sexta-feira, 17 de julho de 2009

Poema da utopia










A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! Se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.

Fernando Namora

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Noites poéticas com fotos de Anaas





















Os eventos poéticos continuam a proliferar na zona do Porto e nós também somos responsáveis por isso.
Aqui deixamos dois belos testemunhos fotográficos da nossa amiga Anaas, sempre armada de objectiva para o que der e vier...

Foto 1
- da última sessão da Onda Poética de Espinho, que se tem realizado na segunda Quinta-Feira do mês e que só será retomada no mês de Outubro;

Foto 2 - das noites poéticas do Púcaros Bar que, há uma dúzia de anos, se realizam todas as quartas-feiras, com início às 0 horas. Aqui, Anthero Monteiro e Luís Carvalho dizem "O melro" da Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro.

Um abraço especial de agradecimento à Anaas.

sábado, 11 de julho de 2009

Raiz de orvalho



Foto in
autoreselivros.wordpress.com


Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que se não morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei a ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura da raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco das mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno

Agosto 1982

Mia Couto, Raiz do Orvalho e Outros Poemas,
Lisboa, Editorial Caminho, 1999, 3.ª ed.

Biografia




Foto in
jn.sapo. pt





Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira
Numa agressiva fúria se liberta.

Miguel Torga, "Orfeu Rebelde" in Antologia Poética,
Casais de Mem Martins - Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2001

A uma rapariga















Somos assim aos dezassete.
Sabemos lá que a Vida é ruim!
A tudo amamos, tudo cremos.
Aos dezassete eu fui assim.

Depois, Acilda, os livros dizem,
dizem os velhos, dizem todos:
"A Vida é triste, a Vida leva,
a um e um, todos os sonhos."

Deixá-los lá falar os velhos,
deixá-los lá... A Vida é ruim?
Aos vinte e seis eu amo, eu creio.
Aos vinte e seis eu sou assim.

Sebastião da Gama, Pelo Sonho É Que Vamos,
Lisboa, Edições Ática, 1979, 3.ª ed.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O sonho





Foto in
www.gomestic.com





Ao caminhar pelas areias
decidi deixar-te.

Pisava um barro escuro
que tremia,
e, ao afundar-me e soltar-me,
decidi afastar-te
de mim, pois me pesavas
como pedra cortante,
e preparei o teu afastamento
passo a passo:
cortando-te as raízes,
soltar-te sozinha ao vento.

Ai, nesse instante,
coração meu, um sonho
com suas asas terríveis
te cobria.

Sentias-te tragada pelo barro
e chamavas-me e eu não acudia,
afundavas-te, imóvel,
sem defesa,
até te afogares na boca do areal.

Depois
a minha decisão encontrou-se com o teu sonho
e da ruptura
que nos partia a alma
surgimos limpos outra vez, nus,
amando-nos
sem sonho, sem areia,
completos e radiantes,
selados pelo fogo.

Pablo Neruda, Os Versos do Capitão,
Porto, Campo das Letras, 1996, 2.ª ed.

A noite passada











A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Sérgio Godinho, in Noites Passadas (audio CD)