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sexta-feira, 24 de abril de 2015

Pulga na orelha















ora uma pulga expedita 
irrequieta e irritante
que saltita que saltita
e que se põe num instante
no lugar mais eminente
um dia deu-lhe na telha
sem convite e sem pergunta
de saltar mesmo prá orelha
do presidente da junta…
sim senhor, do presidente!

foi aí que o secretário
que estava a fazer a ata
viu o salto extraordinário
daquela pulga acrobata
mas tão desavergonhada
e pra livrar o colega
do inseto e afugentá-lo
no cachaço lhe pespega
um tremendíssimo estalo…
sim senhor, mas que estalada!

estatelou-se redondo
o presidente no chão
e ao ouvir aquele estrondo
a pulga decide então
pular pró outro parceiro
estava a contar a maquia
que por acaso era escassa
somava e subtraía
ele era o dono da massa…
sim senhor, o tesoureiro!

o secretário espiara
com os olhos o trajeto
do salto da pulga ignara
desse infamíssimo inseto
tão malquisto e ordinário
e zás acerta na nuca
do homem do capital
que até lhe arranca a peruca
e quebra em três um cristal…
sim senhor, lá num armário!

secretário e presidente
presidente e tesoureiro
envolvem-se de repente
com violento berreiro
num terrível pugilato
depois pararam os três
e como belos rapazes
lá decidiram de vez
fazerem ali as pazes…
sim senhor, é mais sensato!

sentaram-se os três à mesa
merendaram conversaram
riram daquela proeza
e finalmente tomaram
junto duma escrivaninha
uma grande decisão
que era a única acertada
pediram a demissão
também não se perdeu nada…
não senhor, nada nadinha!

perder é como quem diz
não é bem como se julga
perdeu a vila de Avis
o rastro daquela pulga.
se ela não estiver defunta
decerto que a esta hora
fugida àquela razia
foi há muito lá pra fora
morder noutra freguesia
sim senhor, ou noutra junta!


Anthero Monteiro
(inédito)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

foto





Foto in
asasdosversosereversos.blogspot.pt



sorri
sorri para o menininho
disse a mãe-pássaro ao passarinho
centrando-o bem na janela da polaroid

nunca me ensinaste a sorrir
objetou a minúscula ave abrindo as asitas

não disse isto com estas palavras
mas pipilando algumas sílabas periclitantes
que qualquer mãe bem sabe interpretar

disse-o porém com tal graça
que o coração da mãe se encheu de ternura
perdão
que o coração da mãe se encheu de tremura
no momento em que bicava o disparador

claro que ao sair do ventre da máquina
a foto vinha tremida

mas para quem a olhava mesmo assim
um vulto de anjo estendia as asas sobre o mundo
e um imenso sorriso pairava sobre as coisas

Anthero Monteiro

Porches, 6 de Setembro 2007

quarta-feira, 8 de maio de 2013

poesia ao natural










Foto
A.M.




escoou-se a manhã

do alto da eternidade
o sol riu-se de mim que meço o tempo
fez murchar as horas
e não floriu em mim um só poema

entretanto
mal o sol rompera
desabrolhou uma corola
no vaso da varanda
subreptícias mais outra
e outra
e outra

e muito antes da primeira meia-hora
já a flor tinha escrito um poema
inimitável

Anthero Monteiro

terça-feira, 30 de abril de 2013

Do nada ao tudo






Alunos da Escola 
da Bandeira 
- V. N. Gaia
ouvem atentos 
a leitura de  
um poema de
Anthero Monteiro



o que se faz com o nada
que nada vale nadinha?
muda-se só uma letrinha
e do nada faz-se a fada
e da fada faz-se o fado
e do fado faz-se um dado

e que fazer com o dado?
com um pouco de cuidado
muda-se o dado pra dedo
muda-se o dedo pra medo
muda-se o medo pra mudo
e do mudo faz-se tudo

Anthero Monteiro

sábado, 6 de abril de 2013

O gafanhoto












Ilustração de 
Maria Ferrand






É engraçado o gafanhoto
a jogar no totoloto

Tira o casaco e a gravata
por uns segundos balança
fecha os olhos e se lança
ao ar como um acrobata

Com umas patas assim
e mais a força das asas
paira por cima das casas
das casas do boletim

E depois cai catrapus
num quadradinho qualquer
Na casa que o acaso quer
é lá que faz uma cruz

E é sempre assim que este inseto
aos saltos e às cambalhotas
preenche o boletim de apostas
até que fique completo

E depois o seu fadário
é todo o fim de semana
sonhar deitado na cama
com vir a ser milionário

(Se ao menos o gafanhoto
registasse o totoloto!)

Anthero Monteiro
in José António Gomes (coord.), "Histórias e Poemas para Pessoas Pequenas",
Porto, Porto Editora. s.d.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Vem caçar gambozinos: poesia juvenil na Onda Poética









Na próxima quinta-feira, dia 10 de março, nova sessão da ONDA POÉTICA na Junta de Freguesia de Espinho, subordinada ao tema





VEM CAÇAR GAMBOZINOS

Vem caçar gambozinos
jovem d'olhar brilhante
e eterno coração
vem
sem nada trazer na mão
e esperes não
que eu t'empreste
meu alçapão
vem
e aprende à tua custa
que a vida não é senão
uma eterna caçada
aos gambozinos
esse animal feito de sonho
e ilusão
e que assim mesmo
vale a pena a perseguição

João Melo,
in org.Inês Pupo, 101 Poetas,
Lisboa, Editorial Caminho, 2007

sábado, 28 de agosto de 2010

Chove, chove, chove







Foto
A.M.







Choveu oito dias,
choveu oito noites,
bátegas… açoites…
nuvens tão sombrias.

Já lá vão os nove,
os dez já lá vão.
ribomba um trovão,
chove, chove, chove.

Na meteorologia,
aquele sorriso
promete granizo,
mais chuva anuncia.

E o sol sem emprego
emigrou p’ra longe.
Dias já são onze,
vestidos de negro.

O céu se descose,
desaba aos pedaços,
tantos dias baços,
já lá vão os doze.

E a menina alegre
sem qualquer receio
que o céu abra ao meio
ou se desintegre.

Por dentro das casas
as crianças olham
as flores que desfolham,
as aves sem asas.

E o vento que corre
e assobia aos jactos
produz desacatos
no cimo da torre.

E a cara risonha
na televisão
promete um tufão
e ri sem vergonha.

A chuva de um raio
já não tem remédio.
Foi tristeza e tédio
todo o mês de Maio!

E a moça bonita,
que troça de mim,
faz do boletim
a minha desdita.

Radiosa e morena
sem gola e sem luva,
promete só chuva
mais uma quinzena.

Meu anseio ardente
é que, sem aviso,
aquele sorriso
o leve a torrente

e que um rabugento
velho de ar sisudo,
com o sobretudo
mais grosso e cinzento,

com antipatia,
com um tom de agouro,
com a voz de choro
e sem alegria,

com meias de lã
e um cachecol,
anuncie sol
já para amanhã.

Anthero Monteiro,
A Sara Sardapintada,
Porto, Corpos Editora, 2004

domingo, 9 de agosto de 2009

Formiga no poema







A Cigarra e a Formiga
Fábula de Jean de la Fontaine
ilustrada por Gustave Doré








Uma formiga atrevida
sem pedir qualquer licença
e satisfeita da vida
que certamente compensa
diligente despachada
pequenina como um trema
viu a porta escancarada
e irrompeu no meu poema

Percorreu toda a largura
fez depois o comprimento
não sei se andava à procura
de algo para o seu sustento
inverteu a sua rota
espreitou num canto em cima
equilibrou-se num jota
saltitou de rima em rima

Dependurou-se na trave
do T da palavra estrondo
entrou no A de uma ave
depois num O bem redondo
Coçou então a barriga
apenas com uma garra
Quem procurava a formiga?
Porventura era a cigarra?

Palmilhou a folha toda
esquadrinhou toda a escrita
andou por aqui à roda
numa insistente visita
numa atitude indiscreta
a dizer daqui não saio
e para este poeta
não olhou nem de soslaio

Achando aquilo bizarro
perdi então a cabeça
Já a formiga tem catarro?
Sai-me daqui já depressa!
Não te quero aqui assim!
Será que tu não me ligas?
Vou chamar o pangolim,
de alcunha o Papa-Formigas!

Senti cá um formigueiro
que ao vê-la ao alto da estrofe
co dedo médio certeiro
dei-lhe assim em cheio plof
Foi tal o meu piparote
com tal força e com tal arte
que andou voando a galope
lá muito acima de Marte

Você que assistiu à cena
e viu que isto não é sonho
e que agora está com pena
daquele insecto enfadonho
tenha calminha serene
que encontra a sua formiga
nalguma fábula antiga
em casa de La Fontaine

Anthero Monteiro (inédito)