segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Dias húmidos na ilha


















Funchal -
Festa da flor 2007
in
www.madeira-web.com


os plátanos choram os jacarandás
que lhes cantaram as horas matinais
durante incontáveis luas e muitos sóis
de antigamente

havia carros de bois passeando turistas
na placidez dos verões na avenida do mar
e uns barcos de cruzeiro lançando miúdos
às moedas na baía

cantava-se na rua e as floristas ajeitavam
ramos de antúrios e orquídeas com fitas rosa
brilhando nas mãos de quem sabe bordar
e nunca aprendeu a falar inglês

no Golden Gate cheirava a tabaco e a café
aromático do Brasil arrefecendo na mesa cheia
de conversa cinzeiros copos de brandy e jornais
sobre as cadeiras de vime cansado

os plátanos hoje choram os jacarandás ausentes
e não chove nem há brisa nos dias húmidos
da ilha tornando-os longos e sempre iguais
aos contos de Joyce no livro fechado
-
José António Gonçalves, inédito (25/07/04)
in http://recantodasletras.uol.com.br


N. Funchal, 1954.
Para saber mais (e há muito a saber) sobre este prolífico escritor madeirense,
consultar aqui e/ou aqui.
Convirá, entretanto, anotar que o poeta faleceu, apenas com 50 anos, em Março de 2005.

No meu desejo





















Foto A.M.



Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.

Eugénio de Andrade, O Sal da Língua,
Ed. Fundação Eug. Andrade, Porto, 1ª ed., 1995

O lugar da casa










Foto A.M.




Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade

Raízes











Foto A.M.



Quem me dera ter raízes
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lódão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.

Jorge de Sousa Braga, Herbário,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1999

Azagaia, árvore, sombra




















Foto A.M.




Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.

Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece
se ilumina de repente

e os distinguimos a contra-luz.
Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.

Em África, na casa onde nasci, e depois de casa em casa
- eram frequentes as mudanças ?
o meu pai pendurava uma azagaia na parede.

Sempre a mesma azagaia. Era um objecto nobre.
marcava um hábito guerreiro: imaginar que a sustinha sobre a cabeça,
que a arremessava longe, trespassando a sombra

da árvore que se erguia no quintal.
trespassava a sombra e não a árvore, repare-se.
E então a sombra, sob o sortilégio do imaginado arremesso,

começava a retrair-se e a afilar-se. Desaparecia.
Com o desaparecimento da sombra
ficava apenas a árvore e a longa azagaia presa ao solo.

A sombra de uma árvore visita-me agora.
Vem nos meus sonhos recentes dizer-me que há um livro
nos sonhos, e que esse livro se escreve

com a linguagem crepuscular da memória.
Sei que se trata de uma sombra órfã.
Que se soltou das contingências de lugar e luz

para viajar no eterno. Sei agora que a substância da árvore
se aliou à substância da azagaia. Que ambas vibraram,
continuam a vibrar, juntas.

Luís Quintais

Natural de Angola (1968). Antropólogo social, professor no Departamento de Antropologia da Univ. de Coimbra.
Autor de A Imprecisa Melancolia (1995, Prémio Aula de Poesia de Barcelona), Umbria (1999), Verso Antigo (2001), Angst (2002), Duelo (2004, Prémios Luís Miguel Nava - Poesia 2005 e PEN Clube Português de Poesia) e Canto Onde (2006).

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O copo de água







Jacarandás em
Jerez de la
Frontera




Devia ser nos começos do verão,
os inumeráveis jacarandás
de Jerez de la Frontera estavam em flor.
Nos pátios da luxuosa vivenda
onde me haviam instalado
(que o Governo confiscara
a um riquíssimo produtor de vinhos da região
por fraude fiscal,
agora destinada a hospedar gente da cultura),
os repuxos erguiam
os seus irisados fios de água
para logo os deixar cair molemente
na face doutras águas cativas
em grandes taças de mármore,
onde já flutuavam uma ou outra flor de jacarandá.
Aquele rumor, a que se misturava às vezes
algum canto de ave, parecia-me então
a música do paraíso.
Durante aqueles dias, eu ficava por ali
sentado toda a manhã com os meus papéis
e um copo de água, que o caseiro me punha
em cima da mesa, um copo de cristal
com grinaldas de flores
gravadas na parte superior.
Poucas coisas haverá tão bonitas
como um copo de água fresca no verão,
mesmo quando o vidro não tem o brilho
e a transparência do cristal.
O caseiro, cuja voz vinda doutro pátio
me prendia a atenção com cantares andaluzes
muito ornamentados,
também colocava cuidadosamente à noite,
na minha mesa de cabeceira,
um copo de água em tudo semelhante
àquele de que falei.
E como lhe referisse a beleza, ele ofereceu-me,
ao partir, o que estava no meu quarto,
como lembrança da minha passagem pela casa.
É esse copo que, desde então
- e já lá vão tantos anos! -
tenho à cabeceira, e sempre com água fresca,
como se o verão e a luz dos jacarandás
durassem eternamente.

Eugénio de Andrade, in Inimigo Rumor

Génesis







Imagem do
monte Olimpo,
Grécia.

Foto A.M.



«Cada palavra com sua andorinha
para te trazer a Primavera no Verão» disse

E muitas oliveiras
para que peneirem com as mãos a luz
e esta leve se derrame sobre o teu sono
e muitas cigarras
para que não as sintas
tal como não sentes o pulso no teu punho
mas pouca água
para que que a tenhas por divina e entendas o que significa a sua fala
e a árvore só consigo
sem rebanho
para que a faças amiga
e conheças o seu verdadeiro nome
rala sob os teus pés a terra
para que não tenhas onde alargar raízes
e não pares de buscar um pouco de fundo
e vasto por cima o céu
para que por ti sozinho leias a infinidade
-
ESTE
o mundo, o pequeno, o grande!

Odisséas Elytis, Louvada Seja,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, (tradução de Manuel Resende)

Poeta grego, natural de Creta (1911). Faleceu em Atenas (1996).
Prémio Nobel da Literatura em 1979.