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Foto
A.M.
sentado na esplanada
vejo passar a indolência de outubro
lá vai doirando os plátanos com a mesma mansidão
das folhas submissas a umas mãos de brisa
roubo à tarde a suavidade das crianças
que sorriem aos dias por vir
na crença inocente de que tardes como esta
basta um beijo de uns lábios cândidos
para multiplicá-las
bebo o mosto que ferve
nas mãos dadas dos namorados
e mastigo esta infinita concórdia
que habita mesmo nas efémeras
saudações dos transeuntes
chego mesmo a acreditar
que o meu poema resvala ao ritmo da tarde
e se deixa conduzir sem esforço
sem assentimento e sem recusa
para o verso final de um poema
que nunca deveria chegar ao
----------------------------- fim
Anthero Monteiro
(inédito)