segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mãos dadas








Foto
José Oliveira











Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade

Hoje é o primeiro dia...










A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebem-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Sérgio Godinho

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"A música de Junqueiro"


















Chamo a atenção de quantos se interessam pela Literatura e pela Poesia para a apresentação do livro e CD duplo A Música de Junqueiro, que terá lugar no próximo dia 17 de Novembro, às 21h30, no Auditório Ilídio Pinho da Universidade Católica no Porto, campus da Foz, e que incluirá um concerto, mostra de vídeo, dança e poesia ao vivo.

Esta iniciativa está integrada no projecto da Escola das Artes Revisitar, Descobrir Guerra Junqueiro, sob a coordenação e direcção científica de Henrique Manuel S. Pereira, congregando largas dezenas de autores e a participação de diversas personalidades de várias gerações e quadrantes.

É enorme a relação de nomes envolvidos neste projecto, entre os quais se contam autores de textos, ilustradores, compositores musicais, intérpretes (voz e instrumentos), actores, operadores de câmara, editores de vídeo, som designers, fotógrafos, técnicos de luz e muitos outros, como:

Adolfo Luxúria Canibal

Álvaro Barbosa

Ana Isabel Almeida

Ana Maria Liberal

Ana Morais

Ana Neves

Ana Rosa

Andreia Rodrigues

Ángel González

Anthero Monteiro

António Braz Teixeira

António Capelo

António Ferreira de Brito

António Morais

António Salgado

António Vale da Conceição (Kiko)

Arnaldo Saraiva

Artur Agostinho

Carla Almeida

Carlos Carvalho

Carlos Nogueira

Carlos S. Caires

Catarina Latino (BN)

Cecília Pessanha

Cristina Dias

Daniel Marques

Daniel Serrão

David Ferreira

Diana Cardoso

Diana Devezas

Diana Martínez

Diogo Rodrigues

Diogo Tudela

EAansemble

Emerenciano

Eunice Muñoz

Fernando C. Lapa

Fernando Guimarães

Fernando Valente

Francisco Carvalho Guerra

Francisco Lobo

Francisco Relvas

Francisco Rua (França)

O Bando dos Gambozinos

Gonçalo Vasquez

Gustavo Bacelos

Hélder Moreira

Helena Figueiredo

Helena Pinto

Henrique Manuel S. Pereira

Hilary P. Reader

Houdini Blues

Hugo Frota

Íris Maria

Isabel Martinho

Jaime Neves

Joana Domingues

Joana Moreira

João Cordeiro

João Mascarenhas

João Negrão

João Rema

João Teodósio

João von Hafe Pérez

Joaquim Azevedo

Joaquim Domingues

Jorge Abade

Jorge Cunha

Jorge Palma

José C. Seabra Pereira

José Emídio

José Fonseca

José Jorge Letria

José M. Caldeira Santos

José Rodrigues

Leonor Ponte

Luís Carvalho

Luís Cilia

Luís Ferraz

Luísa Barriga

Mafalda Castelo-Branco

Manoel de Oliveira

Manuel A. Guerra Junqueiro

Manuel Ferreira Patrício

Manuela Matos

Marcos Boaventura

Maria de Lourdes Resende

Maria do Céu Ribeiro

Maria do Rosário Domingues

Maria Helena da Rocha Pereira

Maria João Pacheco

Marina Pacheco

Mário Soares

Marta Costa

Marta Luz

Marta Reis

Martinho Cardoso

Miguel Real

Mónica Caldeira

Nuno Júdice

Nuno Silva

Olga Vasilyeva

Paul Driver

Paula Carvalho

Paulo Antunes

Paulo Teixeira

Pedro Abrunhosa

Pedro Alves

Pedro Ferreira

Pedro Monteiro

Pedro Moreira

Pedro Oliveira

Pedro Ribeiro

Pedro Sinde

Rafael Luís M. da Silva

Rancho Folclórico do Porto

Renata Ramos

Rodrigo Monteiro

Rui Pintão

Rui Santos (Raez)

Rui Vieira Nery

Rute Marques

Ruy de Carvalho

Sahra Kunz

Sara Carneiro

Sara Castro

Sofia Serra

Suzana Ralha

Time Line (Equipa)

Vasco Carvalho

Vítor Teodósio

São motivos mais que suficientes para esperarmos que esteja repleto nesse dia o imenso auditório Ilídio Pinho.

A Praça da Poesia participará também activamente, com a presença do autor deste blogue e de vários amigos das Quartas Mal Ditas e da Onda Poética, em especial os "dizedores" Luís Carvalho e Diana Devezas.

Consulta do programa e de outros pormenores do evento in:

http://guerrajunqueiro.wordpress.com/

http://www.artes.ucp.pt/guerrajunqueiro/

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Carpe diem

Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio — nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice

Eu, Rosie, se eu falasse...







Renoir,
Dance at Bougival,
oil on canvas,
1882-1883











Eu, Rosie, se eu falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso
e o que tu sentes
A ponte que nos une — é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira
__________

Nascido em Barcelona, a 20 de Março de 1922, , era filho do jornalista Reinaldo Ferreira, o famoso Repórter X.
Tendo vindo para Moçambique (Lourenço Marques) em fins do ano de 1941 e aqui feito o sétimo ano dos liceus, por lá se conservou, com raras e breves escapadas à Metrópole, até Junho de 1959, data do seu falecimento com um cancro no pulmão.
É autor da letra da célebre canção "Menina dos olhos tristes", cantada por José Afonso.

Com a essência das flores





Ingres,
Le Bain Turc

1862
Pintura a óleo
sobre madeira
(Museu do Louvre)








Com a essência das flores mais coniventes
Na formosura, prepara o banho, Lídia.
Os anos murcham e só no corpo sentes
Quente e fagueira a passagem da vida.

Não digas, céptica, que a carne é vã e passa
Desfeita em sombra, o negro rio. O Orco
Perséfone raptou rendido à graça.
Talvez no além precises do teu corpo.

Estima-o; e à beleza mais demora
Darão os fados na vida passageira.
Tépida a água, rescenda a musgo e a rosa.
De Paros seja o mármore da banheira.

Nua e rosada imerge na carícia
Emoliente da água perfumada,
E as folhas lassas dos membros espreguiça
Como uma humanizada flor aquática.

Não te esqueças porém de no amavio
Da água verter um brando óleo de malvas
Que te aveluda as coxas e mais brilho
Te dá ao polimento das espáduas.

E saindo do banho como a deusa
Sai, das macias ondas, nacarada,
Ergue-te para o amor, estátua de seda
Toda coberta com pérolas de água.

Por fim veste a camisa mais picante;
Com pó de ouro empoa o teu cabelo.
E vai para a alcova onde o teu amante
Te espera radioso e fiel como um espelho.


Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II,
Lisboa, 1993

Quinta, 12/11 - Onda Poética


















Mais uma sessão da Onda Poética, correspondendo ao tema postado neste blogue durante o mês de Outubro último.

De acordo com o que foi deliberado na última sessão, esta está a ser organizada pelas entusiastas da Onda,
Manuela Correia e Gabriela Ramalho.
Carlos Andrade estará uma vez mais ao comando das suas cordas vocais e das da guitarra acústica com as canções que há muito nos habituámos a apreciar.
Como convidado especial, estará presente também o poeta e actor Alberto Bastos.
E nós lá estaremos, lendo, participando, aplaudindo a dedicação à poesia deste grupo que mantém viva a chama sagrada.