domingo, 24 de outubro de 2010

Prece ateia













Foto de
Anthero Monteiro
por Anaas



dos arremedos do amor
livrai-me senhor

não dos teus olhos vívidos libertos
modelares no espelho destes meus
que eu troco pelos olhos que há nos céus
e luzem na amplidão dos meus desertos

da rotina do amor
livrai-me senhor

não dessa boca túmida faminta
não do veneno bom da tua língua
que engana a minha sede a minha míngua
que a mim só ama quem sempre me minta

das verdades do amor
livrai-me senhor

não dessa voz que tanto me maltrata
como a voz das sirenes fez a ulisses
como se a minha rouquidão punisses
com argêntea e suavíssima chibata

das delícias do amor
livrai-me senhor

não dessa fronte limpa que deslumbra
e beijo grato até por existires
não dessa aura não desse arco-íris
do qual desfruto ao menos a penumbra

dos acenos do amor
livrai-me senhor

mas não das tuas mãos frescas purinhas
que me estrangulam saborosamente
que estraçalham meu coração doente
só com o gesto de tocar as minhas

dessa palavra amor
livrai-me senhor

porque de amor de amor eu não preciso enfim
nem dos seus desencantos que hão de vir
do que eu preciso mesmo é de sentir
agora que te tenho ao pé de mim

Anthero Monteiro (inédito)

Espinho, 9 setembro 1998

Deficiência













os pais inconsoláveis
a família inundada de mágoa
o recém-nascido alvo do espanto dos vizinhos
que vêm espreitar o fenómeno

o parto decorreu sem problemas
mas a criança saiu afinal
com defeito de fabrico

cabeça dotada de um sorriso inteligente
tronco escorreito
articulações eficientes

apenas os dedos
os pobres dedos das mãos
não trazem consigo
o habitual
tele-
móvel

Anthero Monteiro (inédito)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A janela



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Foto in
http://www.faraonepvc.com/


Todos os dias na rua
defronte de uma janela.
Que barbaridade a tua,
porque não chegas a ela?
-

O quente sol no horizonte
com todo o peso d'agosto
e eu na rua e eu defronte
da tua janela posto.
-

Dezembro, o mês inclemente,
o sangue nas veias gela,
e eu na rua e eu em frente,
em frente dessa janela.
-

Sempre esta ideia constante!
Ah! meu Deus! Se hoje a visse...
Se ao menos um só instante
a janela hoje se abrisse...
-

E nunca se abre, Senhor!
Abrem-se os lábios num riso;
o botão abre-se em flor;
abre-se o teu paraíso;
-

abre o seu cálice a rosa;
Abre-se o mar tão profundo:
só tu, janela teimosa,
nunca te abriste um segundo.
-

Pois fica sempre fechada
como a noite mais escura,
como a alma condenada,
como negra sepultura.
-

Mas oq ue estou a dizer?
Meu Deus, meu Deus, o que disse!
Ai, que infinito prazer
se a janela hoje se abrisse!
-

Guilherme Braga,
in Correio da Feira, 22/o1/1919

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dia da Mãe


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Gustav Klimt,
Mother and Child


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mãe.
por dentro da mãe o filho habita o mundo, por fora
um sorriso alto, caminhos de sangue.
e eu penso que o nada pode ser outra coisa.
esse azul coagulado no trono de uma reticência etérea,
que se debruça por onde o leite da linguagem
enche um copo. pelas aves envio
o silêncio em pedra. onde os lugares ardem
no seu movimento impossível. construo
a morte que espreita pela própria agonia
e flores, as doces flores que se abrem
até ao centro da estufa do seu umbigo.
seu sonho delicado em círculo, mãe,
consagrando a fala lírica que se funde
em sílabas novas. sem direcções impressas.
e eu penso que o nada pode ser outra coisa.
e eu dei-te nadas no espírito de outra coisa.

Sylvia Beirute
in Uma Casa em Beirute

http://networkedblogs.com/9fOav

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A evocação do chimpanzé



comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e
entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um
cartucho de amendoins e entraste no cinema, sen
támo-nos na mesma fila, lado a lado. eu abri o meu
cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho
de amendoins, com um ruído exactamente igual ao
meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. tu
voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quan
do a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de a
mendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de
amendoins no colo. com a mão direita comecei a le
vantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu
levantaste levemente as nádegas do assento. com
esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendo
ins. assim que os amendoins acabaram de se espal
har no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas es
queci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me
caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme
a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro
me de que passei o tempo quase todo até ao inter
valo recolhendo amendoins. todo o tempo tu
não deixaste de suspirar e de gemer, embora esti
vesse apenas a decorrer um documentário sobre
o narciso e nenhum drama comovente. a voz do lo
cutor lembro-me que dizia: «no começo da primave
ra, quando montes e vales acordam do longo sono
de inverno, centenas e centenas de narcisos ele
vam as douradas cabeças em todas as frestas e a
brigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos
portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da
floresta.» isto, como certamente te lembras, foi
antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quan
tas vezes não deixaste cair e eu não deixei cair
os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu,
de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los
com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da
crítica, era daqueles que se não podem perder.

Alberto Pimenta

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um filme do cómico Chaplin





Café no Boulevard
Saint-Michel - Paris
(Foto in www.
polemikos.com)





A um café do Boulevard Saint-Michel
Chegou um jovem pintor numa chuvosa tarde de Outono.
Bebeu quatro ou cinco cálices de um licor esverdeado
E pôs-se a contar aos ociosos jogadores de bilhar o encontro comovido
Com uma amada de outrora, muito meiga mulher
No momento casada com um rico carniceiro.
«Meus senhores, suplicou, dêem-me depressa, por favor,
O giz que colocam na ponta dos tacos.» Depois, de joelhos,
Tentou com a mão trémula fazer o retrato
Da amada dos dias idos. Mas logo desesperado
Apagou o que fizera, começou de novo,
E de novo parou, e outros traços traçou
Enquanto repetia: «Ainda ontem o sabia».
Clientes tropeçaram, resmungando, nele. O gerente, furioso,
Pegou-o pela gola do casaco e pô-lo no olho da rua. Já no passeio,
Ele abanava a cabeça e ainda perseguia com o giz
os traços fugitivos.

Bertolt Brecht, Poemas,
Lisboa, Editorial Presença, s/d

terça-feira, 12 de outubro de 2010

CINEMA & POESIA na Onda Poética


É já na quinta-feira, dia 14/10, a próxima sessão da ONDA POÉTICA
Aparece na Rua 23 (e não 33...) n.º 271.
Dá-nos a alegria da tua presença no início de mais uma temporada.
Ajuda-nos a transformar esta Onda num pacífico e envolvente tsunámi poético.
Ajuda-nos a perpetuar e a universalizar
a POESIA...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pornocine

Ah, deixem-se de abraços e de beijos,
de grandes planos de frentes e traseiros!
Não se lambam sob a luz cruenta
dos projectores.
Poupem-nos a essas cópulas
tecnicolores.
Na posição de «o missionário», denegrida,
ainda se move muita gente, muita vida.
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
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A gratificação oral, que põe os olhos
do homem iguais aos do carneiro
mal morto,
é barco balanceiro
que encontra, no cinema, alguns escolhos,
por isso não se pisam os canteiros
ao entrar em tal horto.
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

Das cruas sodomias
pé ante pé a câmara se aproxima.
Por ângulos interessantes,
quase se espiritualizam os amantes.
Bertolucci emprega a margarina
no seu escabroso edificante.
Porém, lambe de mais o filme,
lambe de mais a cria,
e é assim - clássico! - que já está na estante...
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

Mais corajoso - e feio - o Pasolini serve-se
do amor com truculência, verve
e poucas ilusões.
Nele, a fornicação é quase sempre assalto
a privilégios.
Talvez por isso não mandem os colégios
ver as suas sessões...
---

E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana!
---

De modo que a câmara aguenta
mais depressa a velatura que a franqueza.
Para que Eros durma em nossa casa
É preciso saber abrir-lhe a cama
E pôr-lhe a mesa...
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E se a Carole não gosta, gosta a Ana!
E viva o sexual fim-de-semana,
eroturismo à portuguesa!
---

Alexandre O'Neill,
Anos 70 Poemas Dispersos,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2005

A lua e Marilyn



Tinha duas faces como a lua
Uma que toda a gente conhece
e outra (a que nunca se vê, a que não reflecte o sol)
e que ninguém (ou quase ninguém) está interessado em conhecer
É esse o teu lado que me fascina
que sempre me fascinou
Pousavas sobre as coisas (uma bicicleta, os lábios de Yves Montand)
como uma borboleta
e não pesavas mais do que isso
e o écran ficava amarelo quando te punhas a sacudir
o pólen que trazias agarrado nas mãos
Eu que sempre gostei de ir ao fundo de tudo
(e acabo por me ficar pela superfície de tudo)
custa-me a entender como é que tu ao passares a língua
pela casca de um fruto carnudo
lhe ficavas logo a conhecer o sabor ácido da polpa

90-60-90…

São essas rigorosamente as medidas do universo
em que te movias
as medidas do pesadelo
que faz com que de manhã o céu acorde com olheiras enormes
e eu todo partido como se tivesse levado uma grande surra
Vejo-te a navegar num mar onde milhares de homens
desaguam desesperadamente
O mar está encapelado
Nem me dou conta que está morta –
Subiram o pano
A sessão da tarde vai começar…
Gostaria de me encontrar depois contigo
num dos manicómios desta cidade
(há vários e vai ser difícil escolher)
Talvez nos pudéssemos dedicar aí a cultivar rosas
amarelas e fragrantes
nos jardins da nossa inconsistência

Jorge de Sousa Braga,

O Poeta Nu, Lisboa, Fenda, 1999

Requiem para Pier Paolo Pasolini












Foto in
o homemquesabiademasiado.blogspot.com


Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa; uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira
página, o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida,
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa a nojenta farsa essa continua.

Eugénio de Andrade

Trabalho todo o dia como um monge...




















Trabalho o dia todo como um monge
e à noite vagueio, como um gato
à cata de amor… Vou sugerir
à Cúria que me santifique.
Com efeito, respondo à mistificação
com a mansidão. Olho com olhos
de imagem os que vão linchar-me.
Observo o meu massacre com a coragem
serena de um sábio. Pareço
sentir ódio, mas escrevo
versos cheios de amor atento.
Estudo a perfídia como um fenómeno
fatal, como se dela não fosse objecto.
Tenho pena dos jovens fascistas,
e aos velhos, que são para mim formas
do mais horrível mal, oponho
apenas a violência da razão.
Passivo como um pássaro que, voando,
tudo vê, e, no seu voo para o céu,
leva no coração a consciência
que não perdoa.

pier paolo pasolini, poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim, 2005

As noites de Casarsa




Os pássaros, presas da existência, cantavam na poeira fina numa trama complicada, incerta, ensurdecedora.

pobres paixões perdidas entre as copas humildes de amoreiras e sabugueiros: e eu como eles nos lugares desertos.

reservados aos puros, aos perdidos, esperava que a noite caísse, que se sentissem em redor os mudos
cheiros a fumo, a miséria alegre que o angelus soasse, velado pelo mistério novo, camponês
no antigo mistério consumado.

foi uma paixão breve. Eram servos aqueles pais e aqueles filhos, tão rudes, para mim, que viviam de religião.

as noites de "casarsa": as suas alegrias austeras eram a monotonia de quem, embora pouco, algo possui

a igreja do meu amor adolescente morrera ao longo dos séculos, e só vivia no antigo e doloroso odor.

Pier Paolo Pasolini, Poesie a Casarse

Na morte de Marilyn




















Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou


Ruy Belo,
Poemas de Ruy Belo ditos por Luís Miguel Cintra,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2.ª ed., 2004

Marilyn










Marilyn Monroe
por
Eve Arnold (1954)
in
escritaseleituraseafins.
blogspot.com



Do mundo antigo e do mundo moderno
permaneceu apenas a beleza, e tu,
pobre irmãzinha menor,
aquela que corre atrás dos irmãos mais velhos,
que ri e chora com eles, para os imitar,
e veste os seus cachecóis,
toca sem ser vista os seus livros, os seus canivetes,
tu irmãzinha mais nova,
aquela beleza que humildemente vestias,
que a tua alma de filha de gente pequena,
nunca soube que possuías,
porque de outro modo nunca teria sido beleza,
desapareceu como ouro pulverizado.

O mundo ensinou-te.
Assim a tua beleza passou a ser dele.
Mas continuavas a ser menina
tola como a antiguidade, cruel como o futuro,
e entre ti e a tua beleza possuída pelo poder
meteu-se toda a estupidez e crueldade do presente.
Tu trazia-la sempre contigo, como um sorriso entre lágrimas.
Impudica por passividade, indecente por obediência.

A obediência requer muitas lágrimas engolidas.
Dar-se aos outros,
olhares demasiado alegres, que pedem piedade.
Desapareceu como uma sombra branca de ouro.
A tua beleza que sobreviveu ao mundo antigo,
exigida pelo mundo futuro,
possuída pelo mundo presente,
transformou-se assim num mal…

Pier Paolo Pasolini
(Tradução de Manuela Vieira)

A Dog's Life - Charlie Chaplin (1919)



1.
Charlie Chaplin, nosso Deus e Senhor, criador de todos
os gags, vendo a nossa rigidez, a nossa militância
nas fileiras do orgulho, enviou-nos o Seu Filho bem
amado, a fim de nos salvar da parvoíce, libertar-nos
da empáfia, pondo à prova a nossa agilidade,
a nossa paciência. Servindo-se de gestos, de cinéticos
enredos, quase sem palavras, Charlot desceu à terra
e pregou pelo exemplo. Assumindo mil disfarces
e parábolas, perseguiu-nos com amor, padeceu no surdo
gelo da nossa indiferença, mostrou-nos com que modos
se suportam os maus tratos, instou-nos a romper
com o barril das enteléquias. Não é um deus de amor,
mas de conflito, o nosso Charlie. Por isso é que
Seu Filho nos soterra sob sacos de centeio, nos derruba
de escadotes, nos atira com tijolos e com tartes,
ananases aguçados; por isso nos abate com tábuas e
martelos, ou nos bole com os nervos nas portas giratórias
dos hotéis. Charlie sabe como a dor nos acrescenta,
sobrepondo novos pisos à morada interior, elevando
o sentimento à dimensão da piedade. Por isso é que
Seu Filho veio a nós, neste século de trevas, disfarçado
de ninguém e decido a instalar a confusão por onde
passa. Pois só da confusão pode nascer a liberdade.

2.
Sabei que Charlot, o nosso Salvador, abomina
sobretudo a servidão. Um só mandamento
exprime a sua doutrina: Não te prendas ao pesado.
Que significa, Não te prendas ao pesado?
Significa: Aceita a mudança e livra-te
de converter em velório o festival dos acidentes.
A vida é uma torrente de oportunidades: moeda
no chão, cigana bonita, perna de presunto,
um par de patins. Atentem nestes exemplos,
concedidos pelo nosso Salvador, e compreendam
que não é nos grandes mas nos pequenos lances
que a vida se joga e se transforma e retribui.
A desmesura é o pecado dos pacóvios.
Se o almoço te trouxe meias-solas, alegra-te
primeiro porque não as roubaste a um mais pobre
do que tu; alegra-te segundo porque foram
de graça, e só o que é de graça tem autêntico
sabor; alegra-te terceiro porque a tarde está de sol,
ou de chuva ou de neve, e nada é importante,
nada é decisivo. Neste circo dos graves,
neste palco rotativo, ri melhor quem ri a fundo
e por mais tempo. Até que a morte, de bigodes
retorcidos, nos apanhe e nos aparte do sorriso,
nos expulse do vestíbulo, nos corra a pontapé,
nos desfaça na cabeça o violino.

José Miguel Silva, in blog Achaques e Remoques

Lana Turner desmaiou!



Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na Califórnia
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Frank O’Hara,
Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço

domingo, 10 de outubro de 2010

A tuberculose da alegria





- - - - - - - - - À Vanessa Redgrave (depois de ver o filme Isadora)


Ah! Vanessa, os teus seios, os teus seios
minúsculas e mágicas laranjas
atravessaram a sala do Coliseu
encheram todas as bocas
foram suspensos nos sorrisos
para casa de toda a gente.

Deixa-me dizer-te que enquanto dançavas
dançavas, dançavas e as pessoas adormeciam
eu vi-te em convulsões de desejo
a lamberes com o corpo
o pénis da poesia.

E vi a cópula desesperada e violenta
e aquela seiva doce e quente
a escorrer-te pele boca, pelos seios
pelas coxas magras esqueléticas

e… ah! grande puta
ainda tiveste forças para te masturbares
com a batuta do camarada Stravinsky.

Talvez pensasses que não te pudessem ver
mas eu vi tudo, juro que vi
por isso continuaste tempo fora
a dançar dentro de mim
essa música de musgo e carne e pele
a que eu gosto de chamar
a tuberculose da alegria.

Álvaro Magalhães,
Entre Uma Morte e Outra

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Cena de um filme talvez para Truffaut















Beethoven está sentado de cabeça levemente inclinada para os joelhos.
Os pares aristocráticos dançam.
O príncipe X olha repetidamente a figura
gloriosamente apagada do artista.
Com desdém.
Profere palavras que Beethoven não ouve mas entende.
Os pares olham furtivamente.
Beethoven levanta-se de súbito e avança, lento,
os olhos dominados por um fulgor único,
capaz de derreter toda a banha orgulhosa dos príncipes da Terra.
Silêncio aterrado.
Beethoven, calmo e possuído do seu Espírito Santo,
diz, em voz baixa, firme, sem demagogia:

PRÍNCIPES, HOUVE, HÁ E HAVERÁ MUITOS.
BEETHOVEN HÁ SÓ UM.

O salão despeja-se, lentamente.
Beethoven emborca três copos seguidos.


Levi Condinho, Roteiro Cego

Como num filme







Foto in
omundoeumblog.
blogspot.com





uma mulher com seus passos sonâmbulos
numa rua deserta de lisboa,
tendo, como num filme, a lua a modelá-la,
a acetinar um halo em sua pele

de calcário e centeio e a alucinar a noite
entre cheiros de sombra e lúcia-lima,
quando de uma janela se entreabriam
espumas de uma música impossível,

circunstâncias anódinas impressas
algures na alma, rimando e desrimando.
era helena de tróia, briseida, pentesileia,
uma figura do desejo outra vez iluminada,

causadora de mortes, cóleras, poemas,
tumultos da paixão, no último olhar?
houve sempre uma voz rouca e abandonada
para falar de vida e desespero,

num blues, num fado, num tango, num flamenco,
por esquinas e bares, é quando fumo e álcool
têm um travo certeiro na garganta
e os olhos um fulgor líquido intenso.

é quando a solidão se encorpa nas palavras
e as palavras se encadeiam no destino
e o destino infeliz pode cantar-se então
e as metáforas têm um rumor de rosas enlouquecidas.

Vasco Graça Moura, Poesia 1997 – 2000,
Círculo de Leitores, 2001

Balada do amor através das idades













Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Cinema












Foto in
leocinemaevideo.
blogspost.com


I

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

III

Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua aquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético,
Braga/Coimbra, Angelus Novus, 1996

Humphrey Bogart



Era a cara que tinha e foi-se embora
mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
devassa-nos dá nome mesmo à mágoa.
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
não é verdade meu irmão humphrey bogart?

Ruy Belo, Homem de Palavra(s)

Esplendor na relva



Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquele que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

Ruy Belo, Homem de Palavra(s)

Filmes pornográficos









Foto in
tabernaculonet.
com.br


Estes que não actores se alugam para filmes
da mais brutal pornografia crua
em que não representam mas só fazem
tudo o que possa imaginar-se e a sério
com a máquina espreitando bem de perto
por ângulos recônditos os gestos,
os orifícios penetrados e
quanto os penetra até que o esperma venha,
por certo são dos que prazer mais sentem
sabendo que afinal se exibem para tantos olhos.
São máquinas de sexo. Às vezes belas,
sem dúvida atraentes muitas delas,
imagens escolhidas como sonhos de
que possa ser a máquina perfeita.
Mas na verdade sentirão prazer?
E na verdade o dão no que se mostram?
Tão máquinas apenas – sem de humano
não digo só que o toque da carícia abrupta
mas mesmo uma atenção de sábio acerto
profissional de orgasmos a filmar –
que nada resta destes actos vistos
sequer desse animal mais que espontâneo
em corpos se afirmando que não falam
mas se penetram ao acaso dados.
Nada de humano ou de animal humano
flutua neste ou na imagem deles:
até porque são vistos como nunca vistos
os actos cometidos ou espreitados,
e mesmo o esperma do interrupto coito
(para quem paga estar seguro de
não ser fingido nada o que foi feito)
ejaculado ou vendo-se escorrer
do corpo mais passivo numa cena
é como imitação que nada inunda
senão o olhar tornado a mesma máquina
que tão de perto o foi filmar ampliado.
Horrível é tudo isto. Mas no entanto,
mecânico e brutal, sem graça nem beleza,
roubando ao imaginar quanto é sentido
porque se amor se faz mal pode ver-se,
isto possui uma nobreza estranha
e uma fraqueza nua que nenhum amor
a si mesmo confessa: e contradiz
quanto mistério exista, que outro mais profundo
assim nos revela: actos de amor
são tantos actos de amor quanto são actos
de actores ocasionais para ele feitos
que todos somos desde que ele se faça.

Jorge de Sena, Antologia Poética

Cinema Rivoli











Foto in

vivercomlight.blosgspot.com


Por dez tostões subíamos à galeria.
Do alto víamos as divas, aprendíamos
a beijar - mal, é evidente: o código
Heyes lá estava para nos impedir
de estremecer a fundo -. A Garbo punha
nas nossas namoradas olhares lânguidos.
As divas eram todas grandes damas,
nunca se despiam sob o olho guloso e,
mesmo na banheira,
apareciam sob uma espessa cortina
de espuma: a inveja dos que em casa
se lavavam com sabão azul. E havia
(coisa fina!) os que se masturbavam
com o olho nas pernas da Marlene. Lia-se
“O Cinéfilo”, a vida íntima das estrelas
ganhavam-se ideias para os bilhetinhos
que se passavam para as mãos das miúdas.
As aulas começavam à segunda-feira
com a briga dos adeptos
(ou já seriam fãs?) das duas “rivais”.
Depois a professora entrava, encavalitava
os óculos de aro metálico e dizia: Meninos,
hoje vamos dar... Ainda estávamos longe
da época Ava Gardner, da mítica Marilyn,
das pernas marlénicas da Cyd Charisse...
Longe das audácias dos anos noventa: mamas e
rabos, fuck explícito, palavrões a granel.
Cada geração inventa o seu reco-reco...

Egito Gonçalves

Ave Maria











Foto in oglobo.globo.com


Mães da América
deixem os vossos filhos ir ao cinema!
tirem-nos de casa sem eles saberem o que planeais
é certo que o ar livre é bom para o corpo
mas quanto à alma
que cresce na escuridão, adornada por imagens prateadas
e quando envelhecerdes como tendes de envelhecer
não vos hão-de odiar
nem criticar nem hão-de saber
estarão nalgum país encantador
que viram pela primeira vez numa tarde de Sábado ou de gazeta

talvez até vos agradeçam
pela primeira experiência sexual
que só custou um quarto de dólar
e não perturbou a paz do lar
saberão de onde vêm os rebuçados
e os sacos de pipocas gratuitos
tão gratuitos como sair antes de o filme acabar
com um estranho agradável cujo apartamento é no
Céu na Av. Terra
perto da Ponte Williamsburg
ó mães tereis feito tão felizes
os putos porque se ninguém os apanhar no cinema
não aprenderão a diferença
e se isso acontecer será puro gozo
e de qualquer forma ter-se-ão divertido a valer
em vez de vagabundearem no pátio
ou no quarto deles
odiando-vos
prematuramente pois que ainda não fizestes nada horrivelmente
maldoso
excepto mantê-los afastados das alegrias mais sombrias
o que é imperdoável
portanto não me culpem se não seguirem este conselho
e a família se desunir
e os vossos filhos ficarem velhos e cegos frente à televisão
vendo
filmes que não os deixastes ver quando eram novos

Frank O’Hara,
Vinte e cinco poemas à hora do almoço,
tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 1995

Canção de embalar








Greta Garbo in
geraldofreire.uol.com.br






"Nada a fazer, minha rica. O menino dorme.
Tudo o mais acabou."
Mário de Sá-Carneiro


arranja-me bilhetes para o cinema mãe
quero ver a greta garbo no écran
descansar na ilusão daquele rosto frio
adormecer abraçado àquela imagem

arrenda-me uma casa na consolação
para passar férias com o livro do cesário
a melancolia da água mesmo à mão
para passar férias com a dor no coração

leva-me pão à boca mãe molhado em leite
pendura-me no varal da roupa branca
e para longe sopra este coração depressa ardido
depressa mãe sopra a cinza do meu peito

urgentemente peço que me acabes
que repitas o parto no sentido inverso
urgentemente peço que abras uma cova no teu corpo
para mim
e desce por favor a persiana traz-me gin

José Ricardo Nunes, Na Linha Divisória
(Grande Prémio Eugénio de Andrade, 2000)

Cinema: "Je t'aime, je t'aime" em Pataias




enquanto as angústias resnaisianas
vão escorregando pela tela
os operários da Cibra
comem pevides na plateia

e eu
fico a meio caminho
entre a angústia colorida
e o grito das pevides que estalam.

Levi Condinho, Para Que Alguns Me Possam Amar

Cá estou sentado








Foto in
blog CULTucando


Cá estou sentado
sozinho de todo
no cinema
e apetecia-me
estar morto
com lágrimas
nos olhos,
durante anos seguidos,
e os dois braços
apoiados cada um do seu lado da cadeira.

Wolf Wondratschek, Kino
(Alemanha, 1943)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ida ao cinema















Foto in: ante-el-post.weblog.com.pt


Quando era miúdo ia muito
ao cinema, todos os domingos às duas
havia uma «sessão juvenil»
no «Capitólio» com aquele relógio
ao lado do écran, e nós berrávamos,
pateávamos e assobiávamos quando
o ponteiro saltava para as duas e um e
a fita ainda não tinha começado. Depois
quis ser crescido e fui
um sábado à sessão para adultos,
embora ainda não tivesse feito os dezasseis.
Nesse filme vi a Rita Hayworth
na tina do banho, depois de o Gary Cooper
a ter salvo de um bando de índios
malucos. Gostava de a ter visto
nua, mas não lhe vi mais que
uma faixa do soutien.
No domingo seguinte voltei
à «sessão juvenil», e às duas e um
lá estava eu a berrar, a patear
e a assobiar, porque a fita
ainda não tinha começado.

Jurgen Theobaldy, O Bosque Sagrado
ed. Gota de Água, trad. de João Barrento

A lua foi ao cinema














Imagem in
www.best-cine.com


A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!

Paulo Leminski

Novo tema: CINEMA & POESIA



















Imagem in
www.consciencia.net/artes/cinema


Os poetas falam muitas vezes das outras artes: do desenho e da pintura, da arquitectura, da fotografia, etc. Do cinema também.
A este género poético, que descreve e interpreta outras obras de arte, dá-se a designação de poesia ecfrástica.

Neste arquivo temático, damos agora o lugar a essa relação entre a poesia e o cinema. Os poetas recordam as fitas que mais os impressionaram, falam de salas, de cenas, de personagens e de artistas e transportam para o título do poema alguns títulos de filmes.

Vamos a isso:

CINEMA & POESIA.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Esboço outonal








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Foto
A.M.



sentado na esplanada
vejo passar a indolência de outubro
lá vai doirando os plátanos com a mesma mansidão
das folhas submissas a umas mãos de brisa

roubo à tarde a suavidade das crianças
que sorriem aos dias por vir
na crença inocente de que tardes como esta
basta um beijo de uns lábios cândidos
para multiplicá-las

bebo o mosto que ferve
nas mãos dadas dos namorados
e mastigo esta infinita concórdia
que habita mesmo nas efémeras
saudações dos transeuntes

chego mesmo a acreditar
que o meu poema resvala ao ritmo da tarde
e se deixa conduzir sem esforço
sem assentimento e sem recusa
para o verso final de um poema
que nunca deveria chegar ao
----------------------------- fim


Anthero Monteiro
(inédito)