segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Não posso adiar o amor...



















Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale sufoque e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

Um amigo







Foto in
www.forca.ca/pt/







Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpago e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca da luz.

Eduardo Bettencourt Pinto, da outra margem

Poeta e ficcionista natural de Angola. Viveu ali, em Portugal e no Zimbabué, e agora reside na Columbia Britânica (Cf. endereço acima)

Comédia humana




Foto in
www.jameslogancourier.org







Dura, enquanto convém, o nome da amizade;
no tabuleiro a pedra anda em vários sentidos...
Se a sorte se mantém, que perto estais amigos!
Mas, assim que ela cai, bateis em retirada.

A trupe desempenha, sobre o palco, uma farsa:
este, o pai; esse, o filho; aquele, um homem rico...
Mal se diz o papel e se termina o riso,
a máscara lá vai... E reaparece a face.

Petronius, Satyricon, 80
Tradução de David Mourão-Ferreira in
Vozes da Poesia Europeia I,
Colóquio Letras n.º 163

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Escritor romano do tempo de Nero, séc. I d. C.
, que foi identificado como sendo C. Petronius Arbiter, embora o manuscrito do Satyricon lhe chame Titus Petronius.

Bons amigos







Foto
A.M.







Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

N. Rio de Janeiro 1839
F. Rio de Janeiro 1908

La amistad

Os Amigos




Casa de Camilo
em S. Miguel
de Ceide
Foto in
www.iep.uminho.pt




Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!


Camilo Castelo Branco

Sim, é verdade: o romancista que se suicidou em S. Miguel de Ceide também escreveu poesia. E este soneto é modelar...
A propósito: segundo José Pedro Machado, é assim que se escreve: Ceide (e não com "s").
Confira no Ciberdúvidas: aqui.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Traz outro amigo também



Amigo

Maior que o pensamento

Por essa estrada, amigo, vem

Não percas tempo que o tempo

É meu amigo também


Em terras

Em todas as fronteiras

Seja bem-vindo quem vier por bem

Não percas tempo que o tempo

É meu amigo também



Aqueles

aqueles que ficaram

(Em toda a parte todo o mundo tem)

Em sonhos me visitaram

Traz outro amigo também


José Afonso