quinta-feira, 30 de abril de 2009

Vivam, apenas









Foto A.M.





Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos!

José Gomes Ferreira, Poeta Militante

Uma rosa













Foto A.M.






Uma rosa aérea expande-se vector de luz,
A Terra ascende noutro lugar infinitamente,
As palavras numa transumância até um silvo único,
Um sentido amado pela prata do diafragma, refluindo
o tempo todo como os receosos animais
enterram as hastes na lua.
Ou como alguém entra pelo terror
com os brandos instrumentos da paixão.
As mãos inteiras com que olho os translúcidos arcos,
a demora do corpo, ouro de ouro
sobre todas as coisas ignescentes.

Abraço-te como cegam
os desertores violinos
nas ogivas de água.

Maria Cravidão, Exercício do Olhar

Tão cedo...








Foto A.M.







Tão cedo tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, nada se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala, O mais é nada.

Ricardo Reis, «Outras Odes» in
Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
Casais de Mem Martins - Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2007

As rosas









Foto A.M.





Não falemos de ti. És inefável
segundo a tua natureza.
Outras flores ornamentam a mesa:
tu a transfiguras.

Num simples vaso és arranjo,
e eis que tudo muda:
é talvez a mesma frase,
mas cantada por um anjo.

Rainer Maria Rilke

Os ramos do pulmão





Picasso,
Portrait of J.R.
with roses,


in
www.tapestriesbyvivi.com








Não há perguntas
porque não há respostas
para o tecido das rosas
e o olhar para ela.
Cada pergunta constrói uma ordem
onde a resposta se ordena
com o umpulmão vazio.
Entre os ramos
o vento assegura o humor passageiro
do ar
como se uma pincelada houvesse tocado
o espaço vazio
entre as rosas.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002, 1.ª ed.

Entre as rosas














Salvador Dali,
Meditative Rose, 1958

in www.theartistsalvadordali.com




Desenho a minha ausência
juntamente com as rosas que murcham
mesmo em frente à janela onde escrevo.
Deixei cair umas pétalas, o ténue fio
de um caminho que se perde antes
do horizonte. Conto as letras que encontrei
nos bolsos, não chegam para nada
e não há perguntas, nada que queira saber.
Uns trocos para pão, migalhas no caminho
onde me esperas como se eu fosse um pássaro
faminto. Dou-te uma bicada de amor:
é tudo o que ficou fora do desenho.
As árvores dão estalidos
como se o vento se tivesse levantado
tão cedo. Estou aqui de véspera
e nem sequer estou cansada.
Atrás do monte há um roseiral.
Quando lá chegar direi que estive à tua espera
e será verdade como tudo o que escrevo:
amar-te-ei sempre entre as rosas
que planto ao acaso no papel
onde um rio canta
porque me esqueci de desenhar as margens.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002, 1.ª ed.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Era a primeira rosa do céu....






Picasso,
Le Miroir,
1932


in
www.paris-art.com





Era a primeira rosa do céu que se assomava
à janela de uma nuvem e espargia o pólen
azul na nascente do dia
As idades cansadas baixavam ao seu leito
de obscuras plumas e de amargos óleos
A juventude da água em fugidios lampejos
inaugurava as espáduas da confiança indolente
e a vida reunia e dispersava os seus pássaros
que voavam sobre os sonhos e sobre o fogo do desejo
A terra dissolvia os seus fantasmas brancos
nas fornalhas verdes do seu violento estio
O mundo revelava as suas torres de obsidiana
com as suas chamas de olhos e as suas línguas de veludo
Um rosto tatuado flutuava sobre as águas
como a cabeça de uma pantera vermelha
Uma rapariga nua dormia sobre o ombro de uma duna
e a espuma inundava-a sem que ela despertasse
Um velho escrevia um poema sobre um muro
para identificar a água pura do dia

António Ramos Rosa, «Lâmpadas com Alguns Insectos» in
Antologia Poética, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001

terça-feira, 28 de abril de 2009

A divisibilidade dos aromas










Foto A.M.








Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva
e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro
dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto
o meu perfume, o que pomos por cima das certezas
e das dúvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.
Em breve me confundirei com o cheiro dos outros, daquele homem
vergado pelo saco de batatas, da florista a compor as margaridas,
da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas sangrentas
(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim
fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos
os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar
também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com a mistura
dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele
a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta
e o teu cheiro irá entranhado em mim até uma distância infinita
das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada
estendendo a pele às dádivas do dia.


Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002, 1.ª ed.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!
















Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!

Se de repente saísse da terra um braço
e atirasse uma rosa
para o espaço!

Mas não.

Lá está o sol do costume
com a exactidão
duma bola de lume
desenhada a compasso...

...sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
- que é sol com bolor...

e desde que nasci,
haja paz ou guerra,
nunca vi outra coisa.

Ah! Como queres que acredite em ti
– braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?

José Gomes Ferreira, «A Morte de D. Quixote» in Poesia I,
Lisboa, Portugália Editora, 1969

E de novo a armadilha dos abraços...




Foto in
www.portaldaliteratura.com





E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.

As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.

Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.

E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Rosa Lobato Faria, in
http://gatopingado.wordpress.com

Esta Rosa, que vem habitar também o jardim da minha Praça, nasceu em Lisboa em 1932.
Actriz (TV, cinema), romancista (Prémio Máxima de Literatura, 2000), contista, dramaturga e poeta, é a melhor letrista do Festival da Canção, depois de José Carlos Ary dos Santos.

A rosa de Hiroshima







Foto in

www.jexpoz.com/





Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Vinicius de Moraes

Ver / Ouvir Ney Matogrosso interpretar esta belíssima canção: Aqui.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Este amor de liberdade...

Fotos da sessão das Quartas Mal-Ditas de 22 de Abril, no Clube Literário do Porto. Tratou-se de uma colagem de textos elaborada por Anthero Monteiro.













Interpretaram os poemas:

Anthero Monteiro














A
ntónio Pinheiro














Diana Devezas














Isabel Marcolino













Luís Carvalho














Manuela Correia













Mário Vale Lima














Marta Tormenta e Rafael Tormenta













Carlos Andrade com as suas canções de Abril











E assim se fez o 25 de Abril. Com letras e...














com poemas e...












com cravos também, em apoteose:













Cravos que assim quisemos perpetuar.












Um imenso obrigado
a José Oliveira
(FOTOLIVEIRA)
pelas suas fotos.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Acordar



















Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá-me rosas, rosas,
E llrios também...

Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palác ios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também..

Álvaro de Campos, in Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
Casais de Mem Martins, Rio de Mouro, Círculo de Leitores e Richard Zenith, 2007

Poema para o meu amor doente








Foto A.M.






Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade, Poesia, Porto,
Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

Rosas vermelhas
















Foto A.M.






Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.

E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.

E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:

- Mãe!

E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.

Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

- Mãe!

E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:

- Coragem!

Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).

E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:

- Bom dia!

era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.

Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:

- Bom dia!

de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.

Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:

- Bom dia!,

mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.

É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?

Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:

- Mãe!

A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

Manuel Alegre, Praça da Canção, 1965

domingo, 19 de abril de 2009

Pequena elegia de Setembro







Foto A.M.







Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade, «Coração do Dia» in Poesia,
Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed

Não quero rosas...













Fernando Pessoa

de Alfredo Luz






Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei...

Fernando Pessoa

Quartas Mal-Ditas comemoram Abril

Rosas







Manuela Correia
lendo um poema na
Onda Poética de Abril,
em Espinho.


(Fotoliveira)





Conheces a rosa
na roda ou na ronda
do toque ou da rima
na polpa dos dedos
Conheces a rosa
na sombra ou na réstia
da ruga ou do riso
na linha do rosto
Conheces a rosa
rosácea ou retinta
suspensa ou surpresa
na orla do corpo
Conheces a rosa
ou roxa ou cerácea
no rasto ou no rasgo
da insónia ou do espasmo
O resto o resto
é um roseiral interior
que não conheces

Manuela Correia

sábado, 18 de abril de 2009

O ramo de flores








Que fazes aí menina
Com essas flores recém-colhidas
Que fazes aí rapariga
Com essas flores já secas
Que fazes aí mulher bonita
com essas flores que murcham
Que fazes aí velha
Com essas flores já mortas

Espero o vencedor.

Jacques Prévert, Palavras, trad. Manuela Torres,
Lisboa, Sextante Editora, 2007

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Pequena elegia chamada domingo







Foto in
www.imeem.com




O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade, «As Mãos e os Frutos» in
Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

Se pudesse, coroava-te de rosas...






Picasso,
Tête de femme
couronnée de fleurs





Se pudesse, coroava-te de rosas
neste dia -
de rosas brancas e de folhas verdes,
tão jovens como tu, minha alegria.

Terra onde os versos vão abrindo,
meu coração, não tem rosas para dar;
olhos meus, onde as águas vão subindo,
cerrai-vos, deixai de chorar.

Eugénio de Andrade, «As Mãos e os Frutos» in
Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

Foi para ti que criei as rosas









Foto A.M.





Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do loume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
o corpo aberto como os animais

Eugénio de Andrade, «As mãos e os Frutos» in
Poesia, Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 2005, 2.ª ed.

A rosa mutável







Foto in
www.booksfactory.com




Quando se abre na manhã,
rubra como sangue está.
O orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta à luz do meio-dia
é dura como um coral.
O sol assoma nos vidros
só para a ver fulgurar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar,
e quando a tarde desmaia
nas violetas do mar.
torna-se branca, tão branca
como uma face de sal.
E logo que a noite toca
branco como de metal,
e as estrelas avançam
enquanto se esconde o ar,
no risco fino da sombra
começa-se a desfolhar.

Federico García Lorca, in
Eugénio de Andrade, Poemas de García Lorca,
Porto, Limiar, 1979, 4.ª ed.

Riqueza







Foto A.M.


Tenho a ventura fiel
e a ventura perdida:
uma é qual uma rosa,
e a outra como um espinho.
De tudo o que me roubaram
nunca fui despossuída:
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida,
e estou tão rica de púrpura
como de melancolia.
Ai, como é amada a rosa
e que amante é o espinho!
Como o duplo contorno
dos frutos que gémeos vivem,
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida…

Gabriela Mistral, trad. José Bento in
Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001

Poeta, diplomata e educadora chilena, n. em Vicuña em 1889 e morreu em Nova Iorque em 1957.
Foi Prémeio Nobel da Literatura em 1945.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Rosa rosae










Foto A.M.



Rosa e todas as rimas
Rosa e os perfumes todos
Rosa no florindo espelho
Rosa na brancura branca
Rosa no carmim da hora
Rosa no brinco e pulseira
Rosa no deslumbramento
Rosa no distanciamento
Rosa no que não foi escrito
Rosa no que deixou de ser dito
Rosa... pétala a pétala.
Despetalatirosada.

Carlos Drummond de Andrade

Não será despropositado ouvir a canção "ROSA" de Jacques
Brel, aqui.

Segue o teu destino














Flor colhida neste jardim

que vale a pena visitar:
florescerem.blogspot.com/


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, «Outras Odes» in
Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
Casais de Mem Martins - Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2007

Prefiro rosas, meu amor...








Foto A.M.





Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que fama e que virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença.

Se a auorora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
Aparecem as folhas
E com o outono cessam?
O resto, as outras cousas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis, «Outras Odes» in
Fernando Pessoa, Poesia dos Outros Eus,
Casais de Mem Martins - Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2007

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Arco-íris








Foto A.M.





Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."
De repente, no céu, desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda policroma de pavão.


Olegário Mariano, Canto da Minha Terra,
Pimenta de Melo, 1930

Nasceu no Recife - Pernambuco em 1889. Morreu no Rio de Janeiro em 1958.
Foi membro da Academia Brasileira de Letras.
Obra extensa, reunida nos dois volumes de Toda Uma Vida de Poesia, Livraria de José Olympio Editora, 1957.

Som e cor






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Alucina-me a cor! A rosa é como a lira,
A lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, cria a flor que não inspira,
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor dalguma flor, que expira...

Há plantas ideais dum cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
Tem notas marciais: soa como um clarim!

Gomes Leal, Claridades do Sul

segunda-feira, 13 de abril de 2009

História de Portugal


Primeiro, um marialva brutamontes chamado Afonso Henriques – que deixou o seu melhor amigo de infância, o Martim Moniz, entalado na porta do castelo com uma bandeira entre os dentes, a ser cortado às postas pelos selvagens dos árabes – e então a mãe, a dona Teresa, achou que aquilo era uma javardice e foi para a genealogia com um espanhol para mudar a árvore.

O filho pregou-lhe um estaladão e disse:

- Em minha casa quem reina sou eu, e agora, só para não te armares em esperta colonial, não há mais incestos ibéricos. E isto é Portugal, e é meu, e vou montar um negócio em Guimarães e já vais ver!

Mas, depois, teve azar, porque descambou toda a gente e apareceram uns sornas duns sanchos que se limitavam a conquistar mais umas assoalhadas indo a torto e a direito para a palha das lezírias com moçoilas alentejanas.

E morreu tudo com sífilis e Sida por falta de higiene e cuidado. E até chegarem ao Algarve foi preciso esperar séculos para os alemães e os ingleses se interessarem pela indústria do ramo.

Entretanto, quem tomou conta disto foi o Dinis – um poeta que não gostava lá muito de mulheres – e perguntou à esposa, a Isabel,

- O que é que levas no regaço?,

e ela disse

- flores, meu senhor.

De facto, eram papoulas de ópio. Então, o marido canonizou-a imediatamente para ela ir praticar a bondade para bem longe de Leiria.

E pronto, por gostar muito de marinheiros, o homem mandou plantar um pinhal que desse madeira para o barco dos rapazes. Mas só muito mais tarde é que o Henrique, o navegador, percebeu e jogada e abriu, na ponta de Sagres, uma casa de putas de luxo, digna desse nome, e que satisfizesse, também, os seus legítimos e promíscuos desejos.

Claro está que, antes de mais nada, foi preciso ensinar aos mancebos a arte de foder sem preconceitos nem limitações. E por outras razões, por exemplo, porque todas as princesas já estavam acasaladas com os anglo-saxões mais dotados e poderosos da comunidade. Parece que por ali era tudo frígido e ninguém tinha filhos varões...

E lá foi a Ponta de Sagres em peso evangelizar o mundo, teimando sem tréguas – com todo o credo e toda a cor – assegurar esta estranha espécie por inseminação artesanal. Mas, como naquela altura, havia outros interesses em jogo, até o machão do Colombo perguntou a um tal D. João II:

- Que segredo têm as vossas naus que vão a todo o lado?

Mas, coitado, o rei respondeu-lhe:

- Se estás tão seguro que a Índia é aí, filho, aproveita o fraquinho que a Católica tem por ti e lhe baralha a geografia. Olha que para descobrir a América no mapa basta um iate emprestado...

É evidente que por cá a coisa não deu certo e a bagunça degenerou num jovem imberbe e paranóico de olhos azuis, o Sebastião. Estando mais ou menos a par da terapia usada pelos seus antepassados, montou um cavalo branco e levou consigo dois galgos persas de trela bem curta.

Foi para Marrocos tentar verificar se aqueles animais eram assim tão bons na planície como rezam as alcovas e convidá-los a fazer outra vez um cerco apertado. Mas o nevoeiro já só metia ou nojo ou saudade.

E este caso, de tão encoberto, acabou por ser arquivado.

Joaquim Castro Caldas

Euforia



















cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que este milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração

dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado – o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca

o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina

a seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-se
na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões

quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete – fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

Al Berto, Horto de Incêndio,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1997

Gravitação universal








Pérgola de roseiras
na casa de Monet.


Foto in
givernews.com/?Maison-de-monet/2008/05/27



De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
bebemos e falámos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
de sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
e a tua mão na minha perna. Lá no céu
um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
e as palavras voam em redor de nós
alagadas em suor. E vem o mar.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia,
V. N. Famalicão, Edições Quasi, 2002