segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Anthero Monteiro: nota bibliográfica



Anthero Monteiro
e algumas das suas
obras poéticas

(Foto Elias
Moreira)






POESIA:


Canto de Encantos e Desencantos,
Espinho, Edição do autor, 1997
2.ª edição: V. N. Gaia, Corpos Editora, 2005

O Remédio É Naufragar – Manuel Laranjeira Despedindo-se
Espinho, Elefante Editores, 1998 (esgotado)

A Lia Que Lia Lia
(poemas infanto-juvenis)
Espinho, Elefante Editores, 1999 (1,ª ed. esgotado), Corpos Editora, 2010 (2.ª edição)

Com Tremura e Desamor
(Tubos de Ensaio sobre a Decadência)
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2001

Cenas Obscenas
(Cigarrilhas Poéticas),
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2001

Esta Outra Loucura,
(o primeiro livro de poetrix em Portugal e na Europa, já em 2.ª edição)
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2002

Desesperânsia,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2003
2.ª edição, 2009

A Sara Sardapintada,
(poemas infanto-juvenis),
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2004

Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste (Corpos Editora), 2010

Sulcos da Memória e do Esquecimento,
Porto, Corpos Editora, 2013


OUTROS POEMAS inseridos nas seguintes obras:

O Livro É Uma História com Boca,
(Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa),
Lisboa, Instituto Piaget, 1996

Malasartes,
(Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude)
N.º 13 - Dezembro 2003 - Junho 2004

Histórias e Poemas para Pessoas Pequenas,
Porto, Porto Editora, s/d

Quadrar,
(Apontamentos do Quotidiano)
Poesia de Fernando Morais, Julho 2007

Antologia Poetrix n.º 1,
Rio de Janeiro, Editora Scortecci, 2002

Antologia Poetrix n.º 3,
Brasil, Livro.com, 2009

Abril Certo na Hora Incerta,
Porto, Partido Comunista Português - Sector Intelectual do Porto, 2010,
Edição Comemorativa do 36.º aniversário do 25 de Abril

501 Poetrix para Ler antes do Amanhecer,Colectânea a sair dentro em breve no Brasil


ENSAIO:

Misticismo em Manuel Laranjeira: o autodiagnóstico de um médico doente de santidade,
Santa Maria da Feira, LAF - Liga dos Amigos da Feira, 2004
(Prefácio de Luís Machado de Abreu)

A Festa das Fogaceiras e o Feriado Municipal de Santa Maria da Feira,
Santa Maria da Feira, Edição da Câmara Municipal, 2005, Comemoração dos 500 anos das Fogaceiras
Santa Maria da Feira, Edição da LAF - Liga dos Amigos da Feira, 2005 (idem)

500 Anos de Tradição Festa das Fogaceiras,
Santa Maria da Feira, Edição da Câmara Municipal para distribuição no concelho, 2005,
40 000 exemplares

O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira,
Lisboa, Roma Editora, 2006
(Prefácio de Luís Machado de Abreu)


OUTROS ENSAIOS e trabalhos inseridos em revistas ou livros colectivos:
"O estereótipo na Comunicação"
in Colóquio, Educação e Sociedade n.º 5, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Março de 1994

"O Monstro-Barão, a Bela Adormecida e a Rosa Mística" in Forma Breve n.º 1 - O Conto - Teoria e Análise, Universidade de Aveiro, Aveiro, 2003
Vide texto integral aqui


"Ainda há lugar para a Poesia?" in Homenagem a Mia Couto - Actas do 8.º Encontro de Professores de Portguês de 8 e 9 de Maio de 2003 no Centro de Congressos de Lisboa (texto da comunicação apresentada na mesa redonda com o mesmo título), Areal Editores, 2004

"Manuel Laranjeira: o ateu e o místico (ou a vertigem de outra luz)" in Novas Variações sobre Tema Anticlerical (Coord. Luís Machado de Abreu), Centro de Línguas e Culturas, Universidade de Aveiro, Aveiro, 2005

"Os Sonetos Anticlericais de Oliveira Guerra (no Centenário do seu Nascimento)" in Incidências Anticlericais (Coord. Luís Machado de Abreu), Centro de Línguas e Culturas, Universidade de Aveiro, Aveiro, 2006

"Guilherme Braga, o Poeta que morreu duas vezes"
e
"O Livro Sexto de Sophia: a peregrinação com o Homem a caminho do esplendor absoluto"
in Orlando da Silva (coordenação, desenhos e grafismo), Catorze Escritores do Norte, Santa Maria da Feira, 2009 (a reeditar ainda este ano na Corpos Editora)


PREFÁCIOS E INTRODUÇÕES a obras de outros autores:

Manuel Laranjeira,
Comigo 1 - Versos de um Solitário,
Espinho, Elefante Editores, 1997

Edgar Carneiro,
Antologia Poética,
Espinho, Elefante Editores, 1998

Manuela Correia,
As Nuvens Não São Mais de Algodão,
Espinho, Elefante Editores, 2000

José Fial,
Na Melhor das Intenções,
(apresentação, selecção e organização dos textos)
Santa Maria da Feira, LAF - Liga dos Amigos da Feira, 2006

Gilberto Pereira,
Reticências,
Ed. de autor, 2009


LIVROS DIDÁCTICOS publicados em co-autoria:

Texto/Textos,
(Alunos supletivos)
Porto, Edições ASA, 1983

Tapete Mágico 1,
(5.º ano)
Porto, Porto Editora, 1985

Tapete Mágico 2,
(6.º ano)
Porto, Porto Editora, 1986

Caminhar 1,
(5.º ano - Cabo Verde)
Porto, Porto Editora, 1986

Caminhar 2,
(6.º ano - Cabo Verde)
Porto, Porto Editora, 1987

Voz Activa 1,
(5.º ano)
Porto, Porto Editora, 1992

Voz Activa 2,
(6.º ano)
Porto, Porto Editora, 1993

Gira Gira,
(5.º ano)
Porto, Porto Editora, 1996

Anthero Monteiro: nota biográfica


Anthero Monteiro
coordenando uma
sessão de poesia no
restaurante Telegrapho,
no Palácio da Bolsa



Anthero Monteiro nasceu na vila de S. Paio de Oleiros, concelho de Santa Maria da Feira, em 1946.
Estudou na Congregação do Espírito Santo, em Viana do Castelo e em Braga, e concluiu os seus estudos secundários no Liceu Nacional de Aveiro.
Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Fez o Mestrado em Estudos Portugueses, na Universidade de Aveiro e publicou, na Roma Editora, de Lisboa, a respectiva dissertação – O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira.
Foi, durante oito anos, funcionário dos Serviços Municipalizados da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira.
Começou a lecionar Língua Portuguesa e Francês na Escola Preparatória, actual E.B. 2/3 Fernando Pessoa, em Santa Maria da Feira.
Foi, durante dois anos, orientador-delegado de estágios no Gabinete de Português da Direção-Geral do Ensino Básico, no Porto.
Prosseguiu a vida docente, até final da carreira, na Escola E. B. 2/3 Sá Couto, em Espinho.
Foi coordenador, durante cerca de 10 anos, na zona norte e centro do país, de uma experiência pedagógica, denominada ICAV – Iniciação à Comunicação Audiovisual.
Foi formador de docentes na área da Didática Específica de Língua Portuguesa, em vários centros de formação de professores (Santa Maria da Feira, Porto, Espinho, Oliveira de Azeméis e outros).
Publicou, em coautoria, oito manuais de Língua Portuguesa para o 2.º Ciclo do Ensino Básico, no nosso país e em Cabo Verde (Editorial ASA e Porto Editora).
Colaborou ainda num dicionário de língua portuguesa (Porto Editora).
Escreveu, para publicações da especialidade, nomeadamente a revista Escola Democrática, o boletim IC da Direção-Geral do Ensino Básico e a revista Voz Activa do Centro de Formação das Escolas de Espinho, vários artigos de índole pedagógico-didáctica e ensaios literários. Destaquem-se ainda: «O Estereótipo na Comunicação» na revista Colóquio – Educação e Sociedade, da Fundação Calouste Gulbenkian, o ensaio «O Monstro-Barão, a Bela Adormecida e a Rosa Mística» na revista Forma Breve, da Universidade de Aveiro, além de vários ensaios publicados em O Primeiro de Janeiro e apontamentos sobre história local no jornal Diálogo e na revista Villa da Feira, da Liga dos Amigos da Feira.
Foi fundador e, durante dez anos, diretor do jornal regional Diálogo, da sua terra natal. Dirige há cerca de trinta e oito anos, a Biblioteca Pública de S. Paio de Oleiros, onde organizou colóquios, feiras do livro, encontros com escritores, visitas de escolas, sessões de cinema e de poesia e muitas outras iniciativas culturais.
Colaborou em vários periódicos regionais dos concelhos da Feira, Espinho e Ovar.
É supervisor editorial e gráfico da revista Villa da Feira, da LAF - Liga dos Amigos da Feira, onde publica assiduamente poemas e ensaios de cultura e história local.
No âmbito da Poesia, viu inseridos poemas seus, desde os 13 anos de idade, em vários jornais, só tendo publicado, porém, o seu primeiro livro em 1997.
Consta do Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa — O Livro É Uma História com Boca —, organizado pelo Instituto Piaget.
Consta também da Antologia Poetrix n.º 1, publicada no Brasil pela Editora Scortecci, em 2002, e na Antologia Poetrix n.º 3, da Livro.com, também no Brasil. Na modalidade de poetrix, viu poemas seus ficarem em primeiro lugar nos concursos realizados a nível internacional nos anos de 2002 e 2003. Foi, aliás, o primeiro autor a lançar um livro de poetrix em Portugal e na Europa - Esta Outra Loucura.
Faz parte ainda da antologia Histórias e Poemas para Pessoas Pequenas, da Porto Editora, coordenada por José António Gomes, com ilustrações de Maria Ferrand.
Consta também do Projecto Vercial, “a maior base de dados sobre a Literatura Portuguesa”.
Foi membro dirigente da Associação de Escritores de Gaia.
É responsável pela organização de várias tertúlias poéticas, nomeadamente: a Onda Poética, que iniciou, há cerca de 17 anos, as suas sessões na livraria Livramar, em Espinho, tendo passado, com a extinção da mesma, para a Biblioteca Calouste Gulbenkian daquela cidade, pouco tempo depois, para o Bar Dominó do Casino de Espinho, depois ainda para a sala das sessões da Junta de Freguesia de Espinho e finalmente, para a Biblioteca Municipal Dr. José Marmelo e Silva, de Espinho; o Quarto Crescente, iniciativa da Biblioteca Pública de S. Paio de Oleiros, atualmente denominado Magnólia; e as Quartas Mal Ditas que se realizaram, durante 3 anos, no Clube Literário do Porto, entretanto encerrado. Participou regularmente noutras tertúlias e recitais de poesia, designadamente nas noites poéticas do Pinguim, no Restaurante Telégrafo do Palácio da Bolsa, no Museu Soares dos Reis, no Café Piolho, nos Sentidos Grátis, em várias Juntas de Freguesia, bibliotecas, bares e restaurantes. Abriu durante cerca de uma década as noites de poesia do Púcaro´s Bar, nas arcadas de Miragaia, junto à Alfândega do Porto, todas as quartas-feiras, encerrado também com o falecimento do proprietário.
Escreveu vários prefácios ou notas introdutórias em livros de outros autores e fez a apresentação pública de vários livros de poesia, de ficção e de ensaio.
Participou em múltiplos colóquios, acções de formação e seminários pedagógico-didácticos, literários ou linguísticos, realizados em Portugal (Lisboa, Porto, Coimbra, Vila Real, Caldas da Rainha, Portalegre, Funchal, Angra do Heroísmo, etc.) e em França (Grenoble, Bordéus e Périgueux), para além de dezenas de escolas de todo o país.
Integrou uma linha de investigação sobre Anticlericalismo na Universidade de Aveiro, tendo participado em seminários sobre o tema e publicado os respectivos textos em revistas da mesma Universidade.
Tem integrado o júri de vários concursos literários realizados em Portugal e no Brasil.
É sócio honorário do Grupo Musical de S. Paio de Oleiros ("Tuna"), «devido a serviços relevantes prestados à coletividade» e, ainda da LAF - Liga dos Amigos da Feira, também "pelos serviços prestados" e pela "forma como se tem dedicado à Poesia, Ensaio, Investigação, Jornalismo, Dinamização Cultural em Tertúlias e Saraus, Declamação, Apresentação de Livros e como Diretor da Biblioteca Pública de S. Paio de Oleiros".
Foi galardoado com o Prémio Manuel Laranjeira na sua edição de 2004.
Em 2015, recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Grau Máximo da Vila de S. Paio de Oleiros, sua terra de nascimento e de residência, na categoria de "Dirigente Associativo no ativo, pelas décadas de trabalho desenvolvido no Associativismo Local, sobretudo na Presidência da Direção da Biblioteca Pública de S. Paio de Oleiros.

Agora sim






Anthero Monteiro
(Foto Elias Moreira)






d
epois dos meus esforços e promessas
sem obter qualquer resultado

os olhos das outras cabeças

olham-me enfim de um modo diferente
já todos concordam porque é evidente
que agora está tudo mudado

------ agora sim sou um rapaz atilado

deixei de andar para aí sem direcção

completamente desnorteado

ganhei enfim uma outra dimensão

este sossego como nunca tive
esta calma tão sábia de ser livre

embora ao mesmo tempo aprisionado


------ agora sim sou um rapaz atilado

deixei de andar a vociferar pelo mundo

que a vida é isto de ser-se arrastado

arrastando um sonho infecundo

e que o sonho não é nada etéreo

é afinal um problema sério

um fardo terrivelmente pesado


------ agora sim sou um rapaz atilado

atolado num verdadeiro sono

curei pra sempre aquele mal danado

a insónia a obsessão o abandono

a ânsia sem limite o nojo o tédio

achei enfim o único remédio

estou completamente curado


------ agora sim sou um rapaz atilado

sem medo vêm ver-me bem de perto

pacífico entre tábuas apertado

já nem sequer protesto contra o aperto

eu que toda a vida esbravejei
pela liberdade e contra a cegueira da lei

aceito tudo isto com agrado


------ agora sim sou um rapaz atilado

e assim vencido este terrível bicho

peguem em mim e atirem-me ao lixo


Anthero Monteiro, Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª edição

À espera




In

www.oneyearbibleblog.com








à espera impaciente
à porta da saída

que se te abrisse o ventre

e que eu saudasse a vida

cá fora os circunstantes

longos meses à espreita

ansiosos expectantes

fugindo à má suspeita


e tudo decorrera

tal qual como o previsto
e no que deu a espera?
foi tão-somente nisto!

aliás bem agoureiro

o meu primeiro grito

foi o indício primeiro

da sorte do proscrito


à espera sempre à espera

a nossa vida toda

que venha uma outra era

ou que inventem a roda

à espera do doutor

do carteiro e da carta

dum gesto redentor
do raio que nos parta


à espera da chamada
ou do esquecimento

duma qualquer cartada

ou do arrependimento

à espera da bebida

do café ou do uísque

de quem nos salve a vida

de quem por nós se arrisque


sempre à espera da noite
de um comboio na gare
ou de alguém que se afoite
e que se nos declare

à espera de vénus

do sol da lua cheia

à espera dos acenos

de alguma deusa ateia


à espera de uma praia

onde tires a blusa

onde deixes a saia

sem a menor recusa

e de que eu já descrente
não tenha outra saída

senão ver finalmente

a terra prometida

à espera da maré

duma onda ou de um peixe

que sobrevenha a fé

ou que outra fé nos deixe

à espera do messias
da virgem impoluta
ou do profeta elias
ou de um filho da puta


à espera que algo nasça

ou que algo faça efeito

ou então da desgraça

que leve tudo a eito

à espera que uma bomba
com mil garras de lume

nos rebente na tromba

e nos devolva ao estrume

disso é que eu ando à espera
e que não esqueci nunca

que venha a bruta fera

e a sua garra adunca

o caixão e o verme

o coval e a formiga

e eu ali tão inerme

sem nada que vos diga


depois à espera enfim

há quem nisso acredite

que eu me regresse a mim

que todo ressuscite
que junte ao tronco os braços

as minhas pernas fartas

todo
s os meus pedaços
comidos p’las lagartas


ah falta-me a cabeça

por muito que lhe custe

que ela aqui compareça

pra completar o embuste

vou esperá-la aflito

pois é-me imprescindível

p´ra encarar o infinito

cheirar o indizível


preciso pois do ouvido

e destes olhos meus
para ouvir o grunhido

ver a sombra de deus

quero principalmente

a boca escancarada
p’ra nas barbas desse ente
dar uma gargalhada



Anthero Monteiro (inédito)
Porto/S. Paio de Oleiros, 27/04/06

domingo, 30 de agosto de 2009

Trouxas-de-ovos







In
cakesbelo.blogspot.com



o estrata-
gema
da Clara

Anthero Monteiro
(poetrix inédito)
-----------------

Já aqui falámos muitas vezes de poetrix, aquela linguagem minimalista, que tem já milhares de cultores em todos os continentes e que foi criada pelo poeta baihano Goulart Gomes, inspirado nos haikai japoneses, deles diferindo apenas porque, sendo também tercetos, possuem ainda um título.

A riqueza do poetrix está muitas vezes na multiplicidade de interpretações possíveis.

Ocorre-me a propósito aquele miniconto do guatemalteco Augusto Monterroso, que é considerado o mais curto do mundo e que, no entanto, tem originado inúmeros estudos e mesmo teses universitárias:

Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.

E a tradução, para que não restem dúvidas sobre o significado daquele "todavía":

Quando despertou, o dinossauro ainda estava ali.

Saiam também longos estudos sobre estas "trouxas-de-ovos", que eu gostaria fossem deliciosas, para que a Clara consiga mais facilmente os seus intentos...

sábado, 29 de agosto de 2009

TERRAS DA FEIRA entrevista Anthero Monteiro







LITERATURA
Anthero Monteiro e o seu percurso no mundo das palavras

“Sou muito mais um poeta de inspiração do que
de transpiração”


A segunda edição do seu livro de poesia “Desesperânsia” foi apresentada em Junho deste ano. Participou na colectânea de ensaios “Catorze escritores do Norte” com um texto sobre Sophia de Mello Breyner e tem agora um blogue dedicado à poesia em www.pracadapoesia.blogspot.com. Anthero Monteiro, de S. Paio de Oleiros, usa as palavras para falar da vida, do mundo, de tudo porque é proibido proibir. Garante que há público para a poesia, mas que ainda há muito a fazer por ela. Por isso, continua de serviço a alimentar-se e alimentar muita gente de versos que rimam ou não.


Divulgar poesia e poetas: um percurso atribulado ou uma forma de estar na vida?

É mais uma preocupação de permanente aprendizagem, uma prestação de serviço voluntário, uma forma de partilha. Digamos que a minha formação intelectual e talvez ética me obriga a estar permanentemente ao serviço. Quem me conhece sabe que houve sempre em mim algo que me moveu nesse sentido e de múltiplas formas, independentemente de sabermos se esses serviços prestados são válidos ou não… Por outro lado, não posso negar que há nisso, porventura, também uma motivação egoística, para além da aprendizagem pessoal: é que também me divulgo a mim e, ao ler em voz alta o que escrevo, vou avaliando a reacção do público e concluindo se o poema lido é apreciado ou não. Isso pode ser decisivo para o considerar publicável ou não…

A poesia é uma forma de olhar o mundo através das palavras?

Não é só uma forma de o olhar: é uma forma de o tornar melhor e mais habitável. Toda a gente olha o mundo e fala dele a seu modo. O poeta, com as palavras que escolhe para falar dele, embeleza o que escreve e o objecto dos seus versos. Pelo menos, pretende fazê-lo.

Como nasce essa vontade de escrever?

Nasce da vontade de intervir e criar: quando digo “criar”, quero dizer exactamente isso de melhorar o que nos rodeia: por isso, se equipara o poeta a um deus…

Escreve todos os dias ou só quando a inspiração bate à porta?

Sou muito mais um poeta de inspiração do que de transpiração. Ando sempre com um bloco e uma esferográfica, mas normalmente só tomo algumas notas de possíveis temas ou ideias para incluir no poema. O poema vai-se fazendo no subconsciente e, de repente, sento-me no computador, se está à mão, e escrevo. Mas não estou sempre a escrever, nem tenho tempo para isso. Bem sei que me vão dizer que, estando aposentado, tenho todo o tempo do mundo. E quem faz a mudança da biblioteca da minha terra para as novas instalações? Ou os livros e tudo o mais vão lá ter voando? Alguém imagina que, mesmo estando a Biblioteca encerrada para férias, eu estou lá dentro praticamente todos os dias? Para além de poeta, por gosto (será por mania?), sei que tenho compromissos que estão em primeiro lugar. É mais um serviço que julgo prestar, que alguns talvez achem que não presta para nada. Outros (e até alguns responsáveis) nem dão por isso… Preferem acreditar que a providência se encarrega de tudo e que não compete a cada um fazer o que tem de fazer.

Um livro, um quadro, uma pessoa... Tudo serve de inspiração para quem escreve?

Claro, tudo serve de pretexto e pode ser objecto do poema. Mas às vezes são as próprias palavras que o constroem, ou seja: algo serve de motivo ao poeta; ele começa a escrever e, por vezes, não sabe onde vai parar, mas são as próprias palavras que o vão conduzindo até ao fim.

Há assuntos proibidos para a poesia?

Isso seria negar a essência da própria poesia. António Ramos Rosa tem um livro já antigo intitulado “Poesia, Liberdade Livre” e é essa formulação que me serve de norma de conduta poética: é proibido proibir.

É complicado ser poeta hoje em dia?

O que mais há é poetas e gente a publicar. Há muita gente a pagar às editoras para isso. Não parece ser difícil aparecer-se como poeta. Mais problemático será o futuro reservar a tanta gente uma linha que seja nas páginas da literatura. Só mais tarde, portanto, saberemos quem foi um verdadeiro poeta, independentemente de todas as injustiças a que todos estamos sujeitos.

No seu livro “Desesperânsia”, cuja segunda edição foi lançada em Junho, centra-se em que aspectos?

A primeira edição saiu em 2003 e esta é cópia fiel. Trata-se de uma sequência de textos que percorrem um trajecto temático mais ou menos lógico do nascimento à morte, passando pela infância, pela descoberta da poesia aos 12/13 anos, pelo amor, pelo desamor, pelo sono, pela insónia e pelo sonho, pela reflexão sobre o que estamos a fazer no mundo, na certeza de que, como diz o poeta italiano Cesare Pavese, numa das epígrafes do livro, “não há nada mais amargo do que a inutilidade”. Os poemas incidem sobre as grandes obsessões do poeta, sendo a maior de todas a da morte, que ele trata com particular atrevimento e ironia, como se a não temesse e quisesse afeiçoar-se-lhe. E sabendo que isto é uma passagem e que importa ser útil, apesar de todo o desespero e de toda a ânsia (a tal “desesperânsia”), termina com um último conselho: “não sujes mais / limpa os pés / antes de saíres”.

Faz também parte do grupo de autores de todo o mundo representado na “Antologia Poetrix 3”. Como surgiu esta oportunidade e qual foi a sua contribuição?

Fiz parte do M.I.P. – Movimento Internacional Poetrix, uma comunidade poética que pratica uma modalidade criada pelo poeta bahiano Goulart Gomes, inspirada nos haikais japoneses (uma e outra são simples tercetos). Cheguei a ser coordenador nacional e ganhei, em dois anos consecutivos, o primeiro prémio do concurso realizado anualmente a nível internacional. Publiquei, aliás, o primeiro livro português e europeu de Poetrix, intitulado “Esta Outra Loucura”. Mas já tinha sido seleccionado também para a primeira antologia de Poetrix, publicada pela Scortecci, no Rio de Janeiro. Quando entrei para o mestrado na Universidade de Aveiro, abandonei o movimento por falta de tempo, mas continuei a escrever os meus tercetos, tendo sido recentemente convidado a participar na terceira antologia com uma série de 9 poetrix, que foi o que coube equitativamente a cada poeta participante.

Participou também na colectânea de ensaios “Catorze escritores do Norte”. Por que razão escolheu falar de Sophia de Mello Breyner?

O mentor desse projecto foi o Orlando da Silva, da Vergada, que se corresponde com inúmeros escritores de todo o país. Tenho a honra de ser amigo desse homem íntegro e amante da Cultura, um cidadão interveniente e útil à comunidade, que alguns, se pudessem, gostariam de apoucar, por despeito. O Orlando convidou esses escritores e incumbiu-os de tratar, cada um, de um autor do Norte. A mim, coube-me escrever sobre Guilherme Braga (já tinha pronto um texto proveniente de um seminário em que participei na Universidade) e sobre a Sophia. Por mim, não teria escrito sobre ela, porque eu não era grande apreciador e nem sabia tanto como isso. Tive que investigar e fui o último a entregar o trabalho. Mas agora acho que valeu a pena: aprendi muito e agora percebo as bases da obra andreseniana, que prima sobretudo pela sua extraordinária coerência.

Tem um blogue que se assume como uma praça onde se apregoa a poesia. Mais uma forma de divulgar poesia?

Mais um serviço de voluntariado, se quiserem vê-lo assim. O blogue vai fazer um ano em Setembro e a Praça da Poesia já excedeu os 600 posts e por ela passaram mais de 200 poetas portugueses e estrangeiros. E se digo que é um serviço é porque, nas muitas sessões das várias tertúlias que coordeno – outro serviço gratuito para a(s) comunidade(s) –, os leitores de poesia que comigo colaboram servem-se normalmente dos textos ali colocados.

Tem um poeta de eleição?

São tantos os poetas de que gosto que é complicado optar. Mas posso citar como poetas que aprecio muito: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Cesário Verde, Manuel Laranjeira, Mário Dionísio, Al Berto, Cesariny, David Mourão-Ferreira, O’Neill, Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Eugénio de Andrade, Sophia, Daniel Faria, Gonçalo M. Tavares, Levi Condinho, Rosa Alice Branco e Daniel Maia-Pinto Rodrigues. Entre os estrangeiros, os brasileiros Drumond e Vinicius, o chileno Pablo Neruda e a polaca Wislawa Szymborska. Esqueci dezenas decerto, mas não deixarei de mencionar a poeta Manuela Correia, que vive em Santa Maria da Feira, nas Ribeiras do Cáster, há muitos anos, e de quem o concelho, exceptuando a revista “Villa da Feira”, ainda não deu conta. Ora a cultura não se faz apenas com os que vêm de fora…

O Concelho tem dado a devida atenção à poesia através das iniciativas culturais que vai promovendo?

Salvo honrosas excepções, creio bem que nem por isso… Uma ou outra escola de concelho pede a minha presença, mas é de fora sobretudo, até de algumas câmaras, que vêm solicitações: Porto, Gaia, Famalicão, S. João da Madeira, Évora, Entroncamento, etc. Parece que outra das honrosas excepções é o “Terras da Feira” que, como se vê, se lembrou de mim e a quem eu muito agradeço esta oportunidade.

Continua ligado a vários colectivos que recitam poesia. Essas iniciativas têm público? Há cada vez mais gente e querer ler poesia de forma espontânea?

Na maior parte dos casos, não estou apenas ligado a esses colectivos: coordeno-os. A Onda Poética de Espinho está viva, com mais ou menos dificuldades, há quase uma dúzia de anos. O Quarto Crescente, na Biblioteca de S. Paio de Oleiros, só se realiza quando há apoios, mas consegue reunir entre 60 a 80 pessoas (sala cheia) e já faz parte do roteiro de qualquer amante da poesia. As Quartas Mal-Ditas do Porto costumam encher também o piano-bar do Clube Literário. E todas as quartas-feiras, há poesia no Púcaros Bar, junto à Alfândega do Porto, e eu, que já lá vou há mais de dez anos, estou lá a abrir a sessão, muitas vezes com o bar cheio e atento ao que ali se passa e com um número significativo de poetas e leitores a mostrar os seus dotes. Por isso, há público para a poesia, ainda que eu sinta que há muito a fazer ainda por ela. Por isso é que eu e outros estamos de serviço permanente a sensibilizar as pessoas e a dar-lhes poesia de comer, que é para isso que ela serve, segundo dizia a Natália Correia.


In Terras da Feira de 27/08/2009

domingo, 23 de agosto de 2009

Poesia na RTV





Amanhã, às 16 horas, no programa

CONTRASTES
da RTV - Regiões Televisão (Porto),

será abordado o tema da Poesia.

Presença dos poetas

ANTHERO MONTEIRO e

DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES

Apresentação de

DELFINA ROCHA

sábado, 22 de agosto de 2009

Automóvel




In projecto
O Animal e a Selva,

V. N. Gaia, Alvacar 1982/2002





a noite e a distância

são o teu pasto de besta esfaimada

uivas para as ursas

e devoras as estrelas dos caminhos

persegues o fogo dos teus próprios olhos

e o sonho dos domadores
de eternidades

o lince mal cata os teus rugidos

socorre-se do fojo das trevas

e desaparece nas cumeadas de outrora


em terra de lince
quem tem os teus olhos

não é apenas rei

impera

e dita

dor



Anthero Monteiro, in projecto O Animal e a Selva,
V. N. Gaia, Alvacar 1982/2002

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Ovelhas




Élio Oliveira,

David sinaleiro
(ou Alvacar 1)
,
técnica mista
sobre tela,
2001







Passavam longamente
pelo carreiro
e faziam o mesmo trajecto

das enxurradas

corriam para o lado do mar

à procura de um mar verde

de erva

era um rebanho-centopeia

que o pastor
levava preso ao assobio

mas o carreiro tinha a mania das grandezas

engordou engordou

à força de alcatrão


o pastor mudou de profissão

só ficou com o vício
do assobio


agora é sinaleiro

e lá vai pastoreando

o rebanho interminável

dos automóveis



Anthero Monteiro, in projecto O Animal e a Selva,
V. N. Gaia, Alvacar 1982/2002
-----------------

Há quanto tempo não vejo um polícia sinaleiro!... Mas, quando escrevi o poema (1999?), ainda os havia em Portugal...
Foi publicado nesse ano in A Lia Que Lia Lia, dirigido aos mais jovens (porque não aos demais?)

Sonho

Elio Oliveira,
Os deuses fizeram-me para sonhar (ou alvacar 3)
,
técnica mista sobre tela, 2001
(inspirado no poema)






por mais que te escapes

não te escapas do meu sonho

por mais faróis que acendas

é o meu sonho quem ilumina o teu caminho


foste o círculo primevo guardado no rochedo

ao lado dos equídeos

e tornaste-te o quadrúpede submisso e diligente

que afeiçoa a corcova

ao meu sonho de comodidade


ainda há pouco rastejavas

feito lagarta belicosa

dos que adoram os vermes tão próximos do chão

mas já te ergues sobranceiro

tapete entretecido de sonhos orientais

mais penetrante e candente do que o lume das águias


acelera

mas por mais que aceleres

agarra-te bem ao meu pensamento
lembra-te
que nasceste para me obedeceres
e seguires

a mim
os deuses fizeram-me para sonhar

e esqueceram-se do travão

Anthero Monteiro, in projecto O Animal e a Selva,
V. N. Gaia, Alvacar 1982/2002
---------------------

O poema intenta contar em traços largos a história do automóvel.
Foi escrito expressamente para a comemoração, em 2002,
dos 20 anos da Alvacar do meu amigo Álvaro Sabença.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Inventário final












e
ficou-me de herança esta fortuna
o sal das tuas mãos a mágoa agreste
esta grilheta com que me prendeste
a navalha da espera e da lacuna

o mapa dos lugares que foram nossos
e as arcas de tesouros desventradas
as horas que vivemos e são nadas
a carne usufruída só destroços

um profundo remorso indefinido
de nenhum crime salvo a louca entrega
o silêncio gritante que me verga
o sentido de tudo sem sentido

o buraco da estrela que é negrume
no sítio das colinas as crateras
o eco tão longínquo do que eras
o cilício pungente do ciúme

aquele aroma apodrecido agora
que enfeitiçou os meus caminhos todos
e vivia na graça dos teus modos
e emurcheceu nas teias da demora

o torpor de tritão que me atravessa
o gorgulho de um tédio quase insano
a traça estracinhando o íntimo pano
este verme por dentro da cabeça

falto de ti recompensou-me a sorte
dono apenas de trevas e vazio
saúdo o derradeiro calafrio
pois nada custa repetir a morte

Anthero Monteiro,
Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corp0s Editora, 2009
, 2.ª ed.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Por sobre esta náusea










Por sobre esta náusea
a raiva das nuvens
brandindo uma espada
de rápido lume

gargalhadas roucas
rolam do olimpo
e eu entrego à boca
o morto cachimbo

e aqui fico à espera
nesta hora lenta
que um raio qualquer
o cachimbo acenda

e me faça o obséquio
num só golpe assim
de matar meu tédio
e matar-me a mim

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª edição

Poema inútil














escrevo este poema com a fúria

de quem invectiva inutilmente o mar

e olho a noite pela janela do tédio
em busca de uma qualquer nebulosa

que me esconda no burel da sua comiseração


apedrejo os astros com fundas de ironia

até ao lodo profundo da madrugada

e finalmente recosto a cabeça

na cinza de um cachimbo a rescender a quimeras

aspiro os insectos de luz e incendeio-me por dentro
até iluminar todos os recessos da alma

e fazê-la fugir de vergonha de dentro de mim mesmo

depois é ver-me esmagado

verme esmagado

e deixar-me ficar a apodrecer

no caroço da eternidade

já sem voz nem canto nem vagalume de anseio

feito apenas um grito incessante um ténue estertor

coberto pelo zumbido do globo

e pelo gonzos enferrujados dos continentes


escrevo esta poalha que o simum dispersará

pelas areias entre as pinças de um escorpião

não espero glória nenhuma

nem o teu beijo

meu desamor
me há-de premiar

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª edição

Poema dos braços inúteis















agora só tenho braços

para cruzar perante o irremediável

ou segurar esta ânsia de chão

que me comprime a nuca


souberam guardar tesouros imperecíveis

velar o sorriso por dentro do teu sono

e a nebulosa que te faz sonhar

julgaram preservar dos cardos

a seda do teu suave existir

empreenderam mil lances de aventura

detiveram o emurchecer das tardes

e pelas noites turvas solitárias

ansiaram a enseada do teu peito


foram escrínios de algum sibarita

lianas trepadeiras e gavinhas

apetecidos tentáculos

deles voaram aves peregrinas

como dos bolsos dos ilusionistas

fizeram brotar fontes em lugares
secretos do teu corpo ou da tua alma
ambos donos do mesmo lago

ambos perdidos na mesma água
esbracejámos na aflição do prazer

para mais depressa soçobrarmos


de que servem agora

os braços e estas mãos e estes dedos

e quem foi dono deles e sonhou

de ti ser dono ao menos uma tarde

uma efémera tarde como quando

julguei possuir o mar e a eternidade
só por ter nos meus braços os teus braços?


o mar que me cuspiu nos olhos míopes

não quer ser possuído mas possuir-me

e a eternidade lenta e paciente

já me exige o meu corpo mutilado
dos braços

dos abraços

e de ti


Anthero Monteiro, Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª edição

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Todos os momentos são históricos













escrevo um poema que não muda a história
rasgo um velho retrato de família
desenho um gesto ousado ou mesmo insólito
uso no rosto a mesma velha mímica
e sem pensar em nada limpo os óculos

mas todos os momentos são históricos

não desço à rua fico só no átrio
não bato à porta bate a porta dúbia
olho no espelho a minha imagem flácida
e contenho no peito a minha fúria
e contenho na carne dons eróticos

mas todos os momentos são históricos

bocejo para o tempo da intempérie
espero até que tudo esteja nítido
e também faço férias nestas férias
ouvindo ao longe o mar lúgubre e rítmico
ou uns vagos zumbidos talvez cósmicos

mas todos os momentos são históricos

digo algumas palavras transitórias
discordo mas apenas num murmúrio
opero dez mudanças mas teóricas
levanto-me já tarde sou o último
e sento-me inda tonto dos narcóticos

mas todos os momentos são históricos

dou quatro passos não ganho distância
mas ganho a náusea ganho um ténue tédio
apenas sei onde ferrar a âncora
neste porto de areias e de efémero
onde estar meramente é já uma glória

mas todos os momentos são históricos

Anthero Monteiro, Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª edição

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Partida


Juca Rocha (à frente)
e José Carlos Tinoco (atrás)
entre os demais elementos
do colectivo "Musa ao Espelho"

in Portal Municipal
da Póvoa do Varzim




(à memória de Juca Rocha e
para José Carlos Tinoco)


finalmente o pianista disse
tocar sempre também cansa

agora é a vossa vez


e partiu


ficámos todos à procura dos dedos

mas as mãos eram apenas
punhos compactos de raiva


um violoncelo afoitou-se
a escavar o silêncio

para sugar-lhe as lágrimas

um saxofone ergueu a cabeça animal
e ganiu gutural uma alegria amarga


os poemas deram as mãos às canções

aos soluços e ao júbilo inventado

perante o sorriso aquiescente do ausente


na hora de descer ou subir ao infinito

os seus dedos alheios às teclas

ou um pé de vento súbito

desencadearam arpejos nas cordas íntimas do piano


foi então que reachámos os dedos e as mãos
para o último e reconhecido aplauso


24 Março 2008

Anthero Monteiro
, in Revista Villa da Feira n.º 19

O peso da cabeça




minha cabeça pesa
vai-me cair ao chão
e o peso vou sustê-lo
na palma desta mão
forçando o cotovelo

de espera ou de cansaço
de fome ou de tristeza
há-de ceder-me o braço
de tanto que ela pesa


no silêncio de um grito
adora o infinito
mas procura-o no lodo

minha cabeça pende
(sinto-me bem? ou mal?)
minha cabeça tende
a pôr-me o corpo todo
sobre a horizontal


Anthero Monteiro, Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª edição
________

Certo dia, fui ao médico e, quando me perguntou de que me queixava, pedi licença para ler apenas este poema...

Testamento














se eu morrer amigos
tentarei compensar-vos do susto
não da minha morte
mas desta conjunção condicional

sejamos razoáveis
quando eu morrer
deixo-vos a totalidade dos meus bens e dos meus males
deixo-vos também o melhor fato
será desnecessário vestirem-mo
muito menos estrangular-me com a gravata de seda
estrangulado estou eu
acho mesmo que vivi estrangulado a vida toda
fique o guarda-fatos ao vosso inteiro dispor
e os sete pares de sapatos e as escovas
e os anéis e os emblemas que me recusei a usar
não precisarei sequer de um lenço branco
para o último dos adeuses
adeuses foi o que eu andei sempre a acenar
aos instantes e aos dias
a todos os que amei a tudo o que amei e não devera amar tanto
porque amar é a melhor maneira de ir semeando desertos

será escusado colocarem-me enchumaços de papel
para levantar os ombros ou nivelar os pés
porque iriam preocupar-se com a estética
agora que é tão tarde e tão inútil
para quem vai a descer de nível para sempre?

para além do mais
deixo-vos um pouco mais de espaço
não vos deixo a paz
mas deixo-vos em paz
e não precisareis mais de atender aos meus argumentos
porque então levarei comigo a razão para sempre

deixo-vos o mundo e todos os mundos e imundos por descobrir
e todos os paradoxos e problemas e enigmas
mas não vos deixo as soluções
pois só as encontrarei do outro lado do espelho
e vou precisar delas para ser feliz

deixo-vos os sonhos e os pesadelos e as insónias
prometo então dormir sem sobressaltos
e sem aquela obsessão de roubar as horas às madrugadas
com o que apenas consegui apressar a minha morte

deixo-vos o bafio das monotonias
o bolor do tempo e as tardes apodrecidas
os ciclos permanentes da água e do sol
a lei dos graves e as grávidas
cuspindo os nados-mortos que já somos

deixo-vos as cidades espezinhadas e mil penachos de fumo
o urro das multidões esfaimadas e defraudadas
os gatilhos para os dedos frenéticos
os arsenais repletos de loucura
os ditadores os que assumem o seu despotismo
e os que se escondem atrás de estátuas de liberdade
incluindo os chefes minúsculos aos berros maiúsculos

deixo-vos a herança sempre renovada
do homem lobo do homem
apostado em encher as páginas da história de façanhas
repetidas desde a caótica harmonização do caos
deixo-vos pois essa oportunidade de continuarem
a construir a destruição

para além da razão e das soluções agora garantidas
para além da sombra que me pertence
deixem que leve apenas comigo algumas vagas lembranças
talvez uns olhos miúdos de esperança inundados

talvez aquele sorriso que foi o mais aconchegante dos abraços
talvez a sangria do ocaso precedendo o desmaio do dia
talvez as volutas voluptuosas dos violinos
e as espirais e devaneios do fumo do cigarro
e as fantasias das revoadas das pombas sobre os telhados
e todas as outras sinuosidades
incluindo as dos meus erros na vida
que foi a minha única maneira de aprender a caminhar

deixo-vos um montão de poemas
para a leitura sôfrega das labaredas
deixo-vos um pouco mais de esterco
para as seivas da insanidade
deixo-vos os mesmos deuses mudos e sectários
que me deixaram a mim
deixo-vos a minha bandeira azul e a rubra e a verde
que nada construíram
deixo-vos a chuva companheira de toda as minhas glórias

deixo-vos deixo-vos deixo-vos


Anthero Monteiro, Desesperânsia,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2009, 2.ª edição
-----------

Tal como o poema "Controvérsia", este constaria também infalivelmente de uma antologia organizada por mim da minha própria obra: é o "meu" poema predilecto.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Só porque




Pintura de
Margarida Lima
inspirada em
Canto de Encantos
e Desencantos,
aquando do
lançamento da
1.ª edição
(1997)






Só porque tu existes
(e é sempre tempo de descobrir uma nova galáxia)
equilibro nas mãos o mar e o céu
e sou descuidado funâmbulo
sobre o fio do horizonte

Só porque tu existes
(e existes cada vez mais dentro de mim)
a vida desabrochou púrpura
o meu sangue deu cor às rosas
e as rosas despertam as almas dos violinos

Só porque tu existes
(quem me tirou as escaras dos olhos?)
basta-me este allegro moderato
para que fique completa
a inacabada sinfonia de Schubert

Só porque tu existes
(e é inenarrável ver-te existir)
passei também eu a amar-me
por ser belo quem ama a beleza
por ser bom quem ama a bondade
por não ter idade quem ama a juventude
e esconde no coração finito
o que é incomensurável

Só porque tu existes
(sim só porque tu existes)
a ternura saltou a margem do peito
as lágrimas romperam o dique
e em ondas vêm arrojar-se aos teus pés
de repente ajoelhadas
gratamente submissas


Anthero Monteiro, Canto de Encantos e Desencantos,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2005,
2.ª edição

Controvérsia




Reprodução de
desenho da
1.ª edição (1997)
da autoria de
Carmo Sousa
Pinto






Bem sei que o breve tempo da tua presença
é a maior de todas as minhas glórias
que o esboço do teu sorriso
é um sol estival e festivo
que um minúsculo gesto dos teus
abre o mar e os raios suspende
que o mais ténue dos teus cabelos
é amarra do meu navio
O oftalmologista sabe das minhas perturbações de visão
e os estilistas dão-lhe o nome de hipérbole

Bem sei que todas as estrelas lucilam
inquietas dentro destes olhos
e que as nuvens do sono as não apagam
Os ponteiros do relógio caminham trôpegos
mas há ponteiros desvairados na máquina que sou
que apontam para ti a cada segundo
que a cada segundo me despertam e alarmam
que a cada segundo gritam o mesmo nome sem tréguas
como se fossem os galos da alvorada
Todos os médicos estão de acordo:
isto não passa de uma insónia permanente
e o stress anda a minar-me os labirintos

Bem sei que perscruto o horizonte com olhos indefinidos
que os outeiros copiaram a forma dos teus seios
que as árvores se emaranharam nos teus cabelos
que o mar se espraia no teu olhar
que as linhas da tua mão esplendem na Cassiopeia
que os teus dedos espalham na vida os nocturnos de Chopin
que a tua cinta se requebra nos caprichos do vento
que o teu andar diáfano caminha com as tardes translúcidas
Há muito que Freud me explicara
que a lapa da obsessão se cravou na minha alma


Bem sei que tenho outra compostura
desde que aos meus olhos de dentro te revelaste
mas é que há em todas as coisas
sucursais do teu penetrante olhar
e eu quero que me vejas belo e magnânimo
bom e cordato justo e indulgente
ao menos desbotada imagem do teu fulgor
Dizem que são reminiscências duma moral esquecida
escrúpulos de volta aos meus ditames

Bem sei que agora mesmo
(deixa-me só concluir o meu poema)
não me importava de morrer
amarfanhado como uma pétala nas tuas mãos
sim desde que fossem as tuas
e ser em breve o almo húmus
donde brotassem nitentes magnólias à tua porta
Não me importava de beber o mar profundo
desde que fosse a tua suavidade
a empurrar-me para o abismo
Consta que é apenas velhice
este ter passado os dedos nas mil camândulas
do rosário de enganos e desenganos
que nos traz esta ânsia de não-ser

Todos terão razão Provavelmente
decidirão que nada disto é amor
Opinarão que vim de outra galáxia a cavalo de um meteoro
com estranhos ritos e palavras extravagantes
dulcíloquas mas previamente gravadas
Pensarão que os meus olhos hão-de estalar
que estas insónias só terão cura no sono da morte
que esta obsessão me levará ao convívio com os doidos
que estes escrúpulos serão o revólver do meu suicídio
que da minha campa só nascerão pedras e nunca magnólias

Pronunciem-se todos os sábios e psicólogos
conjecturem todos os analistas
julguem-me todos os juízes (e tantos são)
condenem-me e enforquem-me por impostor
A mim só me interessa o teu veredicto
Se me sorrires como só tu sabes
é porque é inelutável esta verdade:
Afinal
outra coisa não sei que não seja amar-te

Anthero Monteiro, Canto de Encantos e Desencantos,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2005,
2.ª edição
_______

Deixem-me continuar a gostar muito deste poema...
e a incluí-lo na minha antologia pessoal
entre os cinco melhores (de Anthero Monteiro, claro).
Assim não têm que me apontar qualquer imodéstia...


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Longe














Hoje preciso da fronde dos teus cabelos
para substituir estas árvores doentes
Não sei bem se é a tua imagem
se o teu nome
se as palavras dos meus versos sobre ti
que chamo para se sentarem ao meu lado

É que já não tenho forças
para levantar esta mágoa de dentro da pele
e içar os meus passos até aí

Limito-me com estar longe
o que é um bom lenitivo
para quem não pode tocar-te

Anthero Monteiro, Canto de Encantos e Desencantos,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2005,
2.ª edição

Meia-noite








Foto in
portodaspipas.blogs.sapo.pt







Meia noite ----- e cinco

horas mais provavelmente
até que algo me vença:
o cansaço de um dia dilatado
prolongado para além de si mesmo
ora à espera ora à procura
os olhos enfermos de miragens
as mãos feitas prece
como todas as mãos vazias
o silêncio doendo
na busca do teu cálido riso
a paisagem ferida
da mágoa da tua ausência

Só sei que os dias não têm sentido nenhum
comprimidos em vinte e quatro horas
Só sei que a lua fátua convocou os astros
para a vigília festiva
e não há nada para comemorar
Só sei que o intruso do vento
semeia segredos
e não há segredos nenhuns para contar
Só sei que os astros convivem
nas suas constelações
e as nossas estrelas erram ainda
por hemisférios diferentes

Só sei que o dia
devia acabar apenas no fim
O dia
só devia acabar nos teus braços

Anthero Monteiro, Canto de Encantos e Desencantos,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2005,
2.ª edição

Viver não custa nada











Capa da 2.ª edição
do 1.º livro de
Anthero Monteiro






Viver

não custa nada
É só deixar correr
e perfazer
os dias da jornada
É ir no vento
ou contra o vento
mas ir

Viver
não custa nada
O que custa é sentir
este amor este lume
e não se prescindir
deste ciúme

Viver
não custa nada
O que custa é saber
que amanhã ou depois te vou perder
e o que ainda é mais triste
é ver que o Amor das minhas alegrias
afinal não existe
porque não cabe nos dias

Viver
não custa nada
que o que torna a vida impertinente
eivada de acrimónia
é o estado de alerta permanente
é esta imensa insónia
é esta sede avara
que me corrói e não pára
que me tortura e não sara
é tu seres… é tu seres o sol poente
que não volta a nascer

Viver
não custa nada
Atravessar a vida não enfada
que o Mundo é grande e vário
e viver é mesmo extraordinário
quando p´ra além dos sóis
há o sol do teu sorriso
Mas depois
é preciso
vencer
todos os medos
de ver que o hoje foge
e que à socapa
tudo se nos escapa
entre os dedos

Viver
não custa nada
O que custa é entender
como é maior que o peito o coração
e como mesmo assim
eu sinto dentro em mim
o peito vão
tão cheio de vazio e desconsolo
que mais parece
a noz que se oferece
sem miolo

Viver
não custa nada

Muito menos
morrer

Anthero Monteiro, Canto de Encantos e Desencantos,
Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2005,
2.ª edição

Creio ser este um dos meus poemas mais difundidos na Net. E ainda bem porque é, de facto, um dos meus favoritos.