sábado, 13 de junho de 2009

Predestinação







Millôr Fernnades in

http://brasiliano.wordpress.com





Tinha no nome seu destino líquido: mar, rio e lago.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Piscis.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.
Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.
Seu provérbio predileto: “Quem tem capa, escapa”.
Sua piada favorita: “Ser como o rio: seguir o curso sem deixar o leito”.
Pois estudava: engenharia hidráulica.
Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando já estava na bica para se formar.
Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.
Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva
Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.
Rim flutuante.
Água no joelho.
Hidropsia.
Bolha d’água.
Gota.
Catarata.
Morreu afogado.

Millôr Fernandes, Antologia esquecida na mesa de cabeceira


Aperta a mão do mar...








Foto A.M.






Aperta a mão do mar, diz-lhe bom dia.
Ele dirá maresia.

Pedro Tamen, «Daniel na Cova dos Leões» in
Poesia 1956-1978, Moraes Editores, Lisboa, 1978

Tema de Junho: MARESIA / POESIA








Foto: A.M.






Sim, já cheira... Paira no ar uma nova poesia. Uma voz que nos chama e é quase inelutável. Um íman irresistível. Sente-se nas narinas, mas também na pele, no ritmo mais apressado da respiração, na luz mais penetrante que vem do ocaso.

E todos os caminhos vão dar a uma toalha que se estende ao lado da imensa toalha líquida. Os poetas sentem-se impotentes, como qualquer mortal, ao olhar esse infinito de inquietude. As horas passam e apenas o sol sabe ir manchando a folha branca.

Só muito tarde, os poetas concluem que é melhor arremedar nesse papel as ondas que vêm, uma a a uma, paralelamente, fazer-lhes mesuras. E escrevem linhas também paralelas, a que chamarão versos depois.

Versos, talvez, mas que eles sentem sempre não serem a verdadeira poesia, a indizível poesia que vem beijar a terra...

E cresce aquele aroma intraduzível, ondeando nos espaços...


Esse é o tema para o mês de Junho, que já vai avançado:

MARESIA / POESIA
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Falaremos, pois, do mar, das praias, dos barcos, dos búzios, dos peixes e das sereias e dos atlantes, dos pescadores e das pescadas, dos homens-rãs e das mulheres-sapos e dos surfistas, das anémonas e das estrelas e constelações do mar, das ilhas, dos pélagos e dos arquipélagos, do Atlântico e da Atlântida, do infinito e de tudo o mais que nele couber e nos for surgindo no mar de livros que visitaremos.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Homenagem a Daniel Faria - Fotos


























































































































Terça-feira última, dia 9/6, comemorou-se, por iniciativa do Clube Literário do Porto, o 10.º aniversário do desaparecimento do poeta Daniel Faria, considerado um poeta maior e, sobretudo, o maior poeta místico português do século XX.

O evento foi organizado pelas Quartas Mal-Ditas, sob a coordenação de Anthero Monteiro, tendo os elementos desta tertúlia feito leituras de poemas do homenageado, subordinados ao tema "URGÊNCIA DE OUTRO SÍTIO".

A sessão decorreu num carro eléctrico do Museu do Porto, em frente do Clube Literário, para simbolizar a breve passagem do poeta pela vida, que lhe concedeu apenas 28 anos.

Estiveram presentes para dar testemunho sobre Daniel Faria, os seguintes convidados: os poetas Nuno Higino, Joana Serrado e Paulo Renato, cujas intervenções mereceram agrado geral.

Também o guarda-freio foi solicitado, como se vê numa das fotos, a ler um poema do poeta natural de Baltar.

A iniciativa teve caras bonitas a assistir e muito outro público, que, no final, se viu bafejado com uma viagem gratuita no eléctrico e com um chá bem quentinho no Clube Literário, em noite chuvosa.

Veja mais fotos no blogue do Clube Literário do Porto.

Leia também a intervenção lida pelo poeta Paulo Renato, aqui.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O poeta que fazia chover...




Foto in
http://feiradolivrodoporto.pt/blog/



À hora exacta, estávamos prontos, eu e o Luís Carvalho, para fazermos a apresentação da 2.ª edição do meu livro de poesia DESESPERÂNSIA, que tem agora a particularidade de incluir um prefácio de Manuel Poppe. Iríamos ler, de forma mais ou menos dialogada, uma colagem de textos retirados do livro. Estante montada, microfones ligados, público à espera, tudo se preparava para a função.

Foi aí, quando já olhávamos para o caderno dos poemas, que a chuva se antecipou. Logo todos se precipitaram para debaixo do pequeno abrigo de onde íamos soltar a voz. O abrigo, porém, não abrigava: era apenas uma rede a fingir de coberto...

Nada que eu não esperasse... A editora, num acesso de optimismo, logo veio acalmar-me: que era chuva de pouca dura, que era sinal de felicidade e sucesso... O que costuma dizer-se dos casamentos copiosamente molhados...

Perpassaram-me pela mente várias recordações em sucessão repentina: o meu próprio casamento, com a noiva vestida de arminhos e uma catarata, feita bênção dos céus, a cair impiedosa; o lançamento do meu primeiro livro, com a livraria a ser invadida por dezenas de guarda-chuvas (estavam cerca de 200 pessoas apinhadas) e a água a entoar, no passeio fronteiro, um pranto desabrido; o mesmo cenário no dia de lançamento do 2.º livro; um raio sobre a Escola Secundária Manuel Laranjeira, desligando as luzes, no momento em que eu agradecia a todos os que participaram na apresentação do meu livro sobre o poeta maldito que deu o nome ao estabelecimento. E, recuando uns 30 anos no tempo, o dia da minha chegada a Cabo Verde, onde fui recolher dados para um livro didáctico publicado mais tarde: ouvíamos umas mornas na cálida noite acabada de nascer, quando, sorrateira e mansa, a irmã chuva veio visitar a ilha de Santiago, que a não via já há longos 5 anos!... Nos dias seguintes, caiu de tal modo que um dos dias foi decretado feriado e eu não pude fazer o trabalho previsto, por estarem encerradas as repartições públicas.

Não é por acaso que, num dos poemas do livro apresentado, há um poema intitulado "Testamento", onde se pode ler: "Deixo-vos a chuva companheira de todas as minhas glórias".

Mas, no sábado passado, na Feira do Livro do Porto, após aqueles primeiros momentos de confusão, a chuva decidiu ter pena de nós e logo amainou para se cumprirem as palavras da nossa querida editora. Foi possível ler os poemas e ficar com a certeza de que também esta edição foi abençoada pelos deuses. Aos mortais, nestas questões de chuva ou sol, só lhes resta dizer: Amen!

sábado, 6 de junho de 2009

Daniel Faria. "Urgência de Outro Sítio"

Desta vez as Quartas-Mal Ditas são à terça, expressamente para comemorarmos o 10.º aniversário do desaparecimento de um grande poeta:
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DANIEL FARIA.
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Tinha 28 anos quando mudou para o outro lado aquele que premonitoriamente escrevera:
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"Sou urgência de outro sítio."
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Dia 9/6, às 22 horas, num carro eléctrico em frente ao Clube Literário do Porto, à Rua Nova da Alfândega.
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Estarão presentes vários poetas e intelectuais que darão o seu testemunho sobre o poeta da "Explicação das Árvores e de Outros Animais":
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Nuno Higino, Paulo Renato, Joana Salgado, Henrique Manuel S. Pereira e outros.
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Leitura de poemas pelo colectivo das Quartas Mal-Ditas.
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Coordenação de Anthero Monteiro

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Corpos e Anthero Monteiro na Feira do Livro do Porto


























Sábado, dia 6, a Corpos Editora comemora o seu 9.º aniversário com várias iniciativas na Feira do Livro do Porto.

Às 16 horas, na Praça Central, Anthero Monteiro apresenta a 2.ª edição do seu livro de poesia DESESPERÂNSIA, com prefácio de Manuel Poppe.
Decorrerá um pequeno espectáculo poético com leituras em diálogo pelo autor e por Luís Carvalho.

Mais tarde, conforme indicado serão as actuações de Ricardo dePinho Teixeira e de Cristina Bacelar.

Outras informações:

- Ontem, chegou a Portugal, vinda do Brasil, a ANTOLOGIA POETRIX 3, organizada por Goulart Gomes, na qual participam algumas dezenas de autores de todo o mundo, incluindo portugueses, entre eles Anthero Monteiro. O livro encontra-se à venda, tal como Desesperânsia, no stand do Clube Literário do Porto.

- Hoje, sexta, dia 5/6, às 21.30 horas, será apresentado pelo P.e João Bezerra, na Junta de Freguesia de Santa Maria da Feira, evento inserido na sua semana cultural, uma colectânea de ensaios intitulada CATORZE ESCRITORES DO NORTE, organizada e ilustrada por Orlando da Silva. Nela colaboram Anthero Monteiro, Abílio F. da Silva, Fonseca Gaspar, Henrique Manuel S. Pereira, Humberto Rocha, António Candido Franco, Manuel Lima Bastos, Paulo Samuel, Carlos Maduro, Manuel Poppe e Celestino Portela.