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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma imagem de Leda













O cinema é cruel
como um milagre. Nós
sentamo-nos na sala
às escuras pedindo só
ao espaço branco
e vazio que se
mantenha puro. E
de repente apesar disso
fica negro. Não pela
mão que segura
a caneta. Não há
mensagem. Somos nós
aparecendo nus
na margem do rio de
corpo em cruz enquanto
a máquina voa
mais perto. Gritamos
tagarelamos saltiamos e
lavamos o cabelo! É
por nossa oração ou
desejo que isto
acontece? Oh que luz
é esta que firme
nos agarra? Até nossos
membros se apressam
levando à desgraça sob
esse olho branco
como se houvesse verdadeiro
prazer em amar
uma sombra e acariciar
um disfarce!

Frank O’Hara in
Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães,

O Bosque Sagrado, Porto, Gota de Água, 1986

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Lana Turner desmaiou!



Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na Califórnia
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Frank O’Hara,
Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ave Maria











Foto in oglobo.globo.com


Mães da América
deixem os vossos filhos ir ao cinema!
tirem-nos de casa sem eles saberem o que planeais
é certo que o ar livre é bom para o corpo
mas quanto à alma
que cresce na escuridão, adornada por imagens prateadas
e quando envelhecerdes como tendes de envelhecer
não vos hão-de odiar
nem criticar nem hão-de saber
estarão nalgum país encantador
que viram pela primeira vez numa tarde de Sábado ou de gazeta

talvez até vos agradeçam
pela primeira experiência sexual
que só custou um quarto de dólar
e não perturbou a paz do lar
saberão de onde vêm os rebuçados
e os sacos de pipocas gratuitos
tão gratuitos como sair antes de o filme acabar
com um estranho agradável cujo apartamento é no
Céu na Av. Terra
perto da Ponte Williamsburg
ó mães tereis feito tão felizes
os putos porque se ninguém os apanhar no cinema
não aprenderão a diferença
e se isso acontecer será puro gozo
e de qualquer forma ter-se-ão divertido a valer
em vez de vagabundearem no pátio
ou no quarto deles
odiando-vos
prematuramente pois que ainda não fizestes nada horrivelmente
maldoso
excepto mantê-los afastados das alegrias mais sombrias
o que é imperdoável
portanto não me culpem se não seguirem este conselho
e a família se desunir
e os vossos filhos ficarem velhos e cegos frente à televisão
vendo
filmes que não os deixastes ver quando eram novos

Frank O’Hara,
Vinte e cinco poemas à hora do almoço,
tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 1995