sábado, 30 de janeiro de 2010

(reserva 2)

Amor de sábado








Foto in
www.triplov.com/poesia/







Sinto-te respirar

enquanto a noite vai andando pelo mundo

e detrás das portas há mais silêncio

como se as palavras tivessem partido



Armários e cadeiras são como presenças

são presenças entre as paredes

e tudo vai vivendo de novo

sem perguntas em nós e sem mágoas.



Nas antigas memórias

onde tudo se acolhe

as vozes esperam o tempo

de renascer.


João Garção, in Inês Ramos (org.), Os Dias do Amor - Um poema para cada dia do ano,
Parede, Ministério dos Livros Editores, 2009

______

Professor, natural de Portalegre (n. 1968), licenciado em História de Arte e mestre em História Contemporânea de Portugal, vereador da Câmara Municipal de Felgueiras, autor de Os Versos do Zé Povão, onde surge, aliás, o poema transcrito com o título apenas de "Sábado".

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Inclusive às terças


Rosa Alice Branco
e Anthero Monteiro
nas Quartas Mal Ditas
(Foto do Clube
Literário do
Porto)




A casa de Sibelius encerra às Terças-feiras.
Em Tuusula, na paisagem de bétulas
só agitada pelo vento, sobre as águas serenas
do lago Tuusula e do pequeno ruído dos insectos
e dos peixes que não vêm à superfície
Sibelius compunha apaixonadamente
inclusive às Terças. Também nós ouvimos Sibelius
a qualquer dia da semana e vendem CDs
mesmo aos Domingos. Às vezes componho palavras
enquanto oiço Sibelius. É apenas o fundo hábil
em que me movo, o fundo do lago Tuusula. À superfície
vêm os despojos da poesia, junto com os passos
das pessoas no outro lado do vidro, as filas de trânsito,
as buzinas que inflamam os ouvidos. Estão a chamar-me
para as suas vidas, mas falta-me o olhar que agasalha,
as mãos que curam. Só tenho esta mão absurda
que se desprende do fundo e vem à cegueira da superfície.

Rosa Alice Branco, Soletrar o Dia - Obra Poética,
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002, 1.ª ed.

Lanche de domingo



Anthero Monteiro e Daniel Maia-Pinto Rodrigues
nas Quartas Mal Ditas do Clube Lit. do Porto, em Outubro 2008 (Foto Rafael Tormenta)




Dou uma penúltima trinca
no verdadeiro bolo da Teixeira
do aconchegante lanche de domingo.

Já à luz da porta aberta
corrijo as folgas do vestido da mulher,
Afago, um pouco melancólico,
os acobreados cabelos da cunhada
e vou-me embora
fazendo de conta que vou às putas
com o Toni Parolo.


Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Dióspiro - Poesia Reunida 1977-2007,
V. N. Famalicão, Quasi Edições, 2007
(título da nossa responsabilidade)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Carpe diem






Anthero Monteiro
lendo este seu poema
ontem, na sessão das
Quartas Mal Ditas,
no Clube Literário
do Porto (foto A.M.)








aproveita o momento


quando os olhos falam uma língua
que a língua não sabe
quando as mãos seguram o instante
como se fossem avaras de eternidade
quando os ouvidos apenas suportam
a música dos ansiados passos
e há um único aroma que se não repugna
quando o teu sorriso é o reflexo
do sorriso à tua frente
quando as estrelas são todas convocadas
para iluminar o rosto desejado
então é a hora o minuto o segundo
de fechar os olhos e ganhar asas

aproveita o momento

a vida só é curta quando não subimos
o estribo da carruagem que parte
quando ficamos a ver passar todos os comboios
a vida só é aventura quando se busca a ventura
que não tem pés para vir ter connosco
é preciso partir dar as mãos ao inédito
e assumir que quando caminhamos
nem todo o terreno é um pântano assustador
é preciso acreditar

aproveita o momento

porque outros momentos virão
em que nada pode acontecer
porque o tempo resvala inexorável
e o instante seguinte é muito tarde
e pelo menos tão desconhecido quanto este
porque os cabelos encanecem
e as mãos ficam murchas de esperança
e o peito qualquer dia é um assento de pedra
porque só agora é agora e logo o sol já se deitou
e amanhã já perdeste metade dos ensejos

aproveita o momento
e eterniza-o o mais que puderes
aproveita o momento
e dá-lhe as boas vindas
sorri-lhe manda-o entrar
e adormece no seu ombro

Anthero Monteiro (inédito)
S. Paio de Oleiros, 17 de Dezembro 2009

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Poema extra-tema do mês

Poesia aliou-se à Filosofia nas Quartas Mal Ditas












































Imagens da sessão de ontem das Quartas Mal Ditas no Clube Literário do Porto, coordenadas por Anthero Monteiro (Poesia) e Tomás Carneiro (Filosofia).
A sessão foi subordinada ao tema Carpe Diem. Na primeira parte, foram lidos vários poemas sobre o tema pelos elementos da tertúlia. Na segunda parte, foi feito, em permanente debate, o tratamento filosófico do tema e de alguns dos poemas.
Os interlúdios musicais estiveram a cargo dos guitarristas Ricado Gomes e Tiago Sousa.
A sala, como as fotos comprovam, estava apinhada de público, interessado e participativo.

Canto décimo primeiro



















Anteontem primeiro domingo de Novembro
a névoa podia-se cortar à faca.
As árvores brancas da geada e as estradas e planícies
pareciam cobertas por lençóis. Depois apareceu o sol
enxugando o universo e somente as sombras
permanecem banhadas.
Pinela, o camponês, atava as cepas
com ervas secas que segurava entre as orelhas.
Enquanto trabalhava falei-lhe da cidade,
da minha vida que passara num relâmpago
do meu terror da morte.
Aí silenciou todos os rumores que fazia com as mãos
e só então se ouviu um pequeno pardal cantando ao longe.
Disse-me: medo porquê? A morte nem sequer é maçadora.
Apenas vem uma vez!


Tonino Guerra, O Mel
,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003
______

N. Santarcangelo di Romagna em Itália, 1920, Tonino Guerra, é escritor, poeta, contista e premiado argumentista de filmes.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Domingo




Foto in
www.kleine-gallier.de







As vozes das crianças sobem altas no jardim,
Verticalmente e, como as flores,
De várias cores.
O Sol dir-se-ia estar parado e a tarde não ter fim.

Quantas vezes hei visto
Na minha vida este cenário ideal
E sempre igual!

Mas as flores são outras
E as crianças são outras
E nunca é o mesmo dia.

Tudo mudou. Nada mudou.
Tudo se foi. Nada se foi.
Se alguma coisa alguém perdeu,
Esse fui eu.

Cabral do Nascimento, Cancioneiro,
Porto, Editorial Inova, 1976

Domingo









Foto in

pensees.precieuses.over-blog.com/20-index.html


O cego ao fim da rua e o violino
e este sol indolente de domingo
soprando uma ameaça de beleza
nas cabeças despenteadas
que surgem por acaso nas janelas

Abarcando tudo entrando em tudo
a música do cego ao fim da rua
insistente errada mas dormente
sem uma esmola no chapéu

E eu indiferente a tudo isto?
Que se passa Música de cego
que tanto me buliste sempre até cá dentro?

É a força que nasce?

Mário Dionísio, Poesia Incompleta,
Lisboa, Publicações Europa-América, 1966, 2.ª ed.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Eternidade







Foto Anaas








bem sei que não somos eternos minha eterna esperança
se fôssemos eternos não seria tomado pela urgência do amor
pelo instante desejo de entrar no teu corpo pela porta da tua alma
ou de entrar na tua alma pela porta do teu corpo
(essa urgência tudo confunde e nem há tempo para discernir)

se fôssemos eternos o meu cérebro não seria esta confusão de labirintos
e provavelmente estaria condenado a nem sequer enlouquecer
é porque não sou eterno que transporto em mim uma rede
de estradas e de túneis atulhados de aceleradores
ansiosos por chegarem ao outro lado de nenhures

se fôssemos eternos não respiraria fundo tantas vezes
para recuperar e sorver em haustos a vida
que escapou como um pássaro inútil
não procuraria eternidades em cada encontro
em cada dar e receber as mãos na firmeza de cada amplexo
nas três pétalas de um olá nas cinco chagas de um adeus

se fôssemos eternos não haveria em nós a premência da beleza
e em vez de uma rosa qualquer cardo seria a perfeição
não precisaríamos de emprego de médico de aspirina
de fonte ou de plantação porque tudo estaria assegurado
pela própria eternidade incólume a todos os males

mas os males seriam equiparados aos bens
e não precisaríamos da inveja nem do ódio
mas prescindiríamos também do desejo
e da carícia e da ternura e do amor
e deste dar-se e receber eternas promessas

se fôssemos eternos veríamos que a eternidade
seria um céu uniformemente azul
sem o sulco da quilha de uma nuvem
uma extensa necrópole de campas rasas
um imenso glaciar resvalando para o nada

e se o beneplácito dos deuses me obrigasse
agora à eternidade eu sei que choraria pesaroso
aquele instante efémero e eterno
em que os teus olhos vieram poisar nos meus
e prometer-lhes mais que a eternidade

Anthero Monteiro (inédito)
S. Paio de Oleiros, 26 Janeiro 2010

______

(Texto extra-tema do mês)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ao coração num domingo














Eu te agradeço, coração,
a diligência, porque te esfalfas
sem adulações, sem prémios,
numa inata urgência.

Tens setenta merecimentos por minuto.
Cada tua contracção
é como impulso a um barco
no mar alto
em rota de circum-navegação.

Eu te agradeço, coração,
por uma vez e outra ainda
me ires retirando de um todo
mesmo no sonho separada.

E zelas por que não sonhe um voo fundo
um voo tão fundo
que torne desnecessárias as asas.

Eu te agradeço, coração,
por mais uma vez ter acordado,
e por, embora domingo,
dia de descanso,
sob as costelas
ir o frenesim normal das sextas-feiras.

Wislawa Szymborska, Paisagem com Grão de Areia,
Lisboa, Relógio D´Água, 1998

Dia 13 Sexta-Feira





















Acordei estremunhado
com a grande chinfrineira
do relógio avariado
na mesa de cabeceira.
Era hora já tardia,
tão tardia de maneira
que ia perder — que arrelia! —
o autocarro da carreira.
Mas que fazer, se era dia…
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Corri logo a tomar banho,
escorreguei na banheira
e fiz um enorme lanho
ao cair contra a torneira.
Enchi de sangue a toalha,
quebrei a saboneteira.
Parecia uma batalha
com toda aquela nojeira.
Não há ninguém que me valha,
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Ao pequeno almoço, o pão
queimou-se na torradeira.
Entornei leite no chão
e partiu-se a cafeteira.
Ao lutar c’um esfregão
contra uma varejeira,
bati mas foi com a mão
no vidro da cristaleira.
Para o vidro não é bom
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Mal saí, uma cadela
que rebentara a coleira
mordeu-me numa canela
com pontaria certeira.
Tropecei numa raiz
duma enorme laranjeira
e bati com o nariz
numa cobra cuspideira.
É data muito infeliz
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Fui para a escola já tonto
de tanto azar e canseira.
Para mais havia ponto
que não era brincadeira…
Mas a colega Angelina
empurrou-me da carteira,
embati contra uma esquina
e estraguei a lapiseira.
O que é… não se imagina
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Mal saí, fui jogar bola
para o larguinho da feira.
Dei logo cabo da sola
da minha pobre chuteira.
Fintei o Jorge, o Tiago,
a outra equipa toda inteira,
mas o chuto fez estrago
no vidro da costureira.
Que dia tão aziago
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Depois passei pelo prado
e caí então na asneira
de me sentar descansado
debaixo de uma oliveira.
Veio esperto um passarinho
e fez-me grande sujeira
no meu branco colarinho
e também na cabeleira.
Mas que dia tão daninho
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Foi ao voltar que dei fé
de ter perdido a carteira,
de ter perdido o boné,
de ter perdido a pulseira.
Por distracção ou por pressa,
por engano ou parvalheira,
também perdi a cabeça
e não foi a vez primeira!
Não sei que mais me aconteça
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!

Atirei-me para a cama
numa imensa choradeira:
— Ninguém me ama, ninguém me ama!
Não há ninguém que me queira!
…Mas o vizinho Rodrigo,
ao ouvir tal barulheira,
ao sentir que eu estava em perigo,
veio ter à minha beira
e ficou ali comigo
numa ternura fagueira.
Parecia um bom abrigo
para a minha vida inteira
Ganhei então um amigo
DIA TREZE SEXTA-FEIRA!


Anthero Monteiro, A Sara Sardapintada,
V. N. Gaia, Corpos Editora, 2004

domingo, 24 de janeiro de 2010

Exercício de leitura básica numa sexta-feira 13



Château de
Saint-Germain-en-Laye








Ao volante, no periférico
de saint germain-en-laye, pela estrada engarrafada, enquanto as luzes
se acendem, e à minha frente um condutor sai do carro
para tirar o rádio do porta-bagagens, dou comigo na estrada
de lisboa para setúbal, já a chegar à curva de azeitão. No periférico
interior, ainda antes de versalhes, um ar de luzes decadentes
limpa o ar da poluição parisiense e traz de volta
essa curva de azeitão, já longe de lisboa, onde o carro hesita
antes de se meter na curva, como se preferisse entrar
em azeitão - mas para fazer o quê, em azeitão? Enquanto que aqui,
a caminho de saint-germain-en-laye, não tenho nada que
hesitar: versalhes, para a direita, não me chama;
pelo contrário, em saint germain-en-laye
há o liceu internacional onde, daqui a pouco, vou
ouvir gil vicente. Ouço-o em francês, em português, em franco-português
e, até, em brasileiro - mas de que outro modo poderia ouvi-lo, num liceu
internacional, a esse gil vicente, que se ficou pelo português e pelo
castelhano, se não contarmos com o galego e
com o latim de sacristia? Ouço-o, e enquanto o ouço dou mesmo essa
curva de azeitão, a fugir da arrábida, mesmo que o meu destino possa ser
setúbal onde não há nenhum liceu internacional, onde não se ouve gil
vicente em língua nenhuma, e onde nenhum condutor, no periférico que
vai de versalhes a saint germain-en-laye, sai do carro para tirar
o rádio do porta-bagagens, na estrada engarrafada que nunca poderia ser
a estrada deserta que os chevrolets tomavam para engarrafar
o caminho que leva de sintra a álvaro de campos.


Nuno Júdice, Teoria Geral do Sentimento,
Lisboa, Quetzal Editores, 1999

Filosofia & Poesia de mãos dadas nas Quartas Mal-Ditas


Como sempre na quarta Quarta-Feira de cada mês, o colectivo das Quartas Mal-Ditas estará no Clube Literário do Porto, no próximo dia 27, às 22 horas, para uma sessão de leitura de poemas, coordenada por Anthero Monteiro. Aos poemas seguir-se-ão as habituais conversas, desta vez de teor filosófico, conduzidas por Tomás Guimarães Carneiro, que assim vem enriquecer a tertúlia.

Não faltará também a música, ao cuidado, nesta sessão, de Tiago Sousa e Ricardo Gomes, que interpretarão várias peças de guitarra clássica.

A não perder este café filosófico-poético, subordinado ao tema "CARPE DIEM", numa conjugação que se espera inovadora e fecunda.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Domingo



Edith Gérin,

Avenue des Gobelins (1948)

in

mol-tagge.blogspot.com

-

-

-

Entre a fila de árvores da avenida dos Gobelins

Uma estátua de mármore leva-me pela mão

Hoje é domingo os cinemas estão cheios

Os pássaros nos ramos contemplam os humanos

E a estátua beija-me mas ninguém nos vê

A não ser uma criança cega que nos aponta com o dedo.

Jacques Prévert, Palavras / Paroles,

Lisboa, Sextante Editora, 2007

Fim de semana






Alexandre O'Neill
foto de Jaime
Cortesão Casimiro
in A Phala n.º 88










Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve para esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.

Alexandre O'Neill, Tomai lá do O'Neill,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1986


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010







Leonardo Da Vinci,
La Gioconda, 1503-05
,










estou só com todo o universo sobre os ombros

escuto apenas ao longe não sei se o mar
se o eco do perfume doce e macio da tua voz
o desfraldar dos cabelos que emolduram
o suave clarão do teu sorriso
o sussurrar alvoroçante da tua saia

abro as mãos vazias apenas sujas
de algumas cinzas que ficaram
dos parcos dias incendiados
algumas lembranças já ténues já dispersas
de um júbilo diferente de todos os outros regozijos
de uma exultação diferente de qualquer outra exaltação

teria que prolongar muitas léguas os dedos
para reencontrar o que por eles se escapou
e o coração que palpitava de outro modo
é agora um brinquedo inútil que ofereço
ao bisturi dos futuros cardiologistas

estou só e esforço-me por sorrir à solidão minha irmã
mas doem-me as comissuras tomadas de ferrugem
e o sorriso quebra-se como um copo em estilhaços
mas eu sei que é preciso enganar a tristeza
sempre mo disseste é preciso insistir
fazer como o ginasta que repete sem cessar
o exercício de esgarçar as pernas atrás da cabeça

estou só mas persevero
e é ainda alombando o universo e a amargura
que me coloco em frente ao teu retrato
e me ponho a treinar sorrisos copiando-os do teu
como um pintor aprendiz reproduzindo La Gioconda
ou um actor condenado a nunca entrar num happy ending.


Anthero Monteiro (inédito)
S. Paio de Oleiros, 5 de Janeiro 2010

________
Poema extra-tema do mês














Volta à amada em uma semana






Foto in
4.pt.blogspot.com










No primeiro dia eu disse para mim mesmo
que o amor era a casa da minha vida.

No segundo dia as maravilhas
do amor quase me cegavam.

Guardei o terceiro dia para meditação.
Precisava reentrar em mim.

No quarto dia senti-me sábio,
cheio de janelas e fragrâncias.

Ó quinto dia, gritei, nunca tu viesses,
dominador, devorador!

Mas no sexto dia eu era um oceano
banhando esse país rumorejante

aonde, com a guitarra ao ombro,
aportei no sétimo dia.

Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular

"Os sinos" de António Nobre

No dia 17 deste mês, Anthero Monteiro e Amílcar Mendes participaram no programa "Nobre Povo" da RTPN, com a leitura dialogada de um poema do , de António Nobre - "Os Sinos".
O respectivo vídeo pode ser visto aqui.

O Poeta no Piolho




Foto in
tripnaarcada.blogspot.com/






Hoje, por volta das 23.30 h, estarei presente nas Quartas-Feiras de Poesia do Púcaros Bar, em Miragaia, para fazer a apresentação do novo livro de António Pedro Ribeiro - O POETA NO PIOLHO. Trata-se de uma colectânea de textos escritos naquele já proverbial café da cidade do Porto, que o autor frequenta e onde se sente como se estivesse em casa.

Sendo conhecidas as diferenças existentes entre a minha poesia e a do Pedro Ribeiro, esta apresentação constituiu para mim um verdadeiro desafio. Participarão também Ricardo de Pinho Teixeira, editor da Corpos, e Luís Carvalho, que fará a leitura de alguns dos poemas do livro.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Semanário




Foto in
hr.ucsb.edu/worklife/







Na segunda-feira trabalho.
Afio enganos, anos e anos.

Na terça-feira trabalho.
Faço promessas
de vagar e de pressas.

Na quarta-feira trabalho.
Empilho o tédio em caixas.
Penduro em branco nas ruas,
as faixas.

Na quinta-feira trabalho.
Esqueço um percevejo
no fundo da gaveta
do desejo.

Na sexta-feira trabalho.
Descubro um buraco na calça.
Outro buraco na alma.
Liquido a traça.

Sábado trabalho.
No fonema, no poema.
No sonho entalado da verdade.
No dilema da felicidade.

No domingo
sento numa praça deserta.
E penso, covarde,
na próxima semana
escrita no livro da liberdade.

Lindolf Bell

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Onda Poética 14 de Janeiro


A ONDA POÉTICA DE ESPINHO dedica a sua próxima sessão, a realizar na sede da Junta de Freguesia, à Rua 23, pelas 21.30 horas de quinta-feira próxima, dia 14/01, à Biodiversidade, atendendo ao facto de 2010 ter sido declarado pela Assembleia Geral das Nações Unidas como o ano Internacional da Biodiversidade.

A escolha de poemas e a organização do programa esteve, desta vez, a cargo do professor e diseur Rafael Tormenta.

Espera-se uma vez mais o contributo musical do Grupo de Baladas Nostalgia, daquela cidade.

Como sempre, está previsto o MOMENTO DOS ESPONTÂNEOS, de tema livre, para os interessados, mesmo que não façam parte da tertúlia.

Divulguem. Compareçam. Tragam os amigos. Participem.

Chuva na areia



















Terça feira,
quarta feira,
quinta,
sexta,
tanto faz.
Ou desta ou doutra maneira,
domingo ou segunda feira,
nenhuma esperança me traz

Que eu nem sei bem pelo que espero.
Se aprender o que não sei,
se esquecer o que aprendi,
se impor meu ser e meu quero,
se, num ti que eu inventei,
nenúfares boiar em ti.

Que esta coisa que se espera
é no dobrar de uma esquina.
Um clarão que dilacera,
a explosão de uma cratera,
vida, ou morte, repentina.

António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Ai que sábados mais profundos!



Foto in
3pregrasse.over-
blog.com










Ai que sábados mais profundos!

É curioso este planeta
com tanta gente em movimento:
ondas de pernas nos hotéis,
urgentes motociclistas,
carris que vão prá beira-mar
e quantas raparigas imóveis
raptadas pelas rodas rápidas.

Todas as semanas terminam
em homens, mulheres e areia,
e temos de correr, não perder nada,
vencer colinas tão inúteis,
mastigar música insolúvel,
voltar cansados ao cimento.

Eu bebo por todos os sábados
sem me esquecer do prisioneiro
atrás das paredes cruéis:
os dias dele não têm nome
e este rumor que passa e corre
vai-o cercando como o oceano
sem descobrir qual é a onda,
a onda do húmido sábado.

Ai que sábados irritantes
armados de bocas e pernas,
desenfreadas, sempre a correr,
bebendo mais do que é a conta:
não protestemos contra o bulício
que não quer andar connosco.

Pablo Neruda, Antologia Breve

O dia da criação




Miguel Ângelo,
A Criação de Adão
(Capela Sistina)






I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos, meu Deus, de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário

Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada,
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil,
imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinicius de Moraes, Antologia Poética,
S. Paulo, Companhia das Letras, 1992
______

Esta é a minha proposta de leitura a duas vozes, de acordo com as cores usadas.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Estilo Sábado

















Colho as nozes caducas do Sábado. Os alcatruzes
calam-se para ouvir um rumor de ervas e de canaviais.
a enumeração de linhagens afogadas na água estagnada
do ribeiro. Um bater de porta cai com o sol
da tarde - e oculta-me o segredo das velhas arcas onde
apodrecem lençóis, o calor húmido dos sótãos onde
onde um anjo vomita uma negra teia de sílabas.

Conheço a obscura vibração desses frutos, a ressonância
da sua queda nas paredes dos poços. O verão dilata-os, dá-
lhes uma alma nostálgica de terra, e a noite surpreende-os
num voo imutável, batendo invisíveis asas num céu
sem lua - estrelas fixas e mudas do ocaso.

Um hálito de nuvens empurra-me para agosto.


Nuno Júdice, Poesia Reunida (1967 – 2000).
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

Sábado







Alfonsina Storni in
yoreme.wordpress.com










ME LEVANTE temprano y anduve descalza
Por los corredores: bajé a los jardines
Y besé las plantas
Absorbí los vahos limpios de la tierra,
Tirada en la grama;
Me bañé en la fuente que verdes achiras
Circundan. Más tarde, mojados de agua
Peiné mis cabellos. Perfumé las manos
Con zumo oloroso de diamelas. Garzas
Quisquillosas, finas,
De mi falda hurtaron doradas migajas.
Luego puse traje de clarín más leve
Que la misma gasa.
De un salto ligero llevé hasta el vestíbulo
Mi sillón de paja.
Fijos en la verja mis ojos quedaron,
Fijos en la verja.
El reloj me dijo: diez de la mañana.
Adentro un sonido de loza y cristales:
Comedor en sombra; manos que aprestaban
Manteles.
Afuera, sol como no he visto
Sobre el mármol blanco de la escalinata.
Fijos en la verja siguieron mis ojos,
Fijos. Te esperaba.

Alfonsina Storni

Sexta-Feira







In
victorian.fortunecity.com












E porque é sexta-feira, o tempo escorre. Corre.
Trabalhar é flutuar rumo à tardinha. Que chega, breve.
Fim de expediente. Caminho de casa.
Chuveiro frio. Sabonete. Hidratante. Roupão.
O telefone. Investigar possibilidades. Todas.
Vestido, preto. Perfume, pouco. Maquiagem, leve. Na boca, só brilho: gloss.
Um quê de charme. Mistério.
A turma, o bar, a música. Jazz, quase sempre.
Conversa fácil, vinho branco. Às vezes, uísque. Ou gin. Depende.
Vez em quando, dançar. Rosto colado, suor, desejo. Batom borrado.
Namorado?
Madrugada adentro. Quase aurora.
Entre lençóis.
Então, é sábado. Que nasce da sexta. E é quase o mesmo.

Márcia Maia
(poema fornecido pela autora do Recife - Brasil)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sexta-feira à noite












Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clítoris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti

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N. em Asmara, na Etiópia em 1937. Veio para o Brasil em 1948, tendo-se radicado com a família no Rio de Janeiro. Pintora, colabora de periódicos, apresentadora de televisão, roteirista, poeta, autora de crónicas. Em 1994, ganha o Prémio Jabuti de Poesia com Rota de Colisão (1993) e ainda o Prémio Jabuti Infantil ou Juvenil com Ana Z onde vai você? Escreveu mais de 30 obras.

Imprecação pelos que amam e não são amados




In

heavenawaits.
wordpress.com







eu que não tenho nenhum deus no olhar

quando encaro o infinito
que há séculos não trago comigo o agnus-dei que minha mãe
me pregava na roupa interior
que já nem uso calças com um bolso pequenino
para guardar o terço que desbulhei mil vezes

arrependo-me ao menos por hoje
do meu inveterado ateísmo
e ajoelho a orar sobre a laje fria da vida
por quantos e quantas conheço
que não vêem amor pagar-se com amor

tu que és omnisciente e sabes quanto pena
um coração desprezado
tem piedade dos que amam e não são amados
tem dó dos que se encerram na sua concha
incapazes de fitar o sol da realidade
com a alma inútil feita rosa amarfanhada
e os olhos a desfiar longos rosários de lágrimas
tem compaixão dos homens e das mulheres
que esperam em vão um sinal de assentimento
que se enganam a si próprios transformando
delongas em indícios de prometimentos
e um simples sorriso num oásis sonhado para toda a vida

tu que és omnipotente e operas prodígios
caminhas imune sobre o debrum do mar ou sobre a corola das labaredas
torce por clemência o destino dos que amargam
o gelo cortante da inútil espera
a inclemência dos ponteiros especados num eterno segundo
o gume das palavras que não falam esperança
a insónia de um leito de pedregulhos
a solidão dos que de repente ficaram no meio do sara
no olho do furacão ou foram sugados por um buraco negro
o irremediável desespero dos que querem fugir de si próprios
e não encontram nenhum lugar habitável por meia hora que seja

tu que és omnipresente e conheces todos os mapas e roteiros
e sabes onde mora a salvação e a graça e a bem-aventurança
mostra outro caminho aos que ouviram apenas advérbios de negação
e vão levados pelos pés obsessivos para a beira dos abismos
para os resguardos das pontes para os abraços do mar
e ensina-lhes também outra solução para os dedos
que não sejam o cloral a estricnina a lâmina de barba
aguça-lhes o olhar para que perfurem todas as barreiras
e os altos muros que confinam os seus horizontes
e os sitiam no último reduto do desespero

tu que és a misericórdia a caridade a imensa mansidão
e sabes multiplicar as dádivas do céu e os bens da terra
amerceia-te dos que não querem outro pão
que não seja o aconchego do outro
que não querem outra água
que não seja o límpido olhar predilecto
que não querem outras vestes
que não sejam as mãos amadas que forram as suas mãos

não queiras senhor capaz de todas as mercês
que apaziguas as tormentas quando não as levantas
que te acuse de termos fome e não nos dares o verdadeiro maná
de termos sede e não te desentranhares em ternura
de desnudos não nos cobrires de bênçãos
de desvalidos e doentes não nos visitar o enfermeiro-mor
de estrangeiros uns dos outros
não nos hospedar a terra prometida

condói-te sobretudo dos que amam platonicamente
porque são impolutos na sua química espiritual
porque não estão poluídas as suas lágrimas de tão destiladas
e têm dentro de si o grande deslumbramento da beleza
que viram no olhar que os tocou
ou no sorriso que lhes pareceu aquiescente
os seus desejos nunca se conspurcaram
e o seu íntimo foi até à recusa a verdadeira imagem
da ansiada concórdia universal

vejo agora que tu senhor és o maior dos ateus
não crês em ti próprio porque sendo o amor
não cuidas dos que são a tua imagem viva mas sofrente
os que experimentam o amor e não têm o amor
os que sofrem de amor e morrem de amor
porque tu como todos os deuses
alcandorados longe dos mortais
nada queres com a sua miserável condição
a que os abandonaste sem lenitivo
eles aturam a fogueira do próprio amor
para depois se consumirem na sua própria implosão
amar e não ser amado é trazer uma granada dentro do peito

é por isso que a minha súplica se fez blasfémia
e vai ser choro e ranger de dentes
meus olhos não te procuram porque nunca te descortinarão
separo as mãos unidas de uma prece sem nexo
e na impotência que nos deixaste como herança
levo-as ao rosto para chorar amargamente
por todos os que são uma dádiva sem sentido
porque amam e amam e amam e nunca serão amados


Anthero Monteiro (inédito)
S. Paio de Oleiros, 28 e 29 de Dezembro 2009

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Poema extra-tema mensal do autor do blogue.