sábado, 4 de outubro de 2008

À noite, o mar


Só esta aragem pura;
Só este aroma,
Olor da maresia;
Só este som do mar
Em maré-cheia;
Só esse braço quente
Na cintura
E o gosto de sentir,
Ainda, à luz do dia,
O quebranto da onda
Nas areias.

Edgar Carneiro,
Mar Amar


Poeta transmontano, reside há muitos anos em Espinho, onde foi professor. Tem 95 anos e ainda frequenta as tertúlias da Onda Poética, que vai no seu 11.º ano de vida. Na próxima 5.ª Feira lá estará.

Poema da utopia


A noite caiu sem manchas e sem culpa.

Os homens largaram as máscaras de bons actores.

Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.


No alto, a utópica Lua vela comigo

E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.

Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.

Noite! Se o espectáculo findou

Deixa-nos também dormir.

Fernando Namora

À tarde










A tarde lenta cai. E cai também
Uma melancolia venenosa,
Meu Deus! que se não sabe de onde vem...

E vem como uma sombra vagarosa
Que chovesse dum céu crepuscular...
Vem subindo da terra dolorosa
Como um grande dilúvio de pesar,
Como um olhar de dor silenciosa
Que tentasse subir para as estrelas
E ficasse disperso pelo ar...

E vem do fundo de alma... Perscrutasse
A gente o coração pr'a sentir bem
Que é lá no fundo de alma que a dor nasce
E é de lá sobretudo que ela vem...

De lá! De lá do fundo! Bem do fundo
De nós mesmos... E, lenta, vem subindo
Aos olhos que a reflectem, reflectindo
Na nossa dor a dor de todo o mundo!

Dolorosamente
A tarde exausta morre de cansaço
E parece que sofre a natureza...
Anda uma luz de cinza pelo espaço
E lentamente
Envolve as coisas todas de tristeza...

E a tarde cai nos olhos e entristece-os...

E toda a melancolia,
De lá do fundo de alma aonde está,
Vem-nos subindo aos olhos e escurece-os...

Os olhos escurecem e dir-se-ia
Que é de lá
Que a tristeza das coisas irradia...

A tristeza das coisas... Afinal,
Ó tristeza das coisas, tu existes
Dentro de nós, em nossas almas tristes
Como um eco da dor universal!

Ó silêncio das coisas, é ouvindo
O próprio coração que te escutamos!
E as lágrimas das coisas vão caindo
... E somos nós que as choramos!

Sim, nós!... Quem sofre e chora, somos nós!
Um choro de cobardes e vencidos,
Nessa hora de sombra em que, transidos,
Olhamos em redor... e estamos sós!

Sós! Todos sós! Ó almas solitárias,
Vede a tristeza da tarde!
É vendo-a que a noss'alma desolada
Se sente mais sozinha, abandonada,
E o nosso coração é mais cobarde...

É vendo a claridade agonizar,
Como um olhar voluptuoso e triste,
Que sentimos subir-nos surdamente
Aos olhos o desejo de chorar
Baixinho, docemente,
Sobre o peito de alguém... que não existe!

E, quando sobre o mar
Cai a noite do céu pesadamente,
A gente, sem querer... põe-se a chorar!

Manuel Laranjeira, Commigo (Versos d'um Solitário),
Porto, Flávio Laranjeira, 1923, 2.ª ed.


Nasceu na Vergada, concelho de Santa Maria da Feira, em 1877. Médico-doente, escreveu: A Doença da Santidade, Diário Íntimo, Comigo e várias peças de teatro, em que se revela o mais importante dramaturgo português do naturalismo realista. Pouco depois da publicação deste último livro e já incapaz de escrever, suicida-se, a 22 de Fevereiro de 1912, na sua casa da rua 19, em Espinho, onde vivia há vários anos (ver foto A.M.). Tinha 34 anos. Sobre ele e a sua obra escreveu Anthero Monteiro o ensaio O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira, Lisboa, Roma Editora, 2006.

Noite de quinta-feira, dia 9 de Outubro


Esta noite


Passaram 35 anos sobre o assassínio de Victor Jara à ordem de Augusto Pinochet.
Esta noite, a Associação José Afonso (Núcleo do Norte) presta-lhe o seu tributo na ESMAE - Porto.
Participam, entre outros, os meus pessoais amigos e excelentes diseurs, Ana Afonso e Luís Carvalho.
Vale a pena estar presente.

Noite

Há tantas coisas germinando na noite, que nem sei como enumerá-las. À noite nascem as revoluções tanto as que vão triunfar como as que só se realizam em pensamento, e são quase todas. Os revolucionários viram-se, inquietos na cama. E também os que se converterão, pela manhã, a religiões novas. E os amorosos. Análises emocionais levadas ao extremo da tortura arrastam-se pelas horas lentas da noite. Como a noite é rica! A noite é o tempo de não dormir; é o de velar e procurar; de criar mundos.

Demétrio quis prolongar a noite obturando todas as frestas do quarto, para que não entrasse a luz. Luz não entrou. Demétrio gozou da noite plena, continuada, e todos os pensamentos lhe floresciam. Construiu sistemas filosóficos. A escuridão era propícia a teorias políticas. Nenhum crítico foi mais perspicaz do que Demétrio, na literatura e nas artes. Aquela noite era fantástica. Demétrio quis experimentar as sensações de horror, êxtase, humilhação, glória, poder e morte. Morreu, mesmo no escuro. tendo sentido a morte em seu interior físico, não pôde mais tirá-la de si. É o único morto, conscientemente morto, de que já ouvi falar nesta vida. A noite é fantástica.



Carlos Drummond de Andrade, «Contos Plausíveis»,
in Poesia e Prosa, Rio de Janeiro, Aguilar, 1992.

Tema do mês: SORTILÉGIOS DA NOITE


















Van Gogh,
Noite estrelada,
1889

Da tardinha à madrugada. Da primeira à última estrela. A treva e a(s) luz(es). O medo e a aventura. O sono, imagem da morte, e o sonho, imgem da vida. A insónia e a insídia. O silêncio da corola fechada e o jardim dos murmúrios. O pasmo dos espíritos e o espasmo dos corpos. Os nus nos quartos e os quartos de lua. O fascínio da noite. Todos os seus sortilégios.