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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Carta-poema















Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,

Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,

Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.

É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!

Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.

Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!















Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!

A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é o
Grande Chaco! Senão, olhai!

Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois!

Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!















Manuel Bandeira

terça-feira, 8 de junho de 2010

Brasília















Brasília
Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecumênica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas














Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem
Nítida como Babilônia
Esguia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitetura escreveu a sua própria paisagem















O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número
No centro do reino de Ártemis
- Deusa da natureza inviolada -
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Atena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Atena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento














E há nos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Babilónia















Com pátios interiores e com palmeiras
Com muros de tijolo com pequenos tanques
Com fontes com estátuas com colunas
Com deuses desenhados nas paredes de barro















Com corredores e silêncio e penumbras
Com vestidos de linho tocando a pedra pura
Com cinamomo e nardo
Com jarras donde corria azeite e vinho



















Com multidões com gritos com mercados
Com esteiras claras sob os pés pintados
Com escribas com magos e adivinhos
Com prisioneiros com servos com escravos
Com lucidez feroz com amargura
Com ciência e arte
Com desprezo
Babilónia nasceu do lodo e limo

Sophia de Mello Breyner Andresen

O sol o muro o mar















O olhar procura reunir um mundo que foi
destroçado pelas fúrias.
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para
manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento
azul sem nenhum rosto.














Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência
intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos
pátios dos terraços.














Obscuros interiores rente à claridade, secretos e
atentos: silêncio vigiando
o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é
preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço
ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para
o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas
ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte,
os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso
amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa - tinta que
se despinta - porta aberta para o pátio de chão
verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e
espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto
para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de
manchas nebulosas e sonhadoras.














A porta desenha sua forma perfeita à medida do
homem: as cores do cortinado de fitas contam a
nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do
homem.
No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e
as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto
de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do
lugar sagrado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Uma cidade não aguarda que a edifiquem...















Uma cidade não aguarda que a edifiquem: a si pró-
pria se reergue, com os braços que tem.
Ampliada aos quatros ventos, habitada pelos de
todos os ofícios.
Assim: de impartilhadas searas, como se de trocados
corpos em quartos de versículos murmurados.
Escancarada a quem a vem povoar, de muros onde,
sob as estátuas decapitadas, de súbito estoura
a jubilosa coroa das peónias.
E que não se fale de arrojados, o dorso agatanhado,
nos beiços um mosto de bílis, sem que se
possa inscrever a seguinte notícia:















Rasgámos a rua rente ao flanco de serra, amontoá-
mos as pedras da parede da casa, espalhámos
o colmo. E arrecadámos o estrume, e reco-
lhemos o gado, e espertámos o fogo.
O que, todos vêem, se declara nessa glória de exten-
sões difusas, no calor aguado, em que «a cida-
de se estende em círculos de jade / irradiando
relâmpagos como a plumagem de quetzal».















Mário Cláudio

domingo, 6 de junho de 2010

Chegaram as máquinas...















chegaram as máquinas para talhar a cidade que vem
das águas cresce a obra do homem, ouve-se um lento grito d'espuma e suor...














na memória ficaram os sinais dos bosques ceifados,
as dunas desfeitas e algumas casas abandonadas
estenderam-se tubos prateados, onde escorre o negro líquido
levantaram-se imensas chaminés,
serpenteiam auto-estradas na paisagem irreconhecível do teu rosto















onde estarão as tâmaras maduras de tuas palmeiras?
e o perfume intenso das flores debruçando-se ao sol?
que murmúrio terão as pedras do teu silêncio?















a memória é hoje uma ferida onde lateja a Pedra do Homem,
hirta como uma sombra num sonho
e as aves? frágeis quando aperta a tempestade... migraram como eu?
aonde caminhas, Doce Moura Encantada?

ouço o ciciar dos canaviais dentro do sono, adivinho teu
caminhar de beijos no rumor das águas
tuas mãos de neve recolhem conchas, estrelas secretas, luas incendiadas...
que o mar esconde na respiração das marés

estremecem-me nas mãos os insectos cortantes do medo, em meu peito
doido ergue-se esta raiva dos mares-de-leva...

Al Berto, O Medo
(poema dedicado a Sines)