segunda-feira, 16 de março de 2009

Lua adversa







Imagem in
astronomia12a.blogspot.com




Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

Remédio





Busto de João Penha em Braga.

In
upload.wikimedia.org



Oh ventura perdida, mal sonhada!
Quem dissera que tudo acabaria,
Como este meu charuto em cinza fria,
Em fumo que se esvai no obscuro nada!

Deixaste-me, julgando-te adorada
Pelo moço de estranha galhardia,
Que no aspecto e nos gestos reflectia
O Manfredo sombrio da balada.

Abalroando ao penetrar na barra,
Senti do ciúme a lacerante pua:
Quis ir-te em cima, erguida a cimitarra.

Mas foi-se-me depressa a ideia crua,
Graças a um vinho de espanhola parra
E à mudança benéfica da lua.

João Penha, Rimas,
Aveiro, Estante Editora, 1990.

João Penha nasceu junto da Praça Municipal de Braga, em 1838.
Matriculou-se em Teologia, mas acabaria por se formar em Direito em Coimbra.
Entretanto, fundou, em 1868, A Folha, aberta a todas as correntes literárias e aos nomes mais sonantes da literatura da época. A revista duraria 5 anos, mas ficou na história como o órgão dos parnasianos e realistas. O poeta colaborou ainda em muitos outros jornais e revistas.
Apesar de um apelo em seu favor feito pelo Diário de Nortícias e de uma pequena pensão que lhe foi atribuída pelo Parlamento, João Penha morreu na miséria em 1917.
Os seus poemas fazem eco de uma vida aparentemente estroina que terá levado, mas é um autor extremamente importante, com influência em muitos outros poetas até da actualidade, mesmo que eles não dêem por isso. É que João Penha, como se vê neste poema, não se compadece com o tom piegas de certa poesia, acabando sempre por se rir às escâncaras na cara dos sisudos e dos românticos remanescentes.
O jornalista e escritor Francisco Duarte Mangas, natural do mesmo distrito de Braga, coligiu os melhores textos do poeta em duas antologias.

Nota: O título do poema é da minha responsabilidade.

Fado para a Lua de Lisboa
















Foto in
4.bp.blogspot.com





Ó Lua, espelho do chão
que andas no céu pendurado,
holofote da ilusão
pelo turismo alugado,
não ilumines em vão
os sulcos do empedrado!
-
Denuncia nas valetas
as sombras que tu arrastas:
prostitutas, proxenetas,
silhuetas de pederastas...
Colos brancos. Rendas pretas.
Casas tortas. Pedras gastas.
-
As rugas do sobressalto,
Ó Lua não as destruas!
Tu viste carros de assalto
rondarem por estas ruas;
viste rolarem no asfalto
vestes mais alvas que as tuas.
-
Foste a lua a que se expunha
aos tiros a multidão;
espelhaste na tua unha
a secular aflição;
e já foste testemuha
dos fogos da Inquisição.
-
Procissões do Santo Ofício...
Fileiras de condenados...
À noite, nem só o vício
rasteja por estes lados:
as serpentes do suplício
silvam nos pátios murados...
-
Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!
Não queiras passar ao lado
da desgraça que visitas!
Nem queiras ser infamado
passatempo de turistas!
-
Clorofórmio dos enfermos,
se foges dos hospitais,
então recolhe-te aos ermos
desertos celestiais!
E quando te não merecermos
não te acendas nunca mais!
-
David Mourão-Ferreira, Obra Poética,
Lisboa, Editorial Presença, 1996, 2.ª ed.

Balada da Praia do Vidigal





















Marc Chagall, Lovers in the moonlight in
http://render.vide.pl/


A lua foi companheira
Na praia do Vidigal
Não surgiu, mas mesmo oculta
Nos recordou seu luar
Teu ventre de maré cheia
Vinha em ondas me puxar
Eram-me os dedos de areia
Eram-te os lábios de sal.

Na sombra que ali se inclina
Do rochedo em miramar
Eu soube te amar, menina
Na praia do Vidigal…
Havia tanto silêncio
Que para o desencantar
Nem meus clamores de vento
Nem teus soluços de água.
Minhas mãos te confundiam
Com a fria areia molhada
Vencendo as mãos dos alísios
Nas ondas da tua saia.
Meus olhos baços de brumas
Junto aos teus olhos de alga
Viam-te envolta de espumas
Como a menina afogada.
E que doçura entregar-me
Àquela mole de peixes
Cegando-te o olhar vazio
Com meu cardume de beijos!
Muito lutamos, menina
Naquele pego selvagem
Entre areias assassinas
Junto ao rochedo da margem.
Três vezes submergiste
Três vezes voltaste à flor
E te afogaras não fossem
As redes do meu amor.
Quando voltamos, a noite
Parecia em tua face
Tinhas vento em teus cabelos
Gotas d’água em tua carne.
No verde lençol da areia
Um marco ficou cravado
Moldando a forma de um corpo
No meio da cruz de uns braços.
Talvez que o marco, criança
Já o tenha lavado o mar
Mas nunca leva a lembrança
Daquela noite de amores
Na praia do Vidigal.

Vinicius de Morais, Antologia Poética,
São Paulo, Companhia das Letras, 1972

Soneto à Lua



















Marc Chagall, Claire de Lune in
http://marc-chagall.vide.fr/claire-de-lune.aspx?id=12084

Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tão pouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

Vinicius de Moraes, Antologia Poética,
S. Paulo, Companhia das Letras, 1992

Menino que vais na rua...


















(Serenata cínica para o Bettencourt cantar:)


Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra!
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.
Aprende a pisar o Mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.
Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.
Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.
Pisa a lua sem remorsos,
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.
Pisa-a, frio, com coragem,
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.
Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra!
ou, então, salta p'rá lua
e mija de lá na terra.

José Gomes Ferreira

Doa Lua











Dona Lua é uma princesa
De sangue azul, verdadeiro...
Seu palácio – ah! que lindeza –
Tem o céu todo por chão.
Sete-Estrelo é o craveiro
Que dá flor no seu balcão…

Dona Lua é branca e fria
Como a espuma sobre a areia.
Às vezes, noite sombria,
Vem debruçar-se à janela;
E tudo em redor clareia
Da neve do rosto dela.

Dona Lua ama os poentes,
Não sai senão às tardinhas…
Tem poder sobre os doentes,
E os meus nervos de exaltado,
E as penas das criancinhas,
E as ondas do mar salgado…

Dona Lua é uma vaidosa,
Nunca vi vaidade assim!
Como sabe que é formosa,
Não cansa de se mirar:
Debruça-se ao varandim…
Qualquer dia, cai ao mar!

Dona Lua é perdulária,
De ninguém ouve os conselhos.
Vive entre incensos, é vária,
Por tudo se some e gasta.
Tem cem rios por espelhos…
Enfim, é mulher… e basta.

Dona Lua tem repentes
E uns nervos extravagantes:
Passeia, nua, os céus vagos;
E atira os seus diamantes
Aos rios, ao mar e aos lagos.

Dona Lua tem mistérios
Que bem no peito recata…
Por vezes, nos cemitérios,
Junto aos braços de uma cruz,
Despe os brocados de prata
E chora um leite de luz…

Dona Lua é requestada
De poetas sonhadores…
Ninguém já foi tão amada.
Em todos os versos passa.
Teve já milhões de amores,
E é pura e cheia de graça.

Demais, é, por sanguidade,
Neta de astros e de heróis;
Mas, cheia de caridade,
Nenhuma diferença a aterra:
Despreza o amor dos sóis
Pelo dos loucos da terra!

E é tão singular o encanto
Que ela tem, gelada e nua,
Que até eu, que apenas canto
Se estou nervoso e sombrio,
Cantando de Dona Lua,
Oh! Coisa rara!... – eu sorrio…

José Régio, “Colheita da Tarde” in Poesia II,
Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2004