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quarta-feira, 30 de março de 2011

Outra viagem



Já nos campos de Jaén
amanhece. O comboio,
nos seus luzentes carris,
vai tragando matagais,
alcacéis,
terraplenos, pedregais,
olivedos, casarios,
pradarias e cardais,
montes e vales sombrios.
No postigo embaciado,
passa esta dobadoira
do campo de primavera.
A luz do tecto cintila
do meu vagão de terceira.
Entre grandes nuvens brancas,
ouro e trigo;
E a névoa da manhã
a fugir pelos barrancos.
Este insone sonho meu!
Este frio
de acordar sem ter dormido!
Ressoante,
arquejante,
o comboio. E o campo voa.
Na minha frente, um senhor
sob a manta adormecido;
e um frade; e um caçador
- o cão aos pés estendido.
Contemplo a minha bagagem,
meu velho saco de couro;
e recordo outra viagem
até às terras do Douro.
Outra viagem: aquela
pela terra de Castela
- pinheiros na madrugada,
entre Almazán e Quintana!
Ai, alegria
de viajar em companhia!
Ai, união,
que a morte rompeu um dia!

Ah, mão fria
que apertas meu coração!
Anda, comboio, caminha,
fumegando,
carregando
teu batalhão de vagões,
fatigando
bagagens e corações!
Solidão,
sequidão.
E tão pobre vou ficando
que já nem ao certo estou
comigo, nem sei se vou
só comigo viajando.

António Machado, Campos de Castilla, 1912 / Trad. David Mourão-Ferreira

Espanha, 1875-1939

segunda-feira, 28 de março de 2011

Canção

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas:
Umas vivem em mansões, outras em tugúrios;
Não há contudo lugar para nós, meu amor, não há contudo lugar para nós.

- Outrora tivemos uma pátria e pensávamos que isso era justo.
Olha o mapa, e ali a encontrarás.
Não mais podemos lá voltar, meu amor, não mais podemos lá voltar.

- O cônsul deu um murro na mesa e disse:
«Se não têm passaporte, estão oficialmente mortos.»
Mas nós ainda estamos vivos, meu amor, mas nós ainda estamos vivos.

- Aí em baixo, no adro da igreja, ergue-se um velho teixo:
Em cada primavera floresce de novo;
Velhos passaportes não podem fazê-lo, meu amor, velhos passaportes não podem fazê-lo.

- Fui a uma repartição; ofereceram-me uma cadeira;
Disseram-me polidamente para voltar no próximo ano;
Mas onde iremos hoje, meu amor, mas onde iremos hoje?

- Fomos a um comício público; o orador levantou-se e disse:
«Se os deixarmos aqui ficar, hão-de roubar-nos o pão de cada dia»:
Estava a falar de ti e de mim, meu amor, estava a falar de ti e de mim.

- Ouvimos um clamor que nem trovão retumbando no céu;
Era Hitler berrando através da Europa:«Eles têm de morrer!»
Oh, nós estávamos no seu pensamento, meu amor, nós estávamos no seu pensamento.

- Vimos um cachorro, de jaqueta apertada com um alfinete;
Vimos uma porta aberta e um gato a entrar;
Mas não eram judeus alemães, meu amor, não eram judeus alemães.

- Descemos ao porto e parámos no cais;
Vimos os peixes nadando como se fossem livres;
Apenas a dez pés de distância, meu amor, apenas a dez pés de distância.

- Passeámos por um bosque, havia pássaros nas árvores;
Não tinham políticos e cantavam despreocupados;
Não eram de raça humana, meu amor, não eram de raça humana.

- Sonhámos com um edifício de mil andares,
Com mil portas e com mil janelas;
Nenhuma delas era nossa, meu amor, nenhuma delas era nossa.

- Corremos à estação para apanhar o expresso;
Pedimos dois bilhetes para a Felicidade;
Mas todas as carruagens estavam cheias, meu amor, mas todas as carruagens estavam cheias.

- Quedámo-nos numa grande planura com a neve a cair;
Dez mil soldados marchavam para cá e para lá,
À tua e à minha procura, meu amor, à tua e à minha procura.

- W. H. Auden, Ten Songs /tradução de David Mourão-Ferreira

domingo, 27 de março de 2011

Ode

- - - - - - - Da capa do livro Harmonika-Zug de Dominique de Roux da Gallimard

Empresta-me o teu grande ruído, o teu doce andamento,
O teu nocturno deslizar através da Europa iluminada,
Ó comboio de luxo! e a música tão angustiante
Que sussurra ao longo de teus corredores de couro dourado,
Enquanto por detrás das portas lacadas, com loquetes de cobre pesado,
Dormem os milionários.
Cantarolando percorro os teus corredores
E sigo a tua corrida até Viena e Budapeste,
Misturando a minha voz às tuas cem mil vozes,
Ó Harmonika-Zug!

- Senti pela primeira vez toda a doçura de viver,
Numa cabine do Norte-Expresso, entre Wirballen e Pskow.
Deslizava-se através das pradarias onde os pastores,
Ao pé de grupos de grandes árvores semelhantes a colinas,
Estavam vestidos de sujas e cruas peles de carneiro…
(Oito horas da manhã no outono, e a belíssima cantora
De olhos violeta cantava na cabine ao lado.)
E vós, grandes espaços através dos quais vi passar a Sibéria e os montes do Sâmnio,
A áspera Castela sem flores, e o mar de Mármara sob uma chuva tépida!

- Emprestai-me, ó Oriente-Espresso, Sud-Brenner-Bahn, emprestai-me
Os vossos milagrosos ruídos surdos e
As vossas vibrantes vozes de corda de viola;
Emprestai-me a respiração ligeira e fácil
Das altas e delgadas locomotivas, com movimentos
Tão desembaraçados, as locomotivas dos rápidos
Precedendo sem esforço quatro vagões amarelos com letras de ouro
Nas solidões montanhosas da Sérvia,
E, mais longe, através da Bulgária cheia de rosas…

- Ah! é preciso que esses ruídos e esse movimento
Entrem nos meus poemas e digam
Para mim a minha vida indizível, minha vida
De criança que não quer saber nada, a não ser
Continuar eternamente à espera de coisas vagas.

- Valery Larbaud (1881-1957) Trad. David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Jogos de água



1
Corpo meu que no Mar de repente retomas
ao rebentar da onda a posição do feto
Surpreende a matriz de onde partem as ordens

Mas não perguntes mais Porque tudo é incerto

2
A sôfrega aventura A ligação mais firme
A flor de uma só noite A que se crê eterna
Não há forma de amor em que a água não vibre

Ou saliva Ou suor Ou lágrimas Ou esperma

3
Entranham-se na terra os arames da chuva
para apertar melhor as tábuas dos caixões
Ou para transmitir notícias de uma nuvem

Sem saberem que a morte as oculta depois

David Mourão-Ferreira,
Do Tempo ao Coração

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Comédia humana




Foto in
www.jameslogancourier.org







Dura, enquanto convém, o nome da amizade;
no tabuleiro a pedra anda em vários sentidos...
Se a sorte se mantém, que perto estais amigos!
Mas, assim que ela cai, bateis em retirada.

A trupe desempenha, sobre o palco, uma farsa:
este, o pai; esse, o filho; aquele, um homem rico...
Mal se diz o papel e se termina o riso,
a máscara lá vai... E reaparece a face.

Petronius, Satyricon, 80
Tradução de David Mourão-Ferreira in
Vozes da Poesia Europeia I,
Colóquio Letras n.º 163

_____

Escritor romano do tempo de Nero, séc. I d. C.
, que foi identificado como sendo C. Petronius Arbiter, embora o manuscrito do Satyricon lhe chame Titus Petronius.

domingo, 22 de novembro de 2009

Canto báquico (In taberna)



Quando estamos na taberna
nem do mundo nós cuidamos:
só o jogo nos int'ressa,
só nele nos empenhamos.
E o copo é de quem o peça
se com dinheiro o pagamos:
assim faças o pedido,
de certeza que és ouvido.

Há quem jogue, há quem beba,
quem decência tenha pouca;
e quem do jogo regresse
às vezes sem trazer roupa;
outros ganham novas vestes;
outros somente uma trouxa...
Ninguém teme aqui a morte,
mas a Baco pedem sorte.

Bebe-se o copo primeiro
àquele que paga o vinho;
e mais dois aos prisioneiros;
três, depois, aos que estão vivos;
quatro, às freiras levianas;
a seus cavaleiros, cinco;
seis, aos cristãos todos juntos;
e sete, aos fiéis defuntos;

oito, aos frades indecentes;
mais nove, aos monges vagantes;
dez, aos vários pretendentes;
onze, pelos navegantes;
doze, enfim, aos penitentes;
e treze, pelos restantes...
Pelo Papa e pelo rei
sem medida beberei.

Bebe o dono deste prédio,
bebe a dona da taberna;
bebe o laico, bebe o clérigo;
bebe aquele, bebe aquela;
bebe o lento, bebe o lesto;
bebe o moço, bebe a velha;
bebe o firme, bebe o vago;
bebe o rude, bebe o mago.

Bebe o pobre e o enfermo;
bebe o triste e o desterrado;
bebe o louro e o moreno;
bebe o patrão e o criado;
bebem grandes e pequenos;
bebe o deão e o prelado.
E por isto e por aquilo,
bebem cem e bebem mil.

Anónimo goliardo, Carmina Burana, potatoria,
Trad. de David Mourão-Ferreira,
«Vozes da Poesia Europeia - II», in
Colóquio Letras n.º 164

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Carpe diem (Ode a Leucónoe)





Quintus
Horatius
Flaccus






Não procures, Leucónoe, - ímpio será sabê-lo -
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

Horácio
Tradução de David Mourão-Ferreira in
Vozes da Poesia Europeia – I, Colóquio Letras n.º 163,
Janeiro - Abril 2003

___________

Quintus Horatius Flaccus nasceu em Dezembro de 65 a.C. em Venúsia, Itália, filho de antigo escravo e morreu em 27 de Novembro do ano 8 d.C. em Roma.

É um dos mais famosos escritores da época de ouro a que pertenceram Cícero, Virgílio e Cátulo, advindo-lhe esse renome essencialmente das suas Odes, onde, à maneira epicurista do Carpe Diem, se retrata a brevidade da vida e a caducidade das coisas, apontando-se como solução gozar a vida no seu máximo e apreciar, enquanto é possível, as coisas simples e essenciais da vida. A expressão Carpe Diem, que nos vem servindo de tema, provém deste poema de Horácio.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Outono







In
www.comlive.net/








Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto...
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol-posto...

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo...?
Seria Outono...
--------------- Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética,
Lisboa, Editorial Presença, 1996

segunda-feira, 16 de março de 2009

Didáctica





Foto in

cvc.instituto-camoes.pt





Uma noite por ano uma noite pelo menos
Assaltemos o céu e a Lua aprisionemos
Uma noite Uma noite Uma noite pelo menos

Armas Algemas Cães O que for necessário
Tragam-na dentro dum foguetão celular
E mantenham-na presa uma noite pelo menos

Interroguem então a prisioneira Lua
Não lhe poupem o corpo a nenhuma tortura
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

Veremos se confessa o que nem nós sabemos
Chicoteiem-lhe o peito E fustiguem-lhe o ventre
Deixem-na toda em sangue uma noite pelo menos

É preciso que saiba os recursos que temos
É preciso que aprenda É preciso que a prendam
Uma noite por ano Uma noite pelo menos

David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988,
Lisboa, Editorial Presença, 1996, 2,ª ed.

Fado para a Lua de Lisboa
















Foto in
4.bp.blogspot.com





Ó Lua, espelho do chão
que andas no céu pendurado,
holofote da ilusão
pelo turismo alugado,
não ilumines em vão
os sulcos do empedrado!
-
Denuncia nas valetas
as sombras que tu arrastas:
prostitutas, proxenetas,
silhuetas de pederastas...
Colos brancos. Rendas pretas.
Casas tortas. Pedras gastas.
-
As rugas do sobressalto,
Ó Lua não as destruas!
Tu viste carros de assalto
rondarem por estas ruas;
viste rolarem no asfalto
vestes mais alvas que as tuas.
-
Foste a lua a que se expunha
aos tiros a multidão;
espelhaste na tua unha
a secular aflição;
e já foste testemuha
dos fogos da Inquisição.
-
Procissões do Santo Ofício...
Fileiras de condenados...
À noite, nem só o vício
rasteja por estes lados:
as serpentes do suplício
silvam nos pátios murados...
-
Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!
Não queiras passar ao lado
da desgraça que visitas!
Nem queiras ser infamado
passatempo de turistas!
-
Clorofórmio dos enfermos,
se foges dos hospitais,
então recolhe-te aos ermos
desertos celestiais!
E quando te não merecermos
não te acendas nunca mais!
-
David Mourão-Ferreira, Obra Poética,
Lisboa, Editorial Presença, 1996, 2.ª ed.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Orquestra, flor e corpo

Orquestra, flor e corpo:
doravante direi
como do corpo a música se extrai,
como sem corpo a flor não tem perfume,
como de corpo a corpo o som se repercute.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E noite.
Doravante dizendo orquídea negra
é logo o violoncelo nomeado;
e logo, logo, os instrumentos de arco
arremessando vão a flecha ao alvo;
e é logo o alvo peito;
e é logo amor,
e é logo a noite
murmurando «Até logo!» à outra noite...

De corpo a corpo a noite se transmite.
Orquestra, sim: orquestra. E flor. E vaga.

E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.

De corpo a corpo o som se repercute,
de vale em vale,
de monte a monte,
de címbalo, de cítara, et coetera,
ao tímpano sensível que o recebe.

Sem concha do ouvido,
o mar não tem rumor.

Sem asa do nariz,
não voa a maresia.

E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo,
de música e de flor universal medida.

David Mourão-Ferreira, Obra Poética,
Lisboa, Editorial Presença, 1996, 2.ª ed.

domingo, 30 de novembro de 2008

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio do Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos. E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

1960
David Mourão-Ferreira, "Cancioneiro de Natal" in Obra Poética 1948-1988,
Lisboa, Editorial Presença, 1996, 2.ª ed.

domingo, 12 de outubro de 2008

Nocturno


O desenho redondo do teu seio
tornava-te mais cálida, mais nua,
quando eu pensava nele... Imaginei-o,
à beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
ornar-te o busto de uma renda leve
e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
era um convite lúcido às estrelas...

Imaginei-te assim à beira-mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito...


David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988,
Lisboa, Presença,1996, 2.ª ed.
Óleo s/ tela de Amedeo Modigliani, Reclining Nude: Le Grand Nu, (1919).