quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Testamento de Quarta-Feira





Mário Benedetti
in
radiouniversidad.wordpress.com







Quero esclarecer que este testamento
não é o corrente cólofon da vida
trata-se antes de um legado frágil
vigente apenas até ao final de um dia

digamos pois que lego para quinta-feira
as minhas inquietações de terça
mudadas apenas um pouco pelos sonhos
e essa tristeza que é inevitável

lego uma nuvem de mosquitos
e um computador que não tem pilhas
e até a minha solidão com a esperança
de que os meus legatários não a admitam

lego à quinta-feira quatro remorsos
a chuva que contemplo e não me molha
e o feto ritual que me intimida
com a velha elegância das suas folhas

lego o ranger azul das minhas dobradiças
e uma talhada da minha sombra leve
não toda porque um homem sem a sua sombra
perde o respeito da boa gente

lego o pescoço que lavei como
para uma quinta-feira de forca ou guilhotina
e uma vontade que ignoro se é recato
ou estupidez malsã ou alegria

lego os subúrbios de uma ideia
um tríptico de espelhos que me fere
o mar ali ao alcance da mão
a hera que se agita nas paredes

e só agora penso que na minha árvore
nas minhas brumas sem rosto e no meu vinho
ficam-me por legar tantas histórias
que alguma se me esconde no esquecimento

por isso e por precaução e por causa das dúvidas
e para não afligir os meus herdeiros
deixo-as para outro testamento
digamos que para o testamento de quinta-feira

Mario Benedetti

(tradução de Anthero Monteiro)
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Poesta e ensaísta uruguaio, autor de mais de 80 livros, n. em Paso de los Toros em 1920 e f. em Montevideu em 2009.
Ficou conhecido sobretudo pela sua obra Poemas de Oficina (1956) e pelas suas posições políticas de esquerda.