sábado, 13 de dezembro de 2008

(Na morte de Manuela Porto)

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... ) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira, Poesia III,
Lisboa, Portugália Editora, 1971, 4.ª ed.

Bárbara

Lembra-te Bárbara
Chovia em Brest
sem cessar naquele dia
Caminhavas à chuva
sorridente
radiosa encantadora deslumbrante
Lembra-te Bárbara
chovia em Brest
sem cessar
e eu passei por ti
na Rua do Sião.
Sorrias
e eu sorria
Lembra-te Bárbara
tu a quem não conhecia
tu que não me conhecias
Lembra-te
Lembra-te mesmo assim
daquele dia
Não te esqueças
Sob um pórtico
abrigava-se um homem
que gritou o teu nome
Bárbara
Correste para ele
à chuva
deslumbrante encantadora
radiosa
lançaste-te nos seus braços
Lembra-te Bárbara
E não me queiras mal
se te trato por tu
trato assim todos os que amo
mesmo se os vi só uma vez
trato assim todos os que se amam
mesmo até se os não conheço
Lembra-te Bárbara
Não te esqueças
essa chuva sábia e feliz
nesse teu rosto feliz
nessa cidade feliz
essa chuva sobre o mar
sobre o arsenal
sobre o barco para Ouessant
Ó Bárbara
que estupidez é a guerra
o que é feito de ti
agora
sob esta chuva de ferro
de fogo de aço de sangue
e daquele que te apertava nos braços
amorosamente
Morreu desapareceu
está vivo ainda
Ó Bárbara
Chove em Brest sem cessar
como chovia então
mas já nada é o mesmo
e tudo se estragou
É uma chuva de luto
de terrível desalento
Já não é sequer
o temporal
de ferro de aço de sangue
não passa agora de nuvens
que rebentam como cães
os cães que desaparecem
nessas torrentes de Brest
e apodrecerão lá longe
longe bem longe de Brest
onde já não resta nada.

Jacques Prévert
Tradução de Anthero Monteiro
Foto in www.toutelapoesie.com

Brest era um importante porto da Bretanha (França) que foi bombardeado pelos Aliados para neutralizar as defesas alemãs e possibilitar o desembarque nas praias francesas
em Junho de 1944.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Inventário

De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
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De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
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A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
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De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
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José Saramago, Os Poemas Possíveis,
Lisboa, Editorial Caminho, 1981
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Este é um belíssimo poema do Saramago, já tão esquecido como poeta.
Aqui se insere para comemorar, de alguma forma, o 10.º Aniversário da atribuição do Nobel ao autor do Memorial do Convento.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Morte ao meio-dia



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No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Ruy Belo, Poemas de Ruy Belo (ditos por Luís Miguel Cintra),
Lisboa, Assírio & Alvim, 2003
Foto in http://www.agencia.ecclesia.pt/



Tema de Dezembro: PREDILECÇÕES

Dezembro já vai avançado. Não conseguimos acompanhar o ritmo do tempo. Faltam-nos asas e surgem muitos empecilhos no caminho. Com a mudança do mês, conforme nos propusemos, deveríamos já ter iniciado novo tema poético.

O mês de Novembro, dedicámo-lo ao tema NASCER, e amanhã, dia 11/12, na Onda Poética (Junta de Freguesia de Espinho, 21.30 horas) será esse o assunto genérico dos poemas escolhidos, que versarão o próprio acto de nascer, a maternidade e a paternidade, a infância e o Natal, nas suas vertentes pagã e religiosa.

E, tentando de alguma forma recuperar os dias perdidos, passemos a outro tema. Vamos colocar aqui alguns dos nossos poemas preferidos, sem atender a fronteiras no tempo ou no espaço, a escolas ou ideologias: para nós, poesia é poesia.

Imperará, nestas primeiras escolhas, o gosto pessoal, como é óbvio, mas cremos também que atenderemos a critérios de qualidade, o que será porventura também bastante subjectivo.

Para simplificar, usaremos como título do dossiê de Dezembro, o de... PREDILECÇÕES.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Hoje, Poesia na Associação José Afonso - Porto







Vai certamente valer a pena ouvir os meus amigos Luís Beirão, diseur de qualidade, e Carlos Andrade (voz e guitarra acústica) nesta iniciativa poética que terá hoje lugar na sede da AJA, Rua do Bonjardim, 631 - 1.º D.to tras., no Porto.

Mais pormenores in

http://pedacosdalma.blogspot.com/2008/12/noites-de-inquietao-poesia.html