segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Após a «morte de Deus» por António Rego Chaves

Manuel Laranjeira (1877-1912) viveu obcecado pelo suicídio: Soares dos Reis, Júlio César Machado, Camilo, Antero de Quental, Trindade Coelho e Mouzinho de Albuquerque foram alguns dos portugueses ilustres que, entre 1889 e 1908, puseram termo à existência. O seu amigo Miguel de Unamuno, a quem chamara a atenção para este horror, escreveria em Novembro de 1908 um artigo que intitulou «Um povo suicida», mais tarde incluído em «Por Tierras de Portugal y de Espanha». Aí afirmava, sem abrir espaço para qualquer dúvida: «Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura triste.

Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele um sentido transcendente. Querem viver, talvez, sim, mas para quê? Vale mais não viver.» Em carta transcrita por Unamuno no mesmo artigo, Laranjeira opinava: «Neste malfadado país, tudo o que é nobre se suicida; tudo o que é canalha triunfa.» E o autor de «O Sentimento Trágico da Vida» antecipava: «Dentro de alguns dias, a 1 de Dezembro, celebrarão as festas da restauração da sua nacionalidade, ter sacudido a soberania dos Filipes de Espanha. No dia seguinte voltarão a falar de bancarrota e de intervenção estrangeira. Pobre Portugal!».

Já depois do suicídio do nosso grande diarista, o filósofo bilbainho reconheceria ter sido ele quem lhe revelara «a alma trágica de Portugal, não direi de todo o Portugal, mas do mais profundo, do maior». De facto, Manuel Laranjeira sintetizara assim o nó do problema do país que o vira nascer: «O mal da sociedade portuguesa é apenas este – a desagregação da personalidade colectiva, o sentimento de interesse nacional abafado na confusão caótica dos sentimentos de interesse individual.» Passados cem anos, haverá sem dúvida quem pense ter muito boas razões para considerar perene este severo mas não infundamentado diagnóstico…

Em lúcida síntese, escreveu Urbano Tavares Rodrigues sobre Manuel Laranjeira: «Viveu uma existência intensamente interior, com explosões de revolta e desespero, de que a sua poesia e a sua correspondência são o melancólico reflexo. Roído pela sífilis e, como médico que era, inteiramente consciente do seu estado, a doença lhe avolumou o tédio de viver sem Deus e sem razão alguma, predispondo-o para uma solitária experiência de dor universal.» Na verdade, ao identificar-se com um «D. Quixote de braços cruzados», dizia sentir-se «cada vez mais enojado dos homens, do mundo e da vida». Escrevia: «Sinto uma grande fadiga moral, um piedoso cansaço, de piedade feita de desprezo, por tudo, pelas coisas e sobretudo pelos homens. Eu não sinto o vazio universal de Antero: sinto uma coisa pior – sinto a torpeza universal.»

Ousou Anthero Monteiro interpretar o significado da vida e da obra desta trágica personagem e, diga-se desde já, fê-lo com mão de mestre, num ensaio inteligente e bem documentado que, ao contrário do que é uso em Portugal, não abdica da indicação de uma muito actualizada bibliografia e do indispensável índice onomástico. Fazendo sua a célebre sentença de Unamuno sobre Laranjeira – «Matou-o a vida. E, ao matar-se, deu vida à morte» – o autor, depois de caracterizar os misticismos cristão, hindu, budista, islâmico e judaico, defende a tese segundo a qual o seu biografado professou, não um misticismo de carácter religioso, mas um misticismo sem Deus, laico, terminologia esta que, aliás, já o próprio utilizara na sua polémica tese de licenciatura «A Doença da Santidade». Depois de um capítulo sobre a recepção de Manuel Laranjeira, onde infelizmente também avultam o azedume e a mesquinhez de algumas vozes mordidas pelas nossas ancestrais maleitas da inveja e da intolerância, Anthero Monteiro analisa com brilho as «dialécticas de vida» do homem, do cidadão e do escritor – convivente e solitário, solidário e egoísta, interveniente e abúlico, pensador e «sentidor», ateísta e «crente».

Detenhamo-nos nesta última, indispensável à compreensão do título do livro. «Morto» mas mal «sepultado» o mítico Deus da sua infância, escreveria Laranjeira: «A minha ‘cracia’, o meu ‘ismo’, seria aquele em que coubessem, como na nave de uma catedral infinita, após um acordo afectuoso, final, todos esses seres que a engrenagem social fez inimigos irredutíveis: reis, imperadores, plebeus, vadios, criminosos, fartos, famintos, vencidos, vencedores, esmagados, todos, os homens todos, a Humanidade inteira – a vida inteira.» Comenta Anthero Monteiro: «O ateu Laranjeira, afinal, é um crente: acredita na possibilidade de ‘realização dum ideal de felicidade universal’. E é também um apóstolo: pretende agir de maneira que ‘a máxima das nossas acções se possa converter em lei universal’. É, pois, também um místico com a mesma tendência à ‘universalização da vontade’ que atribui a todos os místicos no seu ensaio sobre ‘A Doença da Santidade’.»

Mística da vida, mística da conhecimento, mística da arte, em todas o autor do «Diário Íntimo» parece ter apostado, mas sem êxito. Em Dezembro de 1908, confessava ao seu atento interlocutor Miguel de Unamuno: «A última verdade será a que nos desmanchar a última ilusão – a ilusão da imortalidade: no dia em que o homem tenha de renunciar à sua loucura de absoluto… – já se sabe, D. Quijote também ficou ‘cuerdo’ (cordato) … para morrer.

Para o suicídio! – não será afinal este o sentido da vida, da vida humana, pelo menos?» Conclui Anthero Monteiro: «Roído pelo bicho da sede, demandou a Verdade, sempre escorregadia, a Justiça, sempre defraudada, o Desconhecido, sempre incognoscível, o reunir todos os seres, toda a Humanidade, ‘numa catedral infinita’. Acreditou ainda na Perfeição, ou, pelo menos, empenhou-se sempre na sua própria evolução perfectiva. Nesse processo em que alguns se empenharam para melhorar o mundo, torná-lo pelo menos mais habitável, construir um amanhã diferente que tarda em chegar, Manuel Laranjeira fez bem a sua parte.»

Anthero Monteiro, O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira, Roma Editora, 2006,
225 páginas
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Recensão do livro acima referido de Anthero Monteiro
in
http://www.scribd.com/doc/26713706/Manuel-Laranjeira-Anthero-Monteiro


Manuel Laranjeira, poeta da Feira e de Espinho, suicidou-se nesta última cidade, na sua casa da Rua 19, no dia 22 de Fevereiro de 1912, portanto, há 98 anos. Vêm aí as comemorações do centenário da sua morte. A Biblioteca Municipal de Espinho e a Escola Secundária de que é patrono estão já a prepará-las.

António Rego Chaves é licenciado em Filosofia. Foi jornalista e repórter internacional, de 1968 a 2003, no Diário Popular e no Diário de Notícias. Colaborou, antes do 25 de Abril, na Seara Nova e em O Comércio do Funchal. Na extinta página de Livros, do DN, e no seu suplemento DNA, assinou grande número de recensões e ensaios.
Publicou "Vinte e Quatro Diálogos Bíblicos" e "Encontros em Florença". Juntamente com Ana Marques Gastão e Armando Silva Carvalho, é autor de "Três Vezes Deus" (Assírio & Alvim).

(in www.wook.pt/authors)