quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Molembú





Olinda Beja



Molembu minha rocinha
meu perfume de untué
minha riqueza perdida
num grãozinho de café

meu cacaueiro d'esperança
minha jaca abençoada
minha mangueira, meu jamble
minha cola desejada

minha amiga mandioca
entre o sisal escondida
minha banana meu pão
sustento da nossa vida

minha palmeira materna
meu coqueiro secular
minha fruteira d'encanto
descanso do meu olhar

Molembu minha rocinha
meu capim, minha floresta
meus passarinhos cantando
numa grinalda de festa

meu unkuêtê, minha rosa
de madeira e porcelana
meu antúrio, minha avenca
minha doçura de cana

tudo tem minha rocinha
abundância e qualidade
no distrito de Mé Zochi
para os lados da Trindade.

Maria Olinda Beja, Bô Tendê?, Aveiro, 1996

Nasceu em São Tomé e Príncipe, mas veio para Portugal aos 2 anos de idade e suponho que ainda reside em Viseu, apesar de ser professora do Ensino Secundário e ter que se sujeitar às colocações em qualquer ponto do país.
É licencidada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) na Universidade do Porto.
Esteve na Onda Poética numa noite de Inverno de 2003, disse alguns dos seus poemas e de outros, cantou e encantou: é uma show-woman.Este seu belo poeminha foi para matar as saudades...

Glossário:

Bô tendê? - Compreendes?
Cola - árvore de fruto a partir da qual se fazem refrigerantes
Jaca - fruta da jaqueira
Jamblê - árvore de fruto já muito rara
Untué - fruto extremamente viscoso, muito apreciado pelas crianças

Castigo pró comboio malandro

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Carlos Jorge, da Onda Poética,

lendo, como só ele sabe, este poema de António Jacinto,
no Quarto Crescente de 26 de Novembro último, em S. Paio de Oleiros, dedicado à comemoração do
100.º aniversário da Linha do Vale do Vouga.



passa
passa sempre com a força dele
ué ué ué
hii hii hii
te-quem-tem te-que-tem te-quem-tem

o comboio malandro
passa

Nas janelas muita gente
ai bô viaje
adeujo homéé
n'ganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda pra vender

hii hii hii
aquele vagon de grades tem bois
muú muú muú

tem outro
igual como este dos bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

Tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta como é criança
"Mulonde iá késsua uádibalé
uádibalé uádibalé..."
Esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

Comboio malandro
O fogo que sai no corpo dele
Vai no capim e queima
Vai nas casas dos pretos e queima
Esse comboio malandro
Já queimou o meu milho

Se na lavra do milho tem pacacas
Eu faço armadilhas no chão,
Se na lavra tem kiombos
Eu tiro a espingarda de kimbundo
E mato neles
Mas se vai lá fogo do malandro
- Deixa!-
Ué ué ué
Te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
Só fica fumo,
Muito fumo mesmo.

Mas espera só
Quando esse comboio malandro descarrilar
E os brancos chamar os pretos pra empurrar
Eu vou
Mas não empurro
- Nem com chicote -
Finjo só que faço forca
Aka!

Comboio malandro
Você vai ver só o castigo
Vai dormir mesmo no meio do caminho.


António Jacinto
(Angola, 1924 - 1991)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Liturgia






José Agostinho Baptista
in www.jabaptista.com




Vi, nas árvores do paraíso,
inacessíveis frutos sem nome, amaldiçoados pelas
tribos.
A profecia cumpre-se:
os joelhos pousados nas tábuas gastas, o incenso
que atravessa as galerias, a prece,
as contas de um rosário fervorosamente repetido,
nada podem resgatar.
Junto à devassidão ou aos pés do altar,
o martírio, o corpo trespassado,
as águas santas do espanto, marcam a fronte:
condenados,
entramos na escuridão, no labirinto de luto
que dezembro trouxe à nossa vida,
e a palavra terrível ouve-se sobre o sepulcro,
e a chuva,
e o eco das pás escavando, abrindo
a casa definitiva,
não se sabe em que celeiro onde os amantes
se deitavam a ouvir o coração,
as suas marés vivas a subir por dentro.
E o trigo batia levemente na canção do desejo.
E eu era aquele que chegava depois do trigo,
carregando a cruz.

José Agostinho Baptista, Agora e na Hora da Nossa Morte,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1998

Ver Bibliobiografia deste audor madeirense aqui

Amolador de facas com pombos

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Hoje o mar está
uma lâmina azul. Os pombos do
Senhor Campos estão a dar a sua habitual volta matutina
de inspecção. Na varanda,

a regar os vasos, atravessa-me de jarra na mão
aquela frase melódica. Cinco notas, aquelas flautas
de madeira! É o nosso amolador de facas

anunciando o seu negócio pelas ruas. Ouvimo-lo
todas as quinzenas e a meio de cada manhã o tempo
pára. Tem mais de sonhador

que de comerciante. Quem lhe der a melhor
faca de cortar pão fica com ela
reduzida a um espeto imprestável na demanda

de conseguir um fio que corte em fatias
um cabelo. Ele é o que de mais perigoso pode ser
um homem, um perfeccionista - como aliás

toda a gente pode ouvir. Quantas
tonalidades poderão junstar-se
numa escala de cinco notas? Contudo ele

nunca se repete. De cada vez desdobra-se
subindo ou descendo, perfeita em si mesma,
queixosamente diferente. Os pombos volteiam

por sobre o brilho da baía, durante segundos
invisíveis quando se juntam em uníssono,
reaparecendo agrupados como um esquadrão

de amadores com dois em pânico
atrás deles. Aquelas notas mágicas. Põem-nos
os pêlos do pescoço

em pé. Tantos
mundos que este homem chora, tantas civilizações
caídas, tantas idades

de ouro denegridas. Outra vez, perfeito! Traz
as lágrimas aos olhos. As pessoas saem a correr
das casas com facas. Tudo

baloiça. A água cria depósito
na minha jarra. A baía estilhaça-se
como uma vidraça. Mas os cristais

são os risos. Lá em baixo
brinca-se, pedindo a restituição
das tesouras-espetos meio afiadas

ao músico frenético
que sorri por entre o suor
"por favor, só mais uma revoluçãozinha".

......................................................................

Os pombos do Senhor Campos juntaram
o seu adejar em direcção a casa. O seu cu-currú
é como um sonho de coisas domésticas

(Lá estão outra vez aquelas cinco notas no bairro ao lado).


Landeg White, Superfícies e Interiores,
Guimarães, Hélio Osvaldo Alves (tradução e edição), 1995

O autor nasceu no sul do País de Gales. Teve várias ocupações em Trinidad, no Malawi, na Serra Leoa e na Zâmbia. Leccionou na Universidade de York, no Reino Unido. Casado com uma moçambicana, viveu em Cascais, onde esteve a preparar uma tradução de Os Lusíadas para a língua inglesa.

Foto:
Amolador de facas in
spyvia.kouaa-blog.com

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.


Jorge de Sena
, Obras de Jorge de Sena - Antologia Poética,
Porto, Edições ASA, 1999, 1.ª ed.

Só na minha cabeça



















Eu aqui
preocupado
lixado
torturado
di - la - ce - ra - do
este bicho a roer-me de dentro p'ra fora
ou de fora p'ra dentro
- já não sei bem onde tudo começa -
e tu a dizeres-me
que isto só está na minha cabeça
que isto só está na minha cabeça
que isto só está na minha cabeça

queres tu dizer
que aquilo que me faz assim triste
nem sequer existe
embora pareça
mas lá porque não entrou na tua cabeça
e nela não se aninha
o certo é que entrou na minha

e fico ainda mais
preocupado
lixado
torturado
di - la - ce - ra - do
este bicho a acabar de roer-me
sem que me apeteça
e tu a tentares convencer-me
que este verme
só existe na minha cabeça
só existe na minha cabeça
só existe na minha cabeça

é simpática essa tua preocupação
pela minha preocupação
já quase me persuadiste
mas depois volto a pensar
que se é preciso que se reconheça
que tudo só existe na minha cabeça
é porque de facto existe

deixa-me lá ficar
preocupado
lixado
torturado
di - la - ce - ra - do
para que eu não esqueça
que uma doença como essa
este mal
existe afinal
ainda que seja apenas na minha cabeça
ainda que seja apenas na minha cabeça
ainda que seja apenas na minha cabeça

não insistas comigo
amigo
não penses
que me convences
ou que esse teu pensar se me insinua
convenceres-me seria
pores na minha cabeça
o que tens na tua

de forma que tenho toda a razão em estar
preocupado
lixado
torturado
di - la - ce - ra - do
não queiras que eu endoideça
com a troca da minha pela tua cabeça
é bom que tudo assim permaneça
tu com a tua cabeça
eu com a minha cabeça
sim eu com a minha cabeça


Anthero Monteiro, Desesperânsia,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2003

Foto de Ondina Dominguez: o autor no Bar Dominó (Casino de Espinho),
onde, durante anos, decorreram as sessões da Onda Poética, que coordena.

Cabeça


Cabeça, ó minha página sempre outra,
folha de um livro que é todos os livros,
livro em branco aonde escrevo e emendo e onde às vezes
rasuro, rasuro, até provocar ferida. Cabeça,
pequeno mundo desdobrável como um mapa, como um filme, uma fita gravada, pequena cabeça que tantas vezes gostava de enfeitar com penas como um índio,
que tantas vezes sinto coroada de espinhos por dentro,
ferindo, rasgando, inutilizando, doendo e doendo e doendo.
Umas vezes sinto-a como a deve ter sentido Alexandre
com o odor do vento e o perfume do louro; outras,
como um monarca carregando nela o ouro jovem de uma coroa,
e o medo de uma coroa e o peso de uma coroa.
A minha cabeça, uma qualquer cabeça, deve sentir-se assim:
de mármore ou de luz, de palha ou de granito, vazia,
oca, cheia a transbordar de coisas que não sabe, de
coisas que não quer, querendo coisas que não há, sonhando com gente e dias tão reais, acordando o passado,
abrindo écrans para o futuro. Cabeça, ó minha cabeça
pouco minha, mais vossa, mais tua, mais de todas
as coisas. Que falta fizeste a Luís XVI, que falta fazes quando me exalto
e te perco e é como se tivesse mais, muito mais de quarenta mil anos
e não soubesses nada, ou do nada soubesses muito pouco,
um risco, uma cor, um movimento, e uma paisagem
que não soubeste transportar para o futuro. Agarro-me
à cabeça: por que fui eu escrever um texto assim,
porquê, porquê, onde teria eu, meu Deus, onde teria eu
a minha cabeça?

Joaquim Pessoa, Vou-me Embora de Mim,
Lisboa, Hugin Editores, 2000

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Possibilidades


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Wislawa Szymborska
in expo2008poland.pl




Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulhas e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente

a outra confiante em demasia.

Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados

aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em bicha para o número
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.


Wislawa Szymborska, Paisagem com Grão de Areia, Lisboa, Relógio d'Água, 1998


Poeta polaca, Nobel da Literatura de 1996.

Canto e alegro-me...


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Antonio Gala
Foto in blogs.diariosur.es



Canto e alegro-me. Olho
a rua entardecida
e os parques de ouro
na passada de novembro.
A luz, desorientada,
resvala pelo passeio como uma lagartixa.
Mas canto e alegro-me, porque esta noite
ainda me afligiam lástimas de amor
sem saber bem porquê.

Canto e alegro-me. Há dias
que deviam prender-se como bosques de pinheiros
para evitar que nos aproximássemos.
Porque rapidamente, uma manhã, abres
os olhos e encontras tudo ardente
e queimam as carícias.
Por isso canto hoje
e por isso me alegro.
Porque estes lábios hão-se ser cinza
e sobre este peito
nenhuma outra fronte
se há-de reclinar.

Canto e alegro-me. Não quero mentir a mim mesmo:
tudo o que possuo
está ao alcance da minha mão agora.
Se não o tomo e sofro,
é porque o sofrimento me embeleza
esta tarde de outono em que vivo.
Por isso cantarei ainda amanhã
e depois de amanhã
a minha voz será aquele vazio de silêncio
que se faz de repente
na conversação de dois amantes.

Canto e alegro-me e essa é a razão
do meu júbilo. Podem
ferir-me, destroçar-me espadas, garras,
perfurar-me a sede de um lado ao outro:
depressa a morte me imporá as suas mãos,
nomear-me-á seu filho predilecto
e já não ficará de quanto fui
mais que um pouco de frio e este canto.

Antonio Gala, Poemas de Amor, Barcelona, Editorial Planeta, 1997 (2.ª edição)
Tradução de Anthero Monteiro

Poeta, novelista, dramaturgo, nasceu em 1936 próximo de Ciudad Real, mas mudou-se logo a seguir para Córdova, pelo que é considerado um escritor andaluz. É autor premiadísismo não só no campo da poesia, mas também pelo seu contributo para o teatro e para a ópera.
O seu sucesso como poeta pode aquilatar-se, por exemplo, pelo facto de os Poemas de Amor, de onde retirei este texto para tradução, ter tido duas edições no mesmo mês de Abril de 1997.
Terá sido mais ou menos nessa altura que perguntei numa livraria da Galiza qual era, então, o poeta mais conhecido em Espanha. Responderam-me: Antonio Gala. E não foi, certamente (ainda nem se falava nele), por se parecer tanto fisicamente com o negregado George W. Bush.

The temperaments / Os temperamentos

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Ezra Pound


in www. famouspoetsandpoems.com


Nine adulteries, 12 liaisons, 64 fornications and something approching a rape
Rest nightly upon the soul of our delicate friend Florialis,
And yet the man is so quiet and reserved in demeanour
That he passes for both bloodless and sexless.
Bastididis, on the contrary, who both talks and writes of nothing save copulation,
Has become the father of twins,
But he accomplished this feat at some cost;
He had to be four times cuckold.

Ezra Pound, Personae, The Shorter Poems,
Edition of Lea Baechler & A. Walton Litz, New York, New Directions Books, 1990
(www.npublishing.com in http://books.google.pt)


Nove adultérios, 12 aventuras, 64 fodas e algo parecido com uma violação
pesam todas as noites na alma do nosso delicado amigo Florialis,
e no entanto o homem tem um comportamento tão calmo e reservado
que passa por não ter sangue nem sexo.
Bastidides, pelo contrário, que só fala e escreve sobre a cópula,
acaba de ser pai de gémeos,
mas não realizou este feito sem os seus custos:
foi obrigado a ser quatro vezes corno.

Tradução de Anthero Monteiro

Ezra Pound nasceu em Hailey - Idaho (E.U.A.) em 1885, mas estabeleceu-se na Europa (Itália e Inglaterra) a partir de 1906. Aí promoveu grandes movimentos de vanguarda, como o imaginismo e o vorticismo. No fim da segunda guerra mundial, foi acusado de alta traição, detido em Itália pelos aliados e internado, em 1946, num sanatório mental em Washington, como paranóico.
Para além de
Personae (1926), uma colectânea de poemas breves, escreveu ainda os célebres Cantos (1970), considerada a epopeia em língua inglesa mais importante do século XX e à qual consagrou 45 anos da sua vida.
(
Cf. Javier Calvo in Ezra Pound, Disfraces, Madrid, Mondadori, 1999)

Saudação a Walt Whitman (excerto)


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Walt Whitman
in www.kued.org



Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.

Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a adversidade das coisas,
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!

Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contágio a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as ações, bacanal de todos os propósitos,
Irmão gêmeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable de flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura! incubo de todos os gestos
Espasmo pra dentro de todos os objetos-força,
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares...

Quantas vezes eu beijo o teu retrato!
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá —,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito

Uma ereção abstrata e indireta no fundo da minha alma.

Nada do engageant em ti, mas ciclópico e musculoso,
Mas perante o Universo a tua atitude era de mulher,
E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo.

Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
(...)

Álvaro de Campos, in Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2007

Ó capitão! Meu capitão!

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Retrato de Abraham Lincoln
(in
www.topicsites.com)


Oh capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prémio que buscávamos está ganho,
O porto está próximo, oiço os sinos, toda a gente está exultante,
Enquanto seguem com os olhos a firme quilha, o ameaçador e temerário navio:
Mas oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.

Oh capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te, a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas, para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado, frio e morto.

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos eimóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objectivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde o meu capitão jaz,
Tombado, frio, morto.

Walt Whitman, "Recordações do Presidente Lincoln" in Folhas de Erva,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2006 (tradução de Maria de Lurdes Guimarães)

Este é, sem dúvida, o mais conhecido poema de Walt Whitman, uma comovida homenagem a Lincoln, assassinado num teatro em 14 de Abril de 1865.
Whitman (1819-1892) é o mais importante poeta norte-americano, um dos principais poetas da modernidade e, afinal, de todos os tempos e lugares. A primeira versão da seu único livro de poesia,
Leaves of Grass, considerado a Bíblia da democracia americana, foi publicada em 1855. Em Portugal, o interesse pelo poeta nasceu com Fernando Pessoa, que o considerava «seu irmão em Universo», mas só a partir dos anos 70 esse interesse entra nas nossas universidades. Nos próprios Estados Unidos, apesar da obra de Whitman ser das mais lidas e investigadas, os currículos escolares raramente a incluem, por razões de éticas.
(Cf. Manuel Frias Martins, «O canto geral da Humanidade» in Expresso de 18/04/2003)

domingo, 28 de dezembro de 2008

A flor e a náusea



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Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma conta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade, Antologia Poética,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001

Em 2000, a Folha de S. Paulo listou vários poemas de Drummond entre os melhores 100 poemas brasileiros de todos os tempos: "Máquina do Mundo", "Áporo", "Campo de Flores" e este, que aqui reproduzimos, "A Flor a Náusea".Drummond é, de facto, um dos maiores poetas da nossa língua, até porque a maior parte dos seus textos sabem a Português de Portugal. Não é por isso que são os melhores, mas assim a sua leitura torna-se mais fácil.

Foto in atuleiros.weblog.com.pt


A senhora Lázaro


Voltei a fazê-lo.
Uma vez em cada dez anos
Lá consigo -

Uma espécie de milagre ambulante, a minha pele
Brilhante como a de um candeeiro nazi,
O meu pé direito

Um pisa papéis,
O meu rosto vulgar, fino
E de judia cepa.

Apaga-me da toalha
Oh inimigo meu.
Meto medo a alguém?

O nariz, as covas dos olhos, os dentes todos?
O hálito acre
Desaparecerá um dia.

Daqui a pouco, daqui a pouco a carne
Que a sepultura comeu ficará
À vontade comigo como se em sua casa.

Mas eu sou uma mulher optimista.
Só tenho trinta anos.
E como os gatos tenho sete vidas para viver.

Esta é a Número Três.
Que porcaria de vida
A aniquilar todos os dez anos.

Quantos milhões de filamentos.
Uma multidão a roer amendoins
Empurra-se para ver

Sôfregos a despirem-me-
Que fantástico strip tease.
Meus senhores, minhas senhoras

Estas são as minhas mãos
Os meus joelhos.
Talvez eu seja apenas pele e osso,

Contudo, sou precisamente a mesma mulher.
A primeira vez foi aos dez anos.
Foi um acidente.

Da segunda vez eu quis mesmo
Ir até ao fim e nunca mais regressar
Voltei fechada

Como uma concha.
Tiveram de me chamar e voltar a chamar
E arrancar de mim os vermes como se pérolas pegajosas.

Morrer,
É uma arte, como outra coisa qualquer.
E eu executo-a excepcionalmente bem.

Executo-a de forma a parecer-se com o inferno.
Executo-a de forma a parecer real.
Acho que se podia dizer que tenho um dom.

É bastante fácil executá-la numa cela.
É bastante fácil executá-la e ficar como se nada fosse.
É cena de teatro

Regressar em pleno dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo brutal
E divertido grito:
-
Um milagre!
Que me põe K.O.
Há que pagar.

Para ver as minha cicatrizes,há que pagar
Para ouvir o meu coração -
É assim mesmo.

Há que pagar, e pagar bem.
Por uma palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue

Ou por um bocado do meu cabelo ou da minha roupa
Vá lá então, então, Herr Doktor.
Então Herr inimigo.

Sou o seu opus,
Sou a sua jóia de estimação,
Um bébé todo em ouro

Que se funde como um grito.
Volto-me e ardo.
Não pense que subestimo as suas grandes preocupações.

Cinza, cinza -
Mexe e atiça.
Carne, osso, nada mais ali existe -

Um pedaço de sabonete,
Uma aliança de casamento,
A coroa em ouro de um dente.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Tende cuidado
muito cuidado.

Renasço das cinzas
Com o meu cabelo fulvo
E devoro homens como faço ao ar.

Sylvia Plath, Ariel,
Lisboa, Relógio dÁgua, 1996

Nasceu em Boston, Estados Unidos, em 1932. Publicou o primeiro poema aos 8 anos. Com 21 anos, faz a promeira tentativa de suicídio e é internada. Casa em 1956 com o poeta inglês Ted Hughes. Em 1960, publica os eu primeiro livro de poesia, The Colossus and other Poems. Em 1961, escreve The Bell Jarr (A Campânula de Vidro, Assírio & Alvim, 1988) que foi editado só em 1963 sob o pseudónimo de Victoria Lucas. Em 1962, o casal separa-se. No dia 11 de Fevereiro do ano seguinte, depois de preparar o pequeno almoço para os dois filhos, Sylvia fecha-se na cozinha, calafeta todas as janelas e portas e abre o gás do fogão, sobre o qual se debruça. A Senhora Lázaro bem dissera neste poema que executava excepcionalmente bem a arte de morrer.

Foto in www.assirio.com
Ouvir Sylvia Plath a ler este seu poema em inglês: aqui

sábado, 27 de dezembro de 2008

Apelo de urgência

De Rutland Sq., Boston, Massachussets, mandaste as boas-festas.
Depois, vi-te em Bruxelas, na Grand'Place, mas nada foi possível,
porque conduzias uma excursão turística
e o autocarro
ia partir, na hora.

Em Ruão, encontrámo-nos, na Rue de L'Horloge.
E em Paris, na esplanada de um café, em Saint André-des-Arts.
Mas nada dissemos um ao outro
porque tivemos medo de que nenhum de nós fosse um ou o outro.

Em Ottignies, nevava,
vi passar o teu rosto colado ao vidro da carruagem de
segunda classe da composição
da linha do outro lado.
Eu ia para Gent.
E tu?
Direction Liège?

De então para cá, tenho-te visto, juro,
atravessando uma rua qualquer de uma qualquer cidade
de qualquer documentário cinematográfico
ou, súbito, ao passar,
numa qualquer fotografia de jornal.

Entretanto,
este breve postal de Tientsin :
«From China, with love».

E não assinas Laura,
não te chamas Beatriz
nem Annabelle Lee.

Sei, porém, o teu nome e o teu corpo,
mas não sei onde moras
(quem o sabe?).

E por isso te peço que, se um dia
(extremamente improvável)
este apelo de urgência
chegar às tuas mãos,
cair sob os teus olhos,
tombar no teu coração,
então que escrevas, escrevas logo, prontamente,
dizendo o teu país,
a tua cidade,
a tua morada.

Porque eu voltarei a cobrir a cabeça de cinzas,
calçarei as sandálias,
tomarei de novo o meu bastão de buxo,
abraçarei os parentes e os amigos
e partirei à procura
do infinitamente inefável.

Emanuel Félix, A Viagem Possível, Lisboa, Vega, 1993, 2.ª ed
Poeta açoriano, natural de Angra do Heroísmo (1936), onde faleceu em 2004, foi considerado por Álamo de Oliveira "poeta perfeito".
Ler sobre ele in http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/efelix.htm

Cópula

No prado, onde as vacas imóveis,
esperam a passagem do comboio, ouve-se um ruído
de ramagens fustigadas pelo vento. Não sei se
é o outono que chega, ou se o verão ainda resiste
à chegada da breve estação. No entanto,
o comboio demora-se; e a vaca que não quis
esperar parou no meio da linha, como uma raiz
metafisica que se meteu na terra e a prendeu,
impedindo-a de fugir à investida da locomotiva.
(O resultado, meses depois,
foi um bezerro a vapor).

-

Nuno Júdice, Poesia Reunida 1967-2000,

Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

Grandes são os desertos...

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

-

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

-

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

-

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo um cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

-

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ter que ser assim.

-

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

-

Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

-

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

-

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

-

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.

-
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

-

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

-

-

Álvaro de Campos in Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,

Casais de Mem Martins, Rio de Mouro, Círculo de Leitores e Richard Zenith, 2007


«Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!»
Bastava esta frase para escolhermos o poema como um dos melhores da nossa literatura...