
Amieiro, onde está ela?
Pinheiro, onde está ela?

Georgina passou por aqui?

(Pi, pi, pi, pi.)

Passou à uma ruminando ervas.
Cucu,
o corvo ia-a enganando com uma flor de reseda.
Cuacuá,
a coruja, com uma ratazana morta.

Senhores, desculpem, mas tenho mecessidade de chorar!
(guá, guá, guá, guá.)

Georgina!
Agora que te faltava apenas um corno
para alcançares o grau de doutor no curso verdadeiramente útil de ciclista
e obter um boné de carteiro.

(Cri, cri, cri, cri.)

Até os grilos têm pena de mim
e a carraça me acompanha nesta dor.
Compadece-te do smoking que anda á tua procura e chora por ti no meio dos aguaceiros
e do cogumelo que ternamente
te pressente de mata em mata.

Georginaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

(Maaaaaa.)

És uma menina terna ou uma verdadeira vaca?
O meu coração sempre me disse que eras uma verdadeira vaca.
O teu papá, que eras uma terna menina.
O meu coração, que eras uma verdadeira vaca.
Uma terna menina.
Uma verdadeira vaca.
Uma menina.
Uma vaca.
Uma menina ou uma vaca?

Eu nunca o soube.
----------------- Adeus, Georgina.
----------------------------------- (Pum!)

Rafael Alberti, Antologia Poética, Selecção e tradução de Albano Martins,
Porto, Campo das Letras, 1998


N. em Puerto de Santa Maia - Cádiz - Espanha em 1932. F. Santiago do Chile em 2001.
Membro da Geração de 27, estreou-se em 1924 com Marinero en Tierra. Participou activamente na Guerra Civil de Espanha, ao lado dos republicanos. Após a queda de Madrid, em 1939, partiu para o exílio sucessivamnete para França, Argentina e Roma, regressando a Espanha em 1977. Aderira ao Partido Comunista em 1931. Em 1983, recebeu o prémio Cervantes.

Unicórnios e farmácias abandonadas











In
www.librodearena.com



Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o

estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos.


Esperava por semáforos, sem saber que esperava

apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.

A segunda circular era uma manifestação pacífica

de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.


Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me

interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.

Agora, os meus olhos contam quilómetros nos teus,

procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e

tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.


José Luís Peixoto
(inédito)

in quintasdeleitura.blogspot.com/

Este poema deu o nome à sessão das "Quintas de Leitura", no Teatro do Campo Alegre, no Porto, realizada no dia 19 de Abril de 2007.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Amanhã, POESIA DE CHOQUE, no Clube Literário










Sexta, dia 16 de Janeiro, 21.30 horas
Clube Literário do Porto
Organização de
António Pedro Ribeiro
& Luís Carvalho











Uma experiência a ter em conta.
Comparece.

O Amor e a Saudade

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O Amor teve uma filha à qual chamou Saudade:

Vendo-a crescida,
Vendo-a na idade
De entrar na vida,
Disse-lhe assim um dia:

- Envelheci; no meu jardim cai neve...
Já sinto a alma fria,
E no corpo entrará também o frio em breve...
De noite, vejo só negrume de ataúdes;
Tudo é inverno p'ra mim; abril, acho-o grisalho...
Velho e doente, é justo, filha, que me ajudes
No meu trabalho.
Auxilia-me pois! Quando os amantes,
O seio contra o seio,
Enleados estão em tão suave enleio,
Que as longas noites tomam por instantes,
Ao pé deles me querem sempre, e assim,
Se p'ra deixá-los, já cansado, estou,
Começam a chamar por mim,
A perguntar-me para onde vou...
Nunca me deixam, nunca estou tranquilo!
Como o trabalho é rude, de hoje em diante
Devemos reparti-lo,
Que eu já me sinto fraco e vacilante...
De hoje em diante, irei deitar os namorados,
Mas tu, Saudade, junto deles ficarás,
E ao chamarem por mim, em gritos sufocados,
Fingindo a minha voz, tu lhes respoonderás...
Fazem-me louco
As noites mal dormidas,
E assim já poderei dormir um pouco
E recobrar até as minhas cores perdidas...
Vamos! O velho sol já se extinguiu
E a lua branca rompendo vai...

E a Saudade partiu
Atrás do Pai...

Desde essa noite azul, ébrios de pasmo e dor,
Os que se beijam com ansiedade
Adormecem ao pé do Amor
E acordam junto da Saudade...

Eugénio de Castro, in Viale Moutinho, O Amor na Poesia Portuguesa,
Porto, Familia 2000, 1975

A omeleta


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Abrimos a janela por onde se insinua
uma forma de vento: instala-se
na cozinha um convite de amor. A luz
crepita para que os pêssegos madurem
e a panela canta como se olhasses
o rio; pico a cebola
como se gradasse a terra, beijo-te
a nuca, as batatas aparecem descascadas;
um pássaro chilreia no ar do jardim
como se fosse ele o nosso coração. Um anjo
vela o saco das compras, um saco de plástico
onde embainhámos a geada das sombras, ali
poderão roer longamente as unhas.
Respiro-te. A voz do frigorífico
entoa sobremesas com a arte da poesia.
O poema leveda no trigo dos olhares.
Ao transcrevê-lo
direi que o nosso coração chilreia
no ar do jardim
como se fosse um pássaro no mais alto
ramo. No poema
é necessário transfigurar a realidade.
Os camarões congelados contagiam o texto
ao ganharem cor na água que ferve.
Cozem; agora
é só bater os ovos.

Egito Gonçalves, A Ferida Amável,
Porto, Campo das Letras, 2000

Este poema dava para um longo debate sobre a Poesia e o que ela é em relação à prosa e em relação com os seus eventais referentes da realidade. Poder-se-ia perguntar:
O que aqui se lê é mesmo poesia? O que é que no texto a evidencia?
De que fala este poema? Do amor? Do trabalho da cozinha? Ou do trabalho do poeta?
É talvez tudo isso, mas não há dúvida de que nele se traça um paralelo entre a arte culinária de fazer uma omeleta e a arte poética: "No poema é necessário transfigurar a realidade." E é isso que faz aqui o poeta.
Vem tudo isto a propósito de textos que ouço ler, como ainda aconteceu ontem no Púcaro´s Bar: anuncia-se um poema e depois o que se ouve é um texto bem escrito, sem dúvida, mas que de poesia talvez pouco tenha: não há qualquer transfiguração da realidade, as palavras são as de todos os dias com os mesmos referentes de todos os dias e eu teria preferido que anunciassem um texto em prosa, que ter-me-ia sabido muito melhor. Não o disse na altura, porque não quis parecer nem pretensioso nem paternalista e nem sei se seria bem aceite. Além disso, não é muito habitual discutirem-se os textos que ali se lêem. E não há dúvida de que ali também se podem ouvir belíssimos poemas (que o são) e excelentes "diseurs".

Talvez fosse interessante fazer exercício idêntico ao que aqui é proposto com o texto "Presente do Indicativo" de Vasco Graça Moura: aqui.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Na minha boca...

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Partilhei beijos com poetas, pintores, cineastas
empregadas, princesas judias, ratoneiros, hippies
engenheiros, tenores, guerrilheiros

na minha boca todos os caminhos da vida

é tempo
de ocupar-me dos pés

Luisa Futoransky, De Donde Son Las Palabras,
Barcelona, Plaza & Janés, 1998

N. em Buenos Aires - Argentina em 1939. Advogada pela Universidade de Buenos Aires, aí estudou Poesia Anglo-saxónica com Jorege Luis Borges. Passou por várias universidades nos Estados Unidos e em Itália, mas radicou-se em Paris, em 1981, exercendo mais tarde o cargo de conferencista no Centro Georges Pompidou. Foi rdactora da France Press e colaborou com várias revistas. Recebeu vários prémios e distinções importantes em França, Espanha e no país natal.

História de um amor


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Para que eu pudesse amar-te
os espanhóis tiveram que conquistar a América
e os meus avós
fugiram de Génova num barco de carga.

Para que eu pudesse amar-te
Marx teve que escrever O Capital
e Neruda, a Ode a Leninegrado.

Para que eu pudesse amar-te
houve em Espanha uma guerra civil
e Lorca morreu assassinado
depois de ter viajado até Nova Iorque.

Para que eu pudesse amar-te
Virgínia Woolf teve que escrever Orlando
e Charles Darwin
viajou até ao Rio de la Plata.

Para que eu pudesse amar-te
Catulo enamorou-se de Lésbia
e Romeu, de Julieta,
Ingrid Bergman filmou Strômboli
e Pasolini, os Cem Dias de Saló.

Para que eu pudesse amar-te
Lluís Llach teve que cantar Els Segadors
e Mulva, os poemas de Bertolt Brecht.

Para que eu pudesse amar-te
alguém teve que plantar uma cerejeira
no quintal da tua casa
e Garibáldi pelejar em Montevideu.

Para que eu pudesse amar-te
as crisálidas transformaram-se em borboletas
e os generais tomaram o poder.

Para que eu pudesse amar-te
tive que fugir de barco da cidade onde nasci
e tu resistir a Franco.

Para que nos amássemos, enfim,
aconteceram todas as coisas deste mundo

e desde o momento em que deixámos de amar-nos
existe apenas uma grande desordem.

Cristina Peri Rossi, Poemas de Amor y Desamor,
Barcelona, Plaza & Janés, 1998
Tradução de Anthero Monteiro

Nasceu em Montevideu - Uruguai, em 1941, mas teve que exilar-se na Europa na sequência do golpe militar no seu país natal, tendo adquirido a nacionalidade espanhola em 1974. Licenciou-se em Literatura Comparada, disciplina que leccionou durante anos. Personalidade emblemática dos anos sessenta, distinguiu-se pelo seu espírito de inovação, rebeldia e transgressão. Voz prestigiada das letras hispânicas, viu a sua obra ser traduzida em várias línguas.

Invocação à mulher única












Marc Chagall,
Woman in Village
, in
www.aniwilliams.com


Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito

Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda

E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.

Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela graça, fêmea

Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência

De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida

(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade

Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
Não me deixes morrer!... eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto do pensamento eu, himem – fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne

Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir... – as viagens remontam à vida!... e porque eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura

A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando

Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia

No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

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Vinicius de Moraes, Antologia Poética,
São Paulo, Companhia das Letras, 1992

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Árvore da ciência

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as tuas longas longas longas pernas
e as minhas mãos
daninhas trepadeiras

Anthero Monteiro (poetrix inédito)

Ver o que é um poetrix e informações sobre o Movimento Poetrix, aqui.
Ou consultar o 1.º livro de poetrix publicado na Europa,
Esta Outra Loucura, de Anthero Monteiro, Corpos Editora
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Pertença

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tenho-te porque não te possuo
também são minhas as estrelas inalcançáveis
e é minha a noite com seus dedos indefinidos
são meus os acenos das magnólias de fevereiro
e a sua fragrância em março dissipada

tenho-te porque estremeces no poema das horas
e na cadência e decadência dos meus versos
porque és tinta vibrante dos poentes
água dos oceanos insubmissos
e do orvalho trémulo dos meus olhos

também são meus os acordes da criação
os delírios do piano de keith jarrett
a árvore que puseram diante da minha janela
com um presente de gorjeios
a música safira do teu sorriso
e a promessa sempre adiada dos teus lábios

tenho-te fugaz como à concórdia universal
como ao abraço do vento e das searas
como ao roçar da asa dos instantes
como ao ardil estético da aranha
como à cor da minha inútil esperança

tenho-te água brotando da pedra
jamais tocada pela avidez dos lábios
és-me cristalina e bela e tenho-te ao dispor
e pois que te quero assim nunca te possuirei
mas serás minha para sempre
que o mesmo é dizer

para nunca mais

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2003

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Os noivos

Deitados na erva
uma rapariga e um rapaz.
Comem laranjas, trocam beijos
como as ondas trocam suas espumas.

Deitados na praia
uma rapariga e um rapaz.
Comem limões, trocam beijos
como as nuvens trocam suas espumas.

Deitados sob a terra
uma rapariga e um rapaz.
Não dizem nada, não se beijam,
trocam silêncio por silêncio.

Octavio Paz, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998

N. no México em 1914. A sua vida tem sido uma permanente viagem: Espanha, Estados Unidos, França, China. Japão, Índia (onde foi embaixador do seu país) e Inglaterra.
Traduziu Pessoa e escreveu sobre ele um belo ensaio: El desconocido de sí mismo.

O jardim adormecido









Mahnud Darwich in
www.campo-letras.pt/noticia.html



Quando o sono a tomou nos braços, retirei a mão,
contornei os seus sonhos,
vi o mel desaparecer atrás das suas pálpebras,
orei por duas pernas miraculosas.
Inclinei-me sobre as palpitações do seu coração,
vi trigo sobre mármore e sono.
Uma gota do meu sangue chorou,
estremeci...
Um jardim dorme no meu leito.

Dirigi-me para a porta
sem olhar para a minha alma sempre adormecida.
Ouvi o rumor antigo dos seus passos e o sino do meu coração.
Dirigi-me para a porta.
- A chave está na sua bolsa
e ela dorme como um anjo depois do amor -
Noite chuvosa na rua e nenhum ruído,
a não ser as palpitações do seu coração e a chuva.
Dirigi-me para a porta.
Esta abre-se.
Saio.
Ela fecha-se.
A minha sombra desliza atrás de mim.
Porque digo adeus?
Eu sou, a partir de agora, estranho às lembranças e à minha casa.
Desci as escadas.
Nenhum ruído,
a não ser as palpitações do seu coração, a chuva
e os meus passos sobre os degraus que vão
das suas mãos a um desejo de viajar.

Cheguei à árvore.
Aqui, ela abraçara-me.
Aqui, feriram-me raios de prata e de cravos.
Aqui, começava o seu universo.
Aqui, ela terminava.
Parei durante alguns instantes feitos de lírio e de inverno,
caminhei,
hesitei,
depois avancei.
levava os meus passos e a minha memória salgada.
Caminhei na minha companhia.

Nem adeus nem árvore.
Os desejos adormeceram atrás das janelas,
as histórias de amor e as traições
adormeceram atrás as janelas,
e os agentes de segurança também.
Rita dorme... dorme e desperta os seus sonhos.
De manhã terá o seu beijo
e as suas visitas,
em seguida preparará o meu café árabe
e o seu café com leite.
Interrogar-me-á, pela milésima vez, sobre o nosso amor.
Responder-lhe-ei:
Eu sou o mártir das mãsos que
todas as manhãs me preparam o café.
Rita dorme... Dorme e desperta os seus sonhos
- Vamos casar-nos?
- Sim.
- Quando?
- Quando o lilás crescer nos bonés dos soldados.
Ultrapassei as ruelas, o edifício dos correios, as esplanadas dos
cafés, as boites nocturnas e as suas bilheteiras.
Amo-te, Rita. Amo-te. Dorme.
Daqui a treze invernos, perguntarei,
perguntarei:
- Ainda dormes?
- Já acordaste?
Rita! Rita, amo-te.
Amo-te...

Mahmud Darwich, O Jardim Adormecido e outros poemas,
Selecção e tradução de Albano Martins,
Porto, Campo das Letras, 2002

M.D., o poeta dos palestinos, nasceu na Galileia em 1942 e faleceu a 8 de Agosto de 2008 num hospital de Houston, nos Estados Unidos, na sequência de uma intervenção cirúrgica ao coração.
Em 1948, as tropas israelitas obrigaram-no a partir com a família para o exílio, regressando clandestinamente um ano depois. Foi preso cinco vezes. Viveu em Moscovo, no Cairo, em Beirute, em Amã (Jordânia) e Ramallah (Palestina).
Em 1993, demitiu-se da OLP, a que aderira, em protesto contra os acordos de Oslo. Criticava a «mentalidade israelita de guetto» e a política que impediu a criação de um estado palestino viável. Neste poema e noutros poemas, Rita é a sua amada israelita.
Darwich ficou muito conhecido na sequência do seu poema "Bilhete de Identidade":

"Escreve!
Sou árabe.
Roubaste os pomares dos meus antepassados
e a terra que eu cultivava com os meus filhos;
não me deixaste nada,
apenas estas rochas;
O governo vai tirar-me as rochas,
como me disseram?
(...)"

Do "Cântico dos Cânticos"













Texto original
hebraico



Ah és bela minha amada ---
és tão bela --- teus olhos são pombas
por detrás de teu véu
teu cabelo um rebanho de cabras --- que descem do monte Galaad
teus dentes rebanhos de ovelhas tosquiadas --- que sobem do banho
todas geraram suas crias --- nenhuma há estéril entre elas
como fita escarlate teus lábios --- que formosa é a tua boca
tuas faces são metades de romãs --- por detrás de teu véu
teu pescoço é a torre de David --- erguida sobre troféus
dela pendem mil escudos --- todos broquéis de valorosos
teus seios são dois filhotes --- gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios
antes que o dia expire --- e as sombras se alonguem
irei por mim ao monte da mirra --- e à colina do incenso
ah és bela minha amiga --- defeito não há em ti.

Salomão, Cântico dos Cânticos,
Tradução de José Tolentino Mendonça,
Lisboa, Edições Cotovia, 1997

Os amigos









Autógrafo de
José Tolentino Mendonça




Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça, De Igual para Igual,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001

sábado, 10 de janeiro de 2009

Amor - um não sei quê...

É um nada amor que pode tudo,
É um não se entender o avisado,
É um querer ser livre e estar atado,
É um julgar o parvo por sisudo;

É um parar os golpes sem escudo,
É um cuidar que é e estar trocado,
É um viver alegre e enfadado,
É não poder falar e não ser mudo;

É um engano claro e mui escuro,
É um não enxergar e estar vendo,
É um julgar por brando ao mais duro;

É um não querer dizer e estar dizendo,
É um no mor perigo estar seguro,
É, por fim, um não sei quê, que não entendo.

Anónimo do século XVII, in Viale Moutinho, O Amor na Poesia Portuguesa,
Porto, Família 2000, 1975

Os amantes sem dinheiro



















Autógrafo de
Eugénio de Andrade


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade, Antologia Breve,
Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1994, 6.ª ed.

Urgentemente













É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade, Antologia Breve,
Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1994, 6.ª ed.

Interrogação














Imagem de Clepsidra in
www.ac-nice.fr/.../instrumentsdemesure.htm



Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha, Clepsidra e outros poemas,
Porto, Anagrama, 1980

O presente absoluto















Auguste Rodin,
Le Baiser



Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.

Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.

Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.

António Ramos Rosa, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001