quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Aos amigos






Foto in

www.brunorusso.eti.br/
brusso/amizade/











Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder, Ofício Cantante,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2009

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

That's what friends are for



Canção composta por Burt Bacharach e Carole Bayer Sager em 1982, aqui interpretada por Dionne Warwick, Stevie Wonder, Luther Vandross & Whitney Houston.
A letra é de Kelly Clarkson.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Cântico fraterno






Pablo Picasso,

Amistad







Chamo por ti.

Chamo por ti, com versos fraternais.

Nunca te vi,

Mas nascemos os dois dos mesmos pais.


Chamo em nome da vida, que me ordena

Que te diga a verdade;

É o meu lenço que acena,

Mas o cais é de toda a humanidade.


Deixa as sombras e vem!

És homem como eu sou, hás-de gostar

De pisar com desdém

A herança que não podes renovar.


O passado é o passado – já morreu.

Grande é o futuro, por nascer.

Nenhum fruto maduro prometeu

O que a semente pode prometer.


Do que foi embebedas a lembrança,

Do que há-de ser, estremeces!

Vindo, voltas a ser criança;

Mas aí, apodreces.


Chamo por ti de manso,

Numa ordeira canção;

É uma ponte de sonho que te lanço…

Passa por ela, irmão!


Miguel Torga, Nihil Sibi

Os amigos desconhecidos









Quando ouvi onde ouvi este rosto vulgar e fatigado
estes olhos brilhantes lá no fundo
e este ar abandonado e inconformado
que aproxima?

Quando ouvi esta voz
que se eleva em surdina em meu ouvido e diz
frases tão conhecidas?

Quando foi que senti
estes dedos amigos nos meus dedos
este aperto de mão
tão comovidamente prolongado?

Não somos nós dois estranhos que se cruzam
com o mesmo passado
e com a mesma féria?

Ah dois amigos velhos que se encontram
pela primeira vez

Mário Dionísio, Poesia Incompleta,
Mem-Martins, Publicações Europa-América

sábado, 26 de dezembro de 2009

Solidariedade















Vamos, dêem as mãos.

Porquê esse ar de eterna desconfiança?
esse medo? essa raiva?
Porquê essa imensa barreira
entre o Eu e o Nós na natural conjugação do verbo ser?

Vamos, dêem as mãos.

Para quê esses bons-dias, boas-noites
se é um grunhido apenas e não uma saudação?
Para quê esse sorriso
se é um simples contrair da pele e nada mais

Vamos, dêem as mãos.

Já que a nossa amargura é a mesma amagura,
já que a miséria, para nós, tem as mesmas sete letras,
já que o sangrar de nossos corpos é o vergão da mesma chicotada,
fiquemos juntos,
sejamos juntos.
Porquê esse ar de desconfiança?
esse medo? essa raiva?

Vamos, dêem as mãos.

Mário Dionísio

Amiga

















Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa, a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei prà minha boca!...

Florbela Espanca

Quando digo tu a um amigo desconhecido...





Foto in
www.frenchspin.com







quando digo tu a um amigo desconhecido
que a vida tinha feito andar até hoje noutros lados
e a vida levará amanhã para outros lados

subitamente um fiapo de domingo
com alvoroço põe-se a brilhar nas pedras
lambe a janela escorre-me do peito

as rugas caem das paredes gordurosas
uma lufada de certezas paira e despe
a lividez dos braços com olheiras

e então é como se o calor de dezenas de outras mãos
de todos que o tempo levou que a distância levou que a morte levou
ali estivesse outra vez e um sorriso

e um sorriso abertamente dissonante na tormenta
envolvesse o próprio mundo enquanto os relógios um minuto param
numa harmonia futura já no entanto viva


Mário Dionísio, Poesia Incompleta,

Mem-Martins, Publicações Europa-América

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,

Amigo vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

Tenho horror a hospitais...














Tenho horror a hospitais – os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte – mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço; não há flor bonita em campo santo!

Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos, quando a vida me amadureceu de sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram, os que um dia tiveram a minha estima e a perderam.

Quando um tipo vai além de todas as medidas e, de facto, me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério – nele não existem jazigos de família, túmulos individuais; os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrice, do mau carácter. Para mim, o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.

Raros enterros – ainda bem! – de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante – a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.

Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.

Jorge Amado, in ‘Navegação de Cabotagem – apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei’

Os amigos













no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto, in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro'

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Quando um homem quiser...






Foto A.M.









Tu que dormes a noite na calçada de relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

És meu irmão amigo
És meu irmão

José Carlos Ary dos Santos

Procura-se um amigo







Foto A.M.







Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa de saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.


Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância. Precisa-se de um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinícius de Moraes (?)

Tem sido atribuído a Vinicius de Moraes. No entanto, a sua Obra Completa, da Editora Aguilar, não regista este texto, o mesmo acontecendo com a sua página oficial, mantida pela família do poeta.

Enquanto houver amizade...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Púcaros Bar (e Anthero Monteiro) no Youtube



Estas são as imagens que puderam ser presenciadas no Jornal da Uma na TVI, há dias, sobre as Noites de Poesia do Púcaro's Bar, nas Arcadas de Miragaia, no Porto.

Desde esse dia, o Púcaros é diferente para melhor: quase sempre cheio e com muita gente nova (e nova gente) a participar. Ainda ontem, a nota dominante foi a presença de um grupo de jovens, alunos, na sua maioria, da Escola Soares dos Reis.

Como sempre, dominou também a mais completa anarquia (nos temas sobretudo), que é, ao fim e ao cabo também, uma ciência de auto-regulação:às duas e meia / três da matina ainda estávamos todos vivos e a Poesia muito mais viva do que nós.

Púcaro's Bar = Poesia Sempre.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Quartas Mal-Ditas de Dezembro: AMIZADE / FRATERNIDADE / SOLIDARIEDADE... e Padre Mário de Oliveira

É isso mesmo: na próxima Quarta que dizemos Mal Dita, a realizar no dia 23 no Clube Literário do Porto, a tertúlia irá ler poemas subordinados ao tema deste mês da Praça da Poesia.

O tema parece adequar-se ao Natal que aí está, mas o convidado que está presente para falar sobretudo do seu último livro (Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação) é mesmo considerado maldito pela hierarquia católica: trata-se do Padre Mário de Oliveira, ex-pároco de Macieira da Lixa, cujas múltiplas obras têm causado algum pânico na instituição da Igreja.

Valerá a pena conversar com ele mais uma vez e ouvir da sua voz corajosa por que razão escreve:

«Este
Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação vem pôr a nu as máfias que todas as cúpulas das Igrejas/Religiões são. Juntamente com as outras cúpulas do Poder Político e do Poder económico-financeiro. Os três Poderes juntos são a mais perversa Trindade que se faz passar por Deus/ pelo Absoluto na História e que exige dos seres humanos e dos Povos incondicional adoração/submissão.»

22 horas no Piano-Bar, com música a cargo da voz e da guitarra acústica de Carlos Andrade. Imperdível.

Saiba mais sobre o Padre Mário de Oliveira aqui.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Poema do coração


















Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967),
Lisboa, Portugália Editora, 1975, 5.ª ed.


Balada dos amigos separados



















Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? Aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?


Mário Dionísio, Poesia Incompleta,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 1966

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Catorze Escritores do Norte" - um livro colectivo













Trata-se de uma iniciativa do meu amigo Orlando da Silva, que coordenou o projecto e desenhou com grande perícia os retratos dos escritores contemplados, a saber:

Camilo Castelo Branco
Júlio Dinis
Guilherme Braga
Eça de Queiroz
Guerra Junqueiro
António Nobre
Manuel Laranjeira
Teixeira de Pascoaes
Aquilino Ribeiro
Ferreira de Castro
João de Araújo Correia
José Régio
Miguel Torga
Sophia de Mello Breyner

Para além do próprio Orlando da Silva, publicista, e de um texto sobre Camilo, da autoria de Manuel Laranjeira, médico, escritor, poeta e dramaturgo, o projecto teve ainda a colaboração dos seguintes autores:

Abílio F. da Silva, médico, ensaísta e dramaturgo
Fonseca Gaspar, escritor, poeta e ensaísta
Henrique Manuel S. Pereira,, professor, escritor e ensaísta
Humberto Rocha, escritor e poeta
António Cândido Franco, romancista, poeta e ensaísta
Manuel Lima Bastos, advogado e devoto aquiliniano
Paulo Samuel, editor e ensaísta
Carlos Maduro, professor e ensaísta
Manuel Poppe, diplomata, novelista, dramaturgo e ensaísta
Celestino Portela, advogado e director da revista Villa da Feira
Anthero Monteiro, professor, poeta e ensaísta.

O apresentador, o Professor Daniel Serrão, é, como se sabe, uma distinta personalidade ligada à Medicina, sobretudo à Anatomia Patológica e à Bioética, especialista em Ética da Vida e conselheiro do Papa.

Esta cerimónia será antecedida pela apresentação de outra obra, no mesmo local: trata-se de A Música de Junqueiro - livro e 2 cds, coordenada pelo Professor Henrique Manuel S. Pereira, um dos autores de Catorze Escritores do Norte.

Uma tarde em cheio, portanto, no próximo sábado, no Clube Literário do Porto, ali em frente ao estacionamento da Alfândega.

Vai valer a pena lá estar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Não posso adiar o amor...



















Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale sufoque e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

Um amigo







Foto in
www.forca.ca/pt/







Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpago e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca da luz.

Eduardo Bettencourt Pinto, da outra margem

Poeta e ficcionista natural de Angola. Viveu ali, em Portugal e no Zimbabué, e agora reside na Columbia Britânica (Cf. endereço acima)

Comédia humana




Foto in
www.jameslogancourier.org







Dura, enquanto convém, o nome da amizade;
no tabuleiro a pedra anda em vários sentidos...
Se a sorte se mantém, que perto estais amigos!
Mas, assim que ela cai, bateis em retirada.

A trupe desempenha, sobre o palco, uma farsa:
este, o pai; esse, o filho; aquele, um homem rico...
Mal se diz o papel e se termina o riso,
a máscara lá vai... E reaparece a face.

Petronius, Satyricon, 80
Tradução de David Mourão-Ferreira in
Vozes da Poesia Europeia I,
Colóquio Letras n.º 163

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Escritor romano do tempo de Nero, séc. I d. C.
, que foi identificado como sendo C. Petronius Arbiter, embora o manuscrito do Satyricon lhe chame Titus Petronius.